Ringo Starr em São Paulo 2011
Em noite simpática, Ringo Starr e banda fazem show das antigas com dignidade
"Se vocês não conhecem esta, provavelmente estão no lugar errado, esperando pelo Lenny Kravitz", disse Ringo Starr. E puxou o coro de "Yellow Submarine", dos Beatles- ou como ele define, "aquela banda da qual eu costumava fazer parte".
ringo starr
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No palco, Ringo não cita sua ex-banda diretamente em momento algum. Talvez para não parecer que passa sua carreira capitalizando em cima da beatlemania - algo que, realmente, não faz. Aos 71, o baterista canhoto mais famoso do mundo (e beatle menos popular entre quatro) prefere apostar na sua simpatia e no ácido bom-humor com sotaque britânico para agradar a audiência.
Desde o final dos anos 1980, ele se apresenta com a sua All Starr Band, que nada mais é que um supergrupo com astros de bandas do passado, alguns legítimos one hit wonders, que se revezam no palco e nas turnês. Na formação atual, o mais moço tem 42 anos. No fundo, é uma grande e divertida reunião de amigos, tocando sua carreira com dignidade.
Mas é também uma oportunidade única de ouvir ao vivo alguns hits dignos de rádios adult pop tocados pelos seus criadores. Isso porque Ringo Starr é coadjuvante em seu próprio show. Depois da abertura, com dois sucessos da sua carreira solo ("It Don't Come Easy", de 1971, e "Choose Love", de 2005) e "Honey Don't", cover de Carl Perkins gravada em Beatles for Sale, o homem teve a desculpa perfeita para assumir a sua bateria, no centro do palco, onde passou a maior parte da noite.
Daí em diante, os outros membros da sua All Starr Band assumem os vocais e a apresentação se transforma em uma mixtape das antigas, cheia de sucessos da Billboard de três décadas atrás. Richard Page, vocalista da oitentista Mr. Mister, foi o que mais ganhou a plateia com "Broken Wings" (talvez por ela também fazer referência a "Blackbird"). Mas quase empatou no quesito coro com "Talking in Your Sleep" (da banda The Romantics, representada por Wally Palmar), a clássica balada "Dream Weaver", sofrida por Gary Wright, e a divertida "Hang On Sloopy", com Rick Derringer.
Outro belo momento: o multiinstrumentista Edgar Winter, que carrega o inusitado título de inventor do teclado preso ao pescoço com uma correia de guitarra, ocupou o palco com o seu épico de sintetizadores instrumental "Frankenstein", de 1973. Não é uma cena que se vê com frequência.
Mas voltemos a Ringo, que nesse momento nem estava no palco - saiu para trocar de figurino e voltou com uma camiseta com o símbolo hippie de paz e amor. Charmoso e falante como um Muppet, fica feliz se exibindo durante o show dos amigos, mesmo não sendo nem o principal baterista da banda (cargo ocupado por Gregg Bissonette). Ringo não é o melhor baterista do mundo, nem tem uma técnica sensacional e cheia de artimanhas. Mas tem ginga e esperteza, sabe ocupar seu espaço com o suíngue certo, reforçando as batidas de Bissonette.
Mas como bem sabe que o show ali é seu, Ringo Starr reclama a plateia de volta quando resolve voltar a cantar. É isso que acontece com as suas "The Other Side of Liverpool" e "Photograph", em homenagem a George Harrison. Curiosamente, deixa de lado as poucas composições que fez para os Beatles, como "Don't Pass Me By", e se foca nas músicas em que era o vocalista principal - "Boys", "Yellow Submarine", "Act Naturally" e "I Wanna Be Your Man" (dedicada "às mulheres da plateia, e também a alguns dos homens").
Dessa lavra "vocalista de ocasião" vem o encerramento, de longe o momento mais punjante da noite, quando Ringo lidera "With a Little Help from My Friends" com um trecho de "Give Peace a Chance" ao final.
Tudo bem diferente da overdose de comoções que foi a passagem de Paul McCartney, comparação inevitável. A onda é mais familiar, amiga e low profile. Talvez porque, no caso de Paul, seja a apresentação de um mítico (e talvez morto) ex-Beatle. Aqui, é o show liderado pelo simpático e histórico Ringo Starr, que costumava ser quarto membro e baterista.... daquela banda lá.
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Fotos: Rafael Koch Rossi e MRossi
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