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A trajetória de MF Doom, o "Doutor Destino" do rap

Saiba mais sobre a história de Daniel Dumile

A cozinha
18.01.2021
14h38
Atualizada em
18.01.2021
14h48
Atualizada em 18.01.2021 às 14h48

No final de 2020, o hip hop perdeu um dos seus maiores heróis - ou melhor - um dos seus maiores vilões. Daniel Dumile, mais conhecido como MF DOOM, foi um dos músicos mais influentes da história e ganhou o título de “o rapper preferido do seu rapper preferido”.

Com uma identidade inconfundível, ele se destacou pelo seu flow único, vocabulário extenso, lírica versátil, produção afiada e muitas referências de cultura pop. Mas antes de reconhecer DOOM como a lenda que ele se tornou, a gente precisa entender toda a sua trajetória.

Daniel Dumile nasceu no começo dos anos setenta em Londres. Sua ligação com o rap começou quando sua família foi pra Nova York, ainda durante sua infância. Foi lá que Daniel e seu irmão mais novo, descobriram o hip hop e criaram o hábito de gravar as músicas que tocavam na rádio. Com o passar do tempo, os dois entraram de de cabeça nesse universo e, ao lado de um amigo, criaram um grupo chamado KMD, “Kausando Muito Dano” na tradução em português. Esse grupo começou fazendo graffiti e performando break dance, mas eventualmente também aderiram ao rap, onde se destacaram mais.

Mas os nomes dos irmãos não eram tão impactantes pro meio do hip hop, então eles decidiram adotar nomes artísticos: Daniel se rebatizou como Zev Love X e seu irmão se tornou DJ Subroc. Em 1991 eles foram contratados pela Elektra Records e gravaram seu primeiro disco, Mister Hood, que fez um sucesso moderado. O carro chefe do disco era a música "Peachfuzz", que teve seu clipe exibido na MTV americana.

Mesmo sendo um trio, Dumile tinha mais tempo de rima em praticamente todas as músicas do disco. Ele ainda não tinha desenvolvido o que veio a se tornar seu estilo característico, mas era facilmente o que mais se destacava no trio. Os irmãos amadureceram bastante no curto espaço de tempo que eles tiveram entre o primeiro e o segundo álbum, em 1993. O novo trabalho levou o nome de Black Bastards e era bem ambicioso. O KMD queria fazer um álbum mais político e provocativo que o anterior, que se destacasse no meio do boom do gangsta rap.

Tragédia e música

Quando faltavam só duas músicas pra encerrar a produção de Black Bastards, o irmão de Daniel morreu tragicamente após ser atropelado por um carro, enquanto tentava atravessar uma rodovia. Subroc tinha apenas 19 anos. No enterro, eles colocaram ao lado do caixão um boombox tocando Black Bastards, a última contribuição artística que ele deu ao mundo.

Como se não bastasse o luto, Daniel teve que lidar também com a frustração profissional. A gravadora que assinava o grupo se recusou a lançar o álbum, pois achou que, devido a capa controversa e os temas raciais abordados nas músicas, o disco não teria um apelo com o grande público.

Reprodução

De luto e frustrado com a indústria, ele decidiu abandonar o hip hop. Entre 1994 e 1997, Dumile passou a viajar entre Atlanta, cidade que sua família estava morando, e Nova York, onde ele não tinha casa e vivia como um morador de rua, dormindo pelas praças.

Enquanto isso, uma versão pirateada de Black Bastards corria pelas ruas, ajudando a estabelecer Dumile no cenário do hip hop underground, algo muito similar aconteceu com a famosa fita demo perdida do Black Alien e Speed Freaks.

No final dos anos 90, numa sessão de poesia com microfone aberto, Dumile se apresentou pela primeira vez desde a tragédia com o irmão. Dessa vez usando um novo vulgo: MF DOOM. Não é muito difícil de entender de onde “Doom” vem, já que o nome dele é Dumile e o apelido sempre foi esse, mas também tem uma outra camada de significado aí.

O rapper sempre foi fã de quadrinhos e foi justamente nos vilões da cultura pop que ele encontrou as principais referências pro seu alter-ego no rap, em especial o arqui-inimigo do Quarteto Fantástico: o Doutor Destino, ou Doctor Doom.

Já o MF tem outra origem. Um amigo sugeriu que ele colocasse essa sigla, que tem o significado de “mad flow”. Ele adotou a sigla, mas da sua própria maneira. Como nessa época ele usava uma máscara pra cobrir o rosto e manter seu anonimato, o MF pra ele significava “metal face”, em referência a sua máscara de metal que com tempo teve uma evolução

Essa máscara mais famosa é inspirada no personagem Maximus, do filme Gladiador, e se tornou seu símbolo oficial e seu rosto a partir daí. Ela representa tanto a identidade de DOOM, que ele nunca foi visto sem máscara em nenhuma aparição pública.

Seu primeiro disco nessa nova fase foi Operation Doomsday, lançado em 1999. Nesse álbum já vemos muito do que viriam a se tornar traços característicos do estilo do DOOM, desde a produção dos beats que trouxe muita influência do trabalho do seu irmão como produtor, às rimas ácidas e diretas. Talvez esse seja o trabalho menos ousado de Dumile, mas mostra uma clara evolução entre o que foi Zev Love X e o que se tornou MF DOOM.

A capa traz uma versão alternativa do vilão Doutor Destino e vários dos samples do disco são de uma antiga animação do Quarteto Fantástico, acentuando o lado nerd e vilanesco do MC.

Reprodução

Confira acima nosso Retrato Omelete completo sobre o músico.

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