Marcelo D2 reflete o legado do disco A Invasão Sagaz do Homem Fumaça do Planet Hemp: “as letras são mais atuais agora do que há 20 anos”

Créditos da imagem: Divulgação/Planet Hemp;Reprodução/Marcelo D2/Instagram

Música

Entrevista

Marcelo D2 e os 20 anos do A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, do Planet Hemp

Músico falou ao Omelete sobre o terceiro álbum da banda: “as letras são mais atuais agora do que há 20 anos”

Gabriel Avila
28.09.2020
15h30
Atualizada em
28.09.2020
21h26
Atualizada em 28.09.2020 às 21h26

A chegada do ano 2000 foi sem dúvidas um momento de mudanças para o mundo. Em meio à uma renovação tecnológica e cultural, o clima era de esperança, mas também de muita instabilidade. É natural que essa incerteza se reflita na arte com obras como A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, o terceiro álbum de estúdio do Planet Hemp. Considerado como um dos melhores lançamentos da história do rock nacional, o disco trouxe alguns dos maiores sucessos da banda em uma sonoridade madura que levou a mistura de influências do grupo carioca ao ápice. 20 anos após seu lançamento, Marcelo D2 relembrou ao Omelete que, embora o lançamento tenha trazido muita raiva e revolta, sua gravação foi pacífica.

“Talvez tenha sido o clima mais tranquilo que a gente já gravou de todos os três discos. A gente estava ficando mais velho, já tinha ido preso em 1997, ganhou dois discos de platina, a gente já tinha brigado e feito as pazes. Então, o que estava acontecendo naquele momento é que a gente estava realmente num clima de paz”. Para D2, parte dessa serenidade estava na longa estrada da banda, especialmente na experiência adquirida com Usuário e Os Cães Ladram mas a Caravana Não Pára, os dois primeiros álbuns do grupo. “Tinha uma impressão que o Planet já estava acabando, de que seria o último tiro. Mas todo mundo estava consciente de qual era sua posição na banda e de sua carreira. (...) Então todo mundo tinha muita certeza do que queria fazer e já sabia o que fazer em estúdio. Os outros dois discos foram de aprendizado. Nesse a gente era dono do estúdio”.

É claro que esse clima de tranquilidade entre a banda não significa que a sonoridade do álbum deixou a clássica agressividade de fora das músicas do Planet Hemp. O maior exemplo está em “Ex-Quadrilha da Fumaça”, faixa que abre o disco após a introdução “12 com Dezoito”. A canção, que ficou muito famosa graças ao clipe protagonizado por macacos pilotando aviões, foi uma resposta à prisão do grupo em 1997 após um show, acusados de fazer “apologia ao uso da maconha”.

Marcelo D2 contou que a composição da canção começou ainda enquanto estavam presos. “Quando a gente leu o BO descobriu que foi preso por apologia às drogas e formação de quadrilha, o que era o ‘12 com 18’ na época. Aí a gente falou ‘p*** que pariu, a gente fez uma banda e acabou virando uma quadrilha aos olhos da justiça’ e riu disso para caramba. Aí a gente começou a brincar que era a esquadrilha da fumaça, isso dentro da cadeia ainda. Lembro que o Rafael [Crespo] veio com esse riff de guitarra, na hora saiu o refrão da minha cabeça.”

O músico revelou também que Bezerra da Silva teve grande influência no estilo da canção. “A coisa do Planet para mim - e isso me ensinou muito a escrever nesse contexto - é que teve muito do sarcasmo do Bezerra da Silva. Sempre disse que queria cantar rap igual Bezerra cantava samba. O sarcasmo dele de debochar de toda a situação era muito gostoso, um tipo de inteligência que me interessava. Então essa coisa de falar ‘adivinha doutor quem está de volta na praça’ é muito inspirada nele.”

Marcelo D2 relembrou que o processo de composição de Sagaz Homem Fumaça levou a colaboração dentro do grupo a um novo nível. “O processo desse disco todo foi muito assim: alguém chegava com uma ideia, o outro levava para frente, o outro fazia mais uma coisinha… Esse tem uma participação maior de todo mundo porque ficava todo mundo no estúdio. Foi o disco mais colaborativo do Planet Hemp, em que todo mundo participa”.

Um bom exemplo dessa junção de ideias foi “Stab”, outra canção que entrou para os clássicos do grupo. “O [produtor] Zé Gonzales cortou aquele sample que inicia a música, e na época a galera levava muita jam no estúdio. A ideia era fazer uma base de rap por cima desse stab, mas a galera começou a pensar e falou ‘vamo levar uma jam por cima desse negócio aí’. Daí vem o Jackson nessa guitarra, o Rafael no baixo, o Daniel Ganjaman no teclado e Pedrinho na bateria. Os caras fazendo jam, foi ficando boa, daí Bernardo [B Negão] apareceu com esse refrão que eu acho genial…”

A construção da faixa foi tão única que D2 a considera uma espécie de divisor de águas em sua forma de compor. “Essa música teve um jeito diferente de fazer que para mim é muito hip hop, que é esse de começar com um loop e depois seguir em frente. Essa maneira de fazer seguiu pela minha carreira por muitas e muitas composições”, afirmou.

A icônica capa de Marcello Quintanilha

Além de toda a evolução sonora do Planet Hemp, o disco Sagaz tem como chamativo também a capa, assinada pelo quadrinista Marcello Quintanilha. Mais do que uma simples ilustração, a arte continua por todo o encarte do álbum em um trabalho que ajudou a definir toda a temática do lançamento. “A gente não tinha o nome do disco até o último minuto, a gravadora cogitou chamar só de Planet Hemp. A gente tinha feito a música “Sagaz Homem Fumaça”, e o Bernardo veio com a ideia de transformar esse Homem Fumaça em anti-herói. Eu estava lendo o quadrinho do meu xará Marcello Quintanilha e tem uma cena com a visão do menino na cozinha. Ele vê a mãe com as panelas no alto. Na hora passou minha infância ali. Daí quando veio a ideia do Bernardo eu falei ‘cara, to lendo esse quadrinho aqui, dá uma olhada’. A galera curtiu o traço e falou ‘pô vamo falar com o cara’. E foi irado”.

Marcelo D2, que é entusiasta dos quadrinhos, “especialmente os da década de 1970, como o [Robert] Crumb e tal”, ficou mais do que contente com a arte que estampa o álbum. “Amo essa capa… Aquele personagem representa muito o que a gente queria falar com aquele disco. Os discos do Planet sempre foram muito temáticos: Usuário é sobre a coisa para ser um usuário sem precisar da guerra, o segundo que é de uma liberdade de expressão e esse terceiro que é sobre um anti-herói. Aquele cara que quer levantar a mão para falar e a sociedade não deixa. Ele me passa uma coisa de quem sabe o que quer, mas que para ser ouvido vai precisar meter o pé na porta”.

Capa de Marcello Quintanilha para o álbum A Invasão Sagaz do Homem Fumaça do Planet Hemp
Divulgação/Planet Hemp

A Invasão do Sagaz Homem Fumaça 20 anos depois

Em 2020 A Invasão do Sagaz Homem Fumaça completa 20 anos, um período que para D2 infelizmente só fortaleceu os temas que o grupo trouxe para a gravação. “As letras do Planet Hemp são mais atuais agora do que há 20 anos atrás. Naquela época a gente estava falando ‘porra, a milícia vai acabar tomando conta’ e agora eles estão mandando. A gente falava ‘a polícia está matando para caramba’, só que a polícia matava muito menos naquela época do que agora. A gente vive numa época meio distópica, é meio triste isso.”

Para Marcelo D2, um dos exemplos dessa época distópica está nas constantes manifestações pedindo pelo retorno da ditadura militar, período em que mais de 20 mil brasileiros foram torturados e mais de 400 foram mortos ou desapareceram. “Nasci no meio da ditadura militar, não lembro direito. Mas cara, quando eu comecei a entender as coisas percebi que tinha a esperança de ver um Brasil melhor depois da ditadura. Depois disso, comecei a fazer a banda e a esperança foi uma coisa que me levou para frente e me motivou a vida quase toda. Olhar agora pro Brasil é muito desesperançoso e triste. Caraca, cara, por que tanto ódio? Pô, pedir volta da ditadura… As pessoas são idiotas”, disparou.

Não que D2 acredite que tudo mudou para pior, mas é inegável que o Brasil - e o mundo - vive em uma corda bamba entre o progresso e a regressão. “Agora as pessoas têm mais tolerância em relação a questões sexuais e a própria maconha, e ao mesmo tempo a gente elegeu um presidente que é contra tudo isso. A gente vive num momento de extrema-direita e de extremismos que é muito distópico para a minha cabeça. Melhorou, mas aumentou a idiotice também.”

Pouco após o lançamento de A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, o Planet Hemp gravou um álbum ao vivo e encerrou suas atividades. Após um hiato de mais de dez anos, o grupo voltou aos palcos em 2012 e atualmente prepara um disco inédito que, segundo Marcelo D2, deve sair ainda em 2020 e refletirá esse “atual momento distópico” que a sociedade atravessa.

Além do disco de inéditas do Planet Hemp, Marcelo D2 acabou de lançar Assim tocam MEUS TAMBORES, sétimo álbum de estúdio de sua carreira solo produzido de forma colaborativa durante lives na Twitch.

 

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