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Teatro não eclipsa a música no espetáculo distópico do My Chemical Romance

Ícones maiores do emocore ainda representam o que o movimento tinha de melhor

Omelete
3 min de leitura
05.02.2026, às 23H35.
My Chemical Romance em São Paulo (Caio Coletti/Omelete)

Créditos da imagem: My Chemical Romance em São Paulo (Caio Coletti/Omelete)

Em 2006, o My Chemical Romance já via a distopia. Mas The Black Parade, álbum cujos 20 anos a banda celebra na turnê que fez primeira parada no Allianz Parque, em São Paulo (SP), na noite de hoje (5), é menos escritura profética e mais manual de sobrevivência.

O disco virou símbolo do emocore, movimento que deu nova vida ao rock n' roll de meados dos anos 2000, por traduzir em puro drama as ansiedades da geração que começou a ver as rachaduras na civilização contemporânea se revelarem como estruturais, e incuráveis. Ali nasceu, de certa forma, uma desesperança paralisante que viria a definir essa mesma geração, hoje nos seus 30 e poucos anos de idade.

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Celebrar The Black Parade, portanto, é celebrar esta visão talvez já ultrapassada. Daí que Geard Way e seus asseclas trazem para São Paulo um teatro desavergonhadamente demodé, resgatando influências barrocas e novelescas que faziam todo o sentido para o ambiente cultural dos anos 2000 - e para o público late millennial do My Chemical Romance, que cresceu embebido nos ultra-artificiais anos 1980 e 1990. Em outras palavras: se você não acompanhou A Usurpadora nem viu Edward Mãos-de-Tesoura na Sessão da Tarde, esse espetáculo não é para você.

A "trama" da primeira metade do show, onde a banda toca o The Black Parade completo na ordem original, se passa em um hospital psiquiátrico. Way e seus colegas de banda são pacientes, rodeados de enfermeiras e ajudantes que se integram também ao espetáculo musical - uma das moças sobe numa plataforma para tocar violino quando não está atuando, por exemplo. Nesse cenário, contextualizado ainda dentro de toda uma sociedade futurista ficcional, a amizade entre Way e outro paciente vai entrando em conflito com os interesses institucionais do hospital, e tudo vai se desenvolvendo em linhas gerais para desaguar num clímax sangrento.

Junto com esse resgate estético vem uma mística que simplesmente sumiu da música mainstream desde mais ou menos a decadência do emocore. Nenhum rockstar hoje é como Way, com sua maquiagem de Boris Karloff galãzinho alternativo, seu fraseado rasgado e expressivo ao microfone, sua coreografia perfeitamente sincronizada às quedas e ápices das canções. Com ele, o drama é o ponto, a própria razão de haver um frontman em uma banda como o My Chemical Romance.

Até porque, musicalmente, eles funcionam em perfeito uníssono. As paredes de guitarra formadas por Ray Toro e Frank Iero são imponentes, acompanhadas sen esforço pela levada do baterista Jarrod Alexander (substituto de Bob Bryar, que faleceu em 2024) e do baixista Mikey Way. É trabalho do vocalista, com seu timbre esganiçado, perfurar essa solidez sonora para guiar as flutuações de tom e ritmo que marcam tanto da música do My Chemical Romance - aquela queda de acordes famosa em "Helena" está longe de ser filha única, e ainda bem.

A alquimia deles como banda é uma que ninguém conseguiu replicar com precisão nos últimos 20 e poucos anos, e essa alquimia não se deixa eclipsar pelo teatro em nenhum momento do show. Tanto que não é um grande baque quando, depois de tocar o The Black Parade inteiro, Way e cia. se despem de todo o teatro pra fazer uma segunda parte de espetáculo sem firoulas, misturando hits e b-sides de outros álbuns vestindo jeans e camiseta, na frente de uma tela de LED exibindo estática televisiva.

Eles ainda são, enfim, o que o emocore tem de mais representativo. Marcadores de uma época, o My Chemical Romance prova hoje que ainda há valor, e prazer, em ouvir os gritos dos tempos que serviram de prelúdio perigoso para os nossos.

*O My Chemical Romance se apresenta novamente na sexta-feira (6) no Allianz Parque, em São Paulo (SP).

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