Música

Artigo

Lembrando Lennon

Lembrando Lennon

Fernando Tucori*
07.12.2000
00h00
Atualizada em
15.12.2016
01h03
Atualizada em 15.12.2016 às 01h03

Lembro exatamente quando foi que notei a presença de John Lennon no mundo.

Foi perto do Natal de 1979. Eu tinha pouco mais de 6 anos de idade e minha prima havia acabado de ganhar um violão. Todo mundo pedia para que ela tocasse alguma música do John Lennon. Era Lennon pra lá. Lennon pra cá. Toca essa! Não, toca aquela! Com aquela curiosidade e com o julgamento que um moleque de seis anos era capaz de fazer (e olha que alguns moleques crescem e continuam usando esses mesmos parâmetros em seus julgamentos), perguntei: "Esse John Lennon é bonito&qt;&". Meu primo Ivan respondeu que ele parecia um frango. Isso fazia sentido pra mim, porque meu primo Ivan, ainda hoje, se parece com um frango. "E a mulher dele, é bonita&qt;&", tornei. Minha tia Elisa respondeu que a mulher de John era linda. Por causa disso, durante um bom tempo eu achei que a mulher de John era Linda, a McCartney. Logo depois, quando descobri que a mulher de John era Yoko e não Linda (muito menos linda), aquilo fez sentido. Minha tia era igual a Yoko. Quase igual. E se achava linda. Por horas e horas, ficamos vendo minha prima tocando aquele violão. Todos em volta e a maioria até cantava. Minha avó ficava perguntando se o Lennon era "dos Beatles ou dos Rollinstône" e meu avô olhava tudo aquilo acontecendo com um leve sorriso no rosto. Aquele típico sorriso de quem vê o mundo girar, a vida aparecer ou alguma outra coisa tão sensacional que a gente até se acostumou com ela.

Depois disso, eu trombava com John Lennon em tudo quanto era lugar. Minha mãe falava nele, ele aparecia na televisão e ele estava na capa daqueles disquinhos de um amigo de meu pai, que era radialista em Poços de Caldas, e que odiava ver que eu e o filho dele nos associávamos para ouvir discos dos Beatles em 45 rpm, porque "ficava mais legal de pular".

No Natal seguinte, a história foi outra. Ninguém mais falava em John Lennon e minha prima até se arriscou a levar o violão, só que não tirou o instrumento do saco em momento algum. Eu não entendia nada. Mas, achando que o normal era o que eles faziam, fiquei na minha até chegar em casa."Mãe, por que ninguém mais gosta do John Lennon&qt;&", perguntei. Ela disse que as pessoas ainda gostavam dele e gostavam mais do que nunca, mas estavam tristes. "Tristes por quê&qt;&" e ela respondeu, como se contasse uma história, que alguém tinha matado John Lennon na porta da casa dele. Todo mundo gostava dele mesmo que ele parecesse meu primo Ivan, mas, ainda assim, alguém ia matar John Lennon na porta da casa dele&qt;& Aquilo não fazia sentido. Para mim, o beatle John era uma espécie de super-herói. Dei de ombros para mamãe e disse: "Não se preocupa. Ele é imortal". Mal sabia eu, aos sete anos de idade, o quanto eu estava certo a respeito da imortalidade de John Winston Lennon.

Foto - site oficial dos Beatles