Música

Entrevista

Jonathan Wilson comenta novo álbum e fala da influência de Roger Waters

Guitarrista que veio ao Brasil com o fundador do Pink Floyd lançou trabalho profundo e psicodélico, que vale a pena ouvir

Julia Sabbaga
26.10.2018
17h50

Na banda de Roger Waters, que passa pelo Brasil este mês, diversas coisas chamam atenção. Além de marcar manchetes por um espetáculo audiovisual, fazer protestos e revisitar o catálogo do Pink Floyd com um setlist exemplar, o fundador da banda de progressivo é acompanhado por uma legião de músicos impressionante. Um dos destaques do conjunto é o guitarrista e vocalista Jonathan Wilson, que carrega vocais em diversas músicas e chama atenção por inevitáveis comparações com David Gilmour. Mas o músico é muito mais que o guitarrista de Roger Waters, e provou isso algumas vezes na sua carreira, principalmente com um belo disco lançado este ano, Rare Birds.

Andrea Nakhla/Divulgação

No show de Waters, é difícil não associar Wilson a Gilmour, mas isto não foi algo ignorado quando o guitarrista entrou na banda. Segundo o próprio, em entrevista ao Omelete, sempre houve um cuidado para não copiar o vocalista do Pink Floyd: "Roger e eu conversamos lá no início sobre não copiar Gilmour, por mais que eu e ele tenhamos muitas semelhanças, desde o jeito de tocar guitarra ou o vocal ofegante". O cargo é preenchido perfeitamente, aliás, sem desrespeitar o lugar: "eu gosto de estar neste papel, sem copia-lo, mas evocando seu espírito".  

A parceria com Waters, que ultrapassa o palco, começou quando o produtor do último álbum de Rogers, Nigel Godrich, o convidou para tocar em Is This the Life We Really Want?, trabalho que tem algumas semelhanças com o disco solo de Wilson. Questionado sobre se Waters é referência em suas composições solo, Wilson falou sobre uma influência recíproca: "Trabalhar com o Roger me influencia de certo modo, sim, porque ele esteve no estúdio durante a gravação do Rare Birds. Mas eu tive muita influência no álbum dele também, porque foi no meu estúdio, com minhas guitarras, baixos, teclados, baterias". Os trabalhos foram feitos quase simultaneamente: "eu amei trabalhar no  álbum dele e depois trabalhar em Rare Birds durante a noite inteira".

O resultado final de Rare Birds traz toques de progressivo, que sempre marcou a carreira de Wilson, e folk, mais dessa vez com mais psicodelia e muita fluidez entre faixas, o que faz com que o disco soe até como um trabalho conceitual. Wilson descreve sua sonoridade como "composições expressivas, belas, e coloridas". Outra novidade de Rare Birds veio na investida dos sintetizadores: "meu amor por sintetizador vem desde que eu descobri estúdios, quando criança, ou o rádio nos anos 80 e 90”. O curioso é que Wilson expressa uma influência tardia, sendo que grande parte da crítica o associa com a contracultura dos anos 60 e 70 dos EUA. Sobre isso, ele responde: "muitas pessoas falam sobre minha sonoridade como dos anos 60 e 70 mas os anos 80 foi muito mais importante para mim. Esta era a época que eu ouvia hits de Duran Duran, Peter Gabriel. No Rare Birds, sinto que minhas influências são mais difíceis de especificar".

Rare Birds deve marcar algumas listas de melhores álbuns do ano, e não sem merecimento. O trabalho de Wilson traz confissões de desilusões durante toda sua duração, o que colaborou com as descrições de um álbum conceitual. Sobre isso, ele conclui: "Nunca foi minha intenção, mas eu entendo isso. É muito revelador e muito autobiográfico, e eu desabafo tudo em algumas músicas. Eu passei por cada palavra do álbum, e foi por isso que demorou cinco anos para ser feito. Ele foi cheio de sacrifícios".