Música

Entrevista

John Digweed | O DJ “underground” mais superstar do planeta

“Ser DJ não é uma corrida e não é sobre ser o número um”

Jacídio Junior
01.10.2018
15h33
Atualizada em
04.10.2018
12h13
Atualizada em 04.10.2018 às 12h13

Existem nomes na música que representam não só o som que criam, mas todo um momento, o surgimento e a evolução de algo ainda maior do que o que eles pegaram no início de suas carreiras. O inglês John Digweed é um desses nomes.

Tatiana Chausovsky/Divulgação

Com uma carreira repleta de bons momentos e com faixas de qualidade incontestável, o DJ e produtor é conhecido como um dos profissionais mais constantes do segmento. Ele é o “DJ dos DJs”, já que sempre entrega faixas que apontam novos caminhos e ampliam as fronteiras sonoras do gênero, seja por meio de suas produções, seja buscando novos artistas e os colocando no mercado (por meio da sua gravadora Bedrock Records), ou ainda tocando sem parar ao redor do mundo.

Além disso, sua parceria com DJ Sasha, outro nome de grande importância para a música eletrônica, foi um dos principais pontos de divulgação do Progressive House ao redor do mundo. A dupla foi um dos fatores responsáveis pelo processo de abertura do mercado norte-americano para a música eletrônica e também para o surgimento dos primeiros DJs rockstars.

Digweed recentemente encerrou sua segunda temporada junto a Sasha como uma das atrações principais do RESISTANCE em Ibiza (braço do ULTRA Festival focado em Techno, Progressive e House, que ganhou vida própria há pouco tempo) e conversou com exclusividade com o Omelete sobre sua música, o retorno aos festivais com Sasha e muito mais. Leia abaixo.

De entrada, é necessário destacar que Digweed carrega como parte de sua história a realização da primeira grande turnê integralmente concebida por DJs realizada nos Estados Unidos. Para a época, cruzar as terras do Tio Sam lotando arenas somente tocando música eletrônica era algo quase impensável. Ainda, em conjunto com essa aposta, ele e Sasha desenvolveram a ideia de trabalhar com apresentações que entregassem mais informação visual (um pouco parecido com o conceito dos festivais que temos atualmente), então nada mais interessante do que saber se ele curte como a cena da música eletrônica tem se desenvolvido nos últimos anos.

“A cena cresceu de forma massiva desde que comecei e tocava quase somente em festas no Reino Unido. Agora, quase todas as festas em que toco acontecem em países diferentes e eu também gerencio uma label, tenho um programa de rádio de abrangência global, faço remixes, produzo, entre outras coisas. Eu amo estar envolvido com tudo isso e é uma parte muito importante para ser um DJ de sucesso atualmente”.

Sobre sua segunda temporada em Ibiza com Sasha e como parte das festas organizadas pelo RESISTANCE, ele comenta que as festas que tocou nessa temporada em Ibiza foram incríveis. “Muito trabalho envolvido para produção, promoção e criação do conceito e das atrações do festival”.

Diante de sua experiência e levando em conta todos os anos que vêm tocando na ilha espanhola, Digweed arremata afirmando que “Não existiu nada grande assim na ilha por anos e eles estão gerando um grande impacto, mostrando como um clube deve ser. Tocar nas festas certas é sempre importante, ser parte do RESISTANCE é algo realmente muito bom”.

Um detalhe interessante sobre a carreira de John Digweed é que ele e o DJ Sasha excursionaram, tocaram e criaram juntos por bastante tempo. Depois dessa temporada produtiva entre 1994 e o início dos anos 2000, os dois se distanciaram - sem nenhum anúncio oficial. Simplesmente cada um seguiu sua carreira solo - e passaram um bom tempo sem tocar juntos.

A história mudou em 2016 quando os DJs anunciaram o retorno conjunto às cabines, ideia posteriormente encampada pelo RESISTANCE que colocou a dupla para tocar ao redor do mundo. Sobre esse retorno viabilizado pelo projeto, Digweed confessa que retornar à estrada para uma turnê mundial com Sasha, sob o guarda-chuva do RESISTANCE, “tem sido a combinação perfeita”.

Ele destaca que isso se deve principalmente ao fato do projeto ter um padrão de produção muito alto. “Tocar em festas grandes com a certeza de que tudo foi organizado da melhor forma é o que a gente queria quando voltamos a fazer turnês juntos e eu não poderia estar mais feliz com a forma como isso funcionou com o RESISTANCE”.

O tempo de carreira, consistência criativa e uma gravadora com 20 anos de história

Digweed está na estrada desde o início da década de 80 e assume que ser DJ sempre foi seu objetivo. Porém, o inglês conta que apesar de sempre ter buscado isso, tudo que realizou até agora foi muito além do que sonhou. “Eu sempre quis ser DJ, desde os 11 anos. Então, tocar em alguns dos meus clubes dos sonhos no Reino Unido - no início dos anos 90 - e tocar ao redor do mundo pelos últimos 25 anos, com certeza foi muito além do que eu sonhei. Por diversas vezes eu achei que nunca conseguiria isso, mas eu nunca desisti do meu sonho, e fui tentando, tentando, até que alguém me ouvisse”.

E claro, em meio a uma carreira prolífica e cheia de momentos importantes para a história da música eletrônica, alguns pontos merecem ser destacados. Digweed e Sasha foram responsáveis pela criação da primeira coletânea vendida comercialmente com a função de divulgar um clube, a Renaissance: The Mix Collection. O projeto era composto por três discos mixados pela dupla.

Nesse mesmo período, Digweed também criou a Bedrock Records, seu selo/gravadora em conjunto com o produtor/DJ Nick Muir. O selo que surgiu como uma forma de mostrar o que Digweed estava tocando e ouvindo comemorou recentemente 20 anos de história. Sobre essa jornada, Digweed comenta que esse trabalho ele faz por amor, já que é preciso investir muito tempo. Mas ele faz questão de destacar que a recompensa de ver novos talentos começando a ser reconhecidos e construindo carreiras é o que faz valer a pena.

“Eu nunca pensei, 20 anos atrás, que nós ainda estaríamos funcionando, mas nós conseguimos muitas coisas e eu estou muito orgulhoso com o selo e com os fãs leais que conquistamos”.

Com todo esse tempo na estrada, criando em alto nível, será que Digweed tem algum segredo para se manter produtivo sem perder qualidade? Sobre isso ele é categórico: ”Eu vivo e respiro música 24 horas, o ano todo. Então, músicas novas me mantêm entusiasmado e motivado com o que acontece na cena”.

E por fim, a pergunta de ouro pra qualquer artista: Da perspectiva que ele tem hoje, sobre carreira e conquistas, será que ele está feliz?

“Cem por cento! Se eu tivesse que fazer tudo isso mais uma vez, eu não mudaria nada em minha carreira, nem mesmo os momentos mais difíceis que tive por muitos anos no início, já que eu acredito que isso me fez ser quem eu sou”.

E nesse ponto Digweed arremata com a possível fórmula do que o mantém na ativa sempre na melhor forma: “Ser DJ não é uma corrida e não é sobre ser o número um, é sobre ser consistente semana após semana, dando pro público seu melhor sempre. Se você fizer isso, você será chamado sempre”.

Um de seus trabalhos mais recentes, o projeto John Digweed - Live in Tokyo está disponível na Bedrock Records. Você também pode conhecer um pouco mais das faixas e da história de John Digweed em seu site oficial. E também no JacidiYou.