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<i>Emissões noturnas - cadernos radiofônicos de Fm</i>

<i>Emissões noturnas - cadernos radiofônicos de Fm</i>

Tatiana Tavares
27.01.2004
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h15
Atualizada em 21.09.2014 às 13h15
Emissões noturnas - cadernos radiofônicos de fm - Fábio Massari
4 ovos

Transformar um programa de rádio em livro pode parecer, a princípio, esquisito. Mas e daí? Afinal, as esquisitices - sonoras - sempre fizeram parte da vida de Fábio Massari. Segundo ele próprio, desde sempre, quando decidiu que queria trabalhar com música. Mas, ao invés de sair enlouquecendo os vizinhos com uma guitarra ou outro emissor de barulho qualquer, ele resolveu se dedicar ao que chama de "jornalismo rock" o que pode ser entendido como uma espécie de garimpo do que realmente vale a pena nesse mundinho tão cheio de novidades que é o rocknroll.

Emissões noturnas - cadernos radiofônicos de Fm é o segundo livro de Massari e assim como o primeiro, Rumo à estação Islândia (Conrad Editora), trata-se de uma experiência pessoal. A idéia, muito bem sucedida, era prestar um tributo ao rádio, veículo que, segundo Massari, sempre foi sua grande paixão. Para isso, o livro é graficamente como um caderno em que programas e anotações referentes a estes programas são registrados. Fotos antigas - Massari de cabelos compridos é quase irreconhecível - recortes de jornais, manuscritos, tudo dá a impressão de que o material saiu realmente de um arquivo, o que, diga-se de passagem, não é mentira.

Todas as entrevistas foram realizadas durante os seis anos do programa "Rock Report", da Rádio 89 FM, de São Paulo. Como o próprio autor conta na introdução, boa parte delas fazia parte de seus arquivos pessoais e a maioria já estava até transcrita das fitas cassete ou de rolo em que foram gravadas. Enfim, o livro estava quase pronto, esperando ser descoberto. Além disso, para manter este tom arqueológico, nenhuma entrevista foi atualizada, o que muitas vezes faz com que algumas declarações possam soar datadas. Por outro lado, há aquelas que parecem bastante atuais, devido à falta de originalidade de políticos e a mesmice da história mundial.

É um livro para "iniciados" no rock. Não há muitas explicações às referências sobre movimentos como o punk ou o psicodelismo, por exemplo. Nick Cave discorrendo sobre a importância dos Stooges para o punk australiano é um destes casos. Veja bem, estamos falando de underground, sim, salvo raras exceções, como a entrevista com Slash ou Bobby Gillespie, do Primal Scream (aliás, uma das mais bacanas). Ritual Tension, Ozric Tentacles e I Love You são alguns dos nomes mais obscuros.

Mas talvez o mais interessante de tudo seja a possibilidade de, através da leitura rapidíssima das pouco mais de 150 páginas, descobrir um mundo musical pouco explorado e cheio de possibilidades. Naquela época, não havia internet e os piratas não eram tão fáceis como hoje, o que torna este garimpo ainda mais valioso. Hoje, no entanto, pode-se procurar na rede coisas como Something about Joy Division, um tributo de bandas italianas ao clássico grupo inglês, trazendo nomes estranhos por aqui como Comic Spoilers ou Silver Surfers.

Material bacana, bem produzido - ainda mais se considerarmos o fato de que vem por uma editora independente - e que merece continuar arquivado, mas agora nas prateleiras, bem à mão, ao lado de outros poucos representantes nacionais desse tal "jornalismo rock".

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