Gal Costa mostra diferentes faces na ótima estreia da turnê de A Pele do Futuro

Créditos da imagem: Thiago Lins/Reprodução

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Gal Costa mostra diferentes faces na ótima estreia da turnê de A Pele do Futuro

Show baseado no novo trabalho da artista está à altura do disco

Thiago Lins
02.12.2018
18h10
Atualizada em
02.12.2018
18h39
Atualizada em 02.12.2018 às 18h39

Para a sorte dos fãs da MPB, a ala mais antiga de nossa música está em plena atividade neste final de ano. Caetano Veloso está para encerrar a bem-sucedida turnê Ofertório,  sua irmã Bethânia segue numa inesperada parceria com Zeca Pagodinho, Gilberto Gil acaba de iniciar a turnê de seu excelente Ok ok ok, Alceu Valença lançou o DVD de Vivo! Revivo! – onde revisita seus seminais três primeiros álbuns –, Milton Nascimento acaba de anunciar, para 2019, uma turnê de seu clássico Clube da Esquina, enquanto seu parceiro de clube, Lô Borges, acaba de encerrar uma incrível turnê do “Disco do tênis”. Chico Buarque encerra a longa turnê de Caravanas, Ney Matogrosso lançou o seu livro de memórias Vira-lata de Raça – e anunciou nova turnê para 2019 – e Gal Costa acaba de lançar seu novo disco e dar início aos shows de A Pele do Futuro.

A Pele do Futuro conta com um elenco estelar entre músicos e letristas convidados: Gilberto Gil, Nando Reis (seus companheiros em Trinca de Ases), Maria Bethânia, Jorge Mautner, Adriana Calcanhotto, Djavan, Erasmo Carlos, Emicida e Guilherme Arantes, só para citar alguns. Essa mistura de elementos mais do que ecléticos resulta – tanto no disco, como no palco – em uma Gal multifacetada, que abrange as mais diferentes fases da própria carreira. Como diz Marcus Preto, um dos produtores do novo trabalho, no encarte de A Pele do Futuro: “se fazem presentes e atuantes as galcostas de todos os tempos: fatais, legais, índias, tropicais, profanas, plurais, estratosféricas. De ontem e de além.” O show de ontem à noite, realizado na casa de espetáculos Tom Brasil, em São Paulo, refletiu essa pluralidade. Das vinte canções tocadas, sete pertencem ao novo disco,  enquanto as restantes deram conta de sintetizar os 53 anos de carreira da cantora.

A primeira parte do show trouxe à tona seu lado tropicalista, com uma pegada bastante voltada para o rock e o blues. As acertadas escolhas do ex-baterista da Nação Zumbi, o competente Pupillo – produtor de A Pele, diretor artístico do show e atual baterista de Gal – ao formar a nova banda da cantora refletem essa sonoridade: na guitarra Pedro Sá (responsável pela incrível banda do Caetano Veloso de 2006), no baixo Lucas Martins, no teclado Chicão e no sax e na flauta Hugo Hori. O show se inicia com uma ótima versão de “Dê um rolê” dos Novos Baianos, passando logo à bela “Mãe de todas as vozes” (música de A Pele, parceria com Nando Reis). A seguir, do escuro, surgem luzes vermelhas girando e o som de sirenes. É “Mamãe coragem”, música de Caetano interpretada por Gal no clássico álbum coletivo Tropicália ou Panis et circencis, um dos momentos altos da noite. O clima transgressor preparou terreno para que a cantora entoasse os versos:

Dona das divinas tetas/ Derrama o leite bom na minha cara/ E o leite mau na cara dos caretas

de “Vaca profana”, música de Caetano gravada por Gal em 1984. O público os recebeu num misto de surpresa e contentamento. A seguir foi a vez da música mais bonita do novo disco da cantora, “Viagem passageira”, composição de Gilberto Gil que, como muitas das canções de seu Ok ok ok, trata da morte. É de um dos versos de Gil nessa canção que surgiu o nome do álbum de Gal:

A pele do futuro, finalmente/ Imune ao corte, à lâmina do tempo

Fechando a sessão tropicalista, o público cantou junto “London, London”, de Caetano. “As curvas da estrada de Santos”, de Roberto Carlos, inauguram a segunda parte do show, que forneceu o tom romântico da noite: “Motor”, “Lágrimas negras”, “Volta” e “O que é que há” (as duas últimas somente com Gal e um Chicão à Garth Hudson, da The Band, no palco). Nesta parte do show também foram apresentadas mais três novas composições de A Pele: “Palavras no corpo”, “Minha mãe” (cantada com Maria Bethânia no disco e que, no show, Gal emendou em “Oração para mãe menininha”) e “Realmente lindo” (composição de Tim Bernardes). Em meio a tantas tristes histórias de amor, surge “Que pena”, de Jorge Ben, para fazer Gal sambar levantando as barras de seu longo vestido fúcsia e levar o público ao delírio.

Em “Chuva de prata” a cantora abre uma pequena caixa posicionado num canto do palco, revelando um engenhoso artifício cênico: uma superfície espelhada que fará o canhão de luz iluminar toda a casa de espetáculos por meio de inúmeros feixes. A luminosidade prenuncia a parte final do show, onde uma lua posicionada no meio do palco desde o início do espetáculo tem sua face oculta revelada: mais espelhos. Agora a atmosfera é de discoteca quando “Sublime” e “Cuidando de longe”, ambas do novo disco, e “Azul”, de Djavan, fazem o público ensaiar discretos passos de dança.

A noite teve fim com um breve bis, um medley de marchinhas e frevos – "Bloco do prazer"/"Balancê"/"Massa real"/"Festa do interior" – que fez boa parte do público levantar de suas cadeiras e dançar próximo à cantora, junto ao palco.