Escoliose
Escoliose

Sons novos e romance a preço de CD.
Hã? Já?
Ahn... e aí, beleza?
Depois
de ler montes e montes sobre o tal Ryan Adams (e sou obrigado a juntar-me
ao coro e gritar em desespero que não confundam com o Bryan Adams), resolvi
comprar Gold, seu último disco.
Antes de mais nada, confesso ser um antigo e fajuto fã do tal alt.country. Sempre simpatizei com o som dos gaúchos do TNT que, se não tinham consciência plena, já eram bastante influenciados por banjos e vozes anasaladas. Depois, algumas fajutices dos Stones ajudaram a moldar a base pra que o som dos Pistoleiros, trovadores catarinenses de qualidade, me dissesse que eu deveria realmente procurar algo na área.
E não é que o carinha aí faz um som do caralho? Banjos, violões de aço, 12 cordas e o escambau compõem alicerces de canções de melodia assobiável e letras que se calcam em uma espécie de melancolia-uplift, que não tem a empolgação idiotizante do punk e do hardcore californiano e muito menos a depressão suicida do pré-pós-rock inglês de um Radiohead.
Além do mais, são músicas simples que cabem muito bem no seu velho violão de nylon e devem agradar até mesmo aos adoradores de Paralamas e Legião, tão presentes nas rodas acústicas.
Comprei
também o 18 do Moby. Bom disco. A primeira faixa (e primeiro
single) We are all made of stars é foderosamente boa
- e extremamente injustiçada pelo simplismo das comparações com Bowie que
rolam por aí. No mais, é um disco com o pé fincado no jazz e com detalhes
de melancolia Aji-no-Moto - que deixa um amarguinho láááá no fundo. Play
era mais fácil e este deve precisar de alguns downloads pra se confirmar
ou não a empatia (e criar coragem pra pagar os 30 pau - masomenos
- que estão pedindo).
Falando nisso, está absurda esta história do preço dos CDs.
30 mangos por uma bolachinha que, quando feita em casa, sai por um e cinqüenta no máximo é palhaçada. Certo, incluamos no preço final coisas como copyright (como se as empresas pagassem direito, né Lobão?), impressão de encarte, distribuição e impostos... Será que fica por muito mais que 15 reais (que já é DEZ VEZES mais do que o caseiro!!!!)? Sei lá, tinha muita vontade de ver uma planilha de custos dessas empresas.
Eu sou entusiasta da pirataria light (aquele lance de bootlegs ao vivo, gravações raras e afins em CD), mas, a cada dia, entendo mais e começo a achar a pirataria de CD de loja a cinco pilas extremamente aceitável.
Será que é este o destino do amante da música não-biliardário? Correr atrás de camelôs pra lá e pra cá e ver se encontra alguma coisa decente? Ou ter como alternativa horas baixando coisas da rede e fazendo CDs ipsis literis ao oficial?
Triste, não?
Outro problema monetário-musical a se considerar é o preço de shows - ao menos em São Paulo. Quando eu morava em Floripa, sempre achava que a distância dos grandes centros e as temporadas curtas justificavam coisa como 75 pau pra um show do Guil Guilberto (parafraseando Ian McCulloch), mas NADA justifica os preços praticados em Sampa. E muito menos justificativas existem pra a política de meia-entrada de meia-tigela que a Ticketmaster pratica - literalmente antiética e criminosa. Funciona mais ou menos assim:
Preço do ingresso = 100%
Preço da meia-entrada = 50%
Preço do ingresso comprado antecipado (que normalmente significa até um dozeavos de minuto antes do show) = 60%
Preço de fato da meia-entrada = 85%
Entendeu?
Nem eu.
Legal mesmo são os shows nos SESCs, de preço justo e que ainda respeitam os estudantes e os comerciários (que, somados, perfazem a massa de público de qualquer tipo de show pop).
Loucura, né?
Pra acabar tenho que falar do dia dos namorados...
Data inventada pra o comércio com o intuito de aumentar as vendas e que os casaizinhos apaixonados - sempre no afã de encontrar novos clichês pra demonstrar o tamanho de seu amor - receberam (ou caíram, já que se trata de uma armadilha) de braços abertos e com um sorriso idiota no rosto.
Mas tudo bem, já virou tradição e ninguém vai reclamar de engordar o ser amado como um porco com toneladas de bombons caros uma vez ao ano. Se bem que é uma sacanagem inventarem mais uma data pros caras esquecerem e dar motivo pra acessos de ódio feminino.
Ainda assim, duas listinhas de sons que se devem ouvir nesta época do ano:
Lista 1 - Músicas Românticas
1. Strangers in the night - Frank Sinatra
2. Luiza - Antônio Carlos Jobim
3. Here, there and everywhere - The Beatles
4. Shes so high - Blur
5. Meu esquema - Mundo Livre S/A
6. Cavalgada - Roberto Carlos
Lista 2 - Músicas de Pé-na-Bunda
1. For no one - The Beatles
2. New York, New York - Ryan Adams
3. No distance left to run - Blur
4. Estou na mão - TNT
5. Romance - Nei Lisboa
6. Dont look back in anger - Oasis
E aí, gostou?
Aposto que não.
Então mande suas listas pra mim. No mês que vem, publico a melhor de cada um dos temas e vou presentear (com alguma coisa) os autores. O mail é matheus.pacheco@uol.com.br.
É isso aí.
Até...
***
Crônicas Paulistanas
São Paulo, 6 de junho de 2002
Foi um mês do caralho este maio. Shows sensacionais e inesquecíveis (Mogwai, Echo and the Bunnymen, Ira - que, incrivelmente, eu nunca tinha visto), visita ao lar (depois de meses de banzo) e paixões à primeira vista.
Como é bom sentir-se vivo!
Tá certo, o tempo atendendo pacientes foi algo meio sacal. É por problemas alheios trazerem muita agonia que eu resolvi largar mão e ir trabalhar com aparelhos e tal. Mas, de vez em quando, o cara ainda precisa desenferrujar a lábia e o estetoscópio e partir pra luta. Passou e acabei aprendendo um monte, mas foi foda.
Visitar a família, tomar cerveja com o irmão velho, bater papo em volta da fogueira com os pais, acompanhar a afilhada grunhindo as primeiras palavras. Visitar a família ainda é das melhores coisas a se fazer em um feriado longo. Como um bebê, no meu caso, ainda funciona aquele lance da voz da mãe e do pai serem os melhores antidepressivos existentes - e de grátis.
Quando este lance ainda vem acompanhado por uma reunião dos melhores amigos que o cara tem desde a infância, tudo se completa e as coisas voltam a fazer um sentido que chega a assustar de tão simples.
Mas é assim, sempre há de se pincelar o caos com alguma ordem para que tudo torne-se suportável.
Meanwhile, estou de volta ao atual lar, cada vez mais afundado em uma espécie de rotina que parece firmar raízes. Isso é meio perigoso, a rotina, mas é só se cuidar um pouco que dá para tirar de letra. Afinal, há de se usar um pouco o que se aprendeu com as cagadas da vida.
Eu falei em paixão à primeira vista? Finalmente lembrei dos bons e velhos tempos de Florianópolis, com uma paixão arrebatadora e definitiva a cada esquina. Platonismo elevado à categoria de arte. Não é tão comum quanto lá, mas começa a pintar. E é sensacional!
É isso. Tudo na boa e funcionando direito.
Este mês, tem show de monte e tudo barato (SESC é o que há de melhor neste mundo). Além da possibilidade de encontrar o pessoal da faculdade.
Que vengan los toros!
***
Crônicas Paulistanas
São Paulo, 5 de maio de 2002
Domingo: acabo de acordar. São duas e vinte da tarde, o tempo está cinzento e estou sem dinheiro.
Esta é a grande merda de São Paulo. Sem dinheiro, não há nada a se fazer. Ainda mais com o tempo neste estado.
É a velha história: a impessoalidade de tudo por aqui não deixa o sujeito confortável para chegar à casa de alguém só pra sentar em um sofá diferente e ficar falando bobagem enquanto degusta algum salgadinho de oitava categoria. E, como a cidade não nos oferece as facilidades paisagísticas de outros lugares, também é meio sem sentido sentar-se em um café, ficar olhando os carros que passam e negar esmolas a torto e a direito.
Então, enquanto esta é a melhor cidade do mundo quando se tem dinheiro o suficiente - eu poderia estar no cinema agora, por exemplo, ou na Bienal do Livro -, ela não oferece muito para o sujeito que tem de pagar o aluguel amanhã.
Vi algumas coisas interessantes ultimamente. Me deparei com a civilidade libertina dos eletrônicos no Skol Rock e, depois, pude comparar e enumerar muitas semelhanças com a turma rocker do Abril Pro Rock. Fui à Bienal de Arte Moderna e me deparei com uma montanha russa de sentimentos. Numa hora, me embasbacava com uma foto para, ao dobrar a esquina, odiar a instalação seguinte. Reencontrei amigos dos tempos de escola, aliviado por finalmente ter alguém com quem beber cerveja e dar risada. Conheci restaurantes e botecos interessantes, onde eu pretendo passar sempre que tiver grana.
Mas também vi gente sendo roubada, presenciei o que a pressão de uma grande cidade pode fazer com o humor de uma pessoa. Continuei notando - com um certo alívio, já que faço força pra não perder o embasbacamento - gente triste, gente sofrendo, gente com saudades de casa (e não só no espelho)...
Enfim, morar em São Paulo é uma coisa meio agridoce, como ver um filme do Monty Python - em que o espectador tem de concentrar nas coisas certas para poder aproveitar a contento.
O trabalho continua muito jóia. Se alguém me dissesse, há uns seis, sete meses, que eu entraria maio trabalhando e adorando o que faço a ponto de ansiar pela segunda-feira, eu daria muita risada, diria um cínico sei, sei e abriria uma cerveja.
Neste mês tem Mogwai e Echo and the Bunnymen, mas, mais importante, tem viagem para casa, que será a primeira vez que vejo algo familiar em 121 dias.
E estou ansioso para ver o mundo velho com outros olhos.
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