Planeta Fome, último álbum de Elza Soares, é testamento de uma artista imortal

Créditos da imagem: Elza Soares em foto promocional do Planeta Fome, em 2019 (Reprodução)

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Planeta Fome, último álbum de Elza Soares, é testamento de uma artista imortal

Aos 89 anos, em 2019, cantora lançou disco que nunca deixará de ser atual

Caio Coletti
21.01.2022, às 10H48

Quando a “voz do milênio” finalmente aparece no álbum Planeta Fome, já aos 30 segundos da faixa de abertura “Libertação”, o primeiro verso que ela entoa não poderia ser mais simbólico: “Eu não vou sucumbir”. Quando o disco saiu, em 2019, Elza Soares já havia demonstrado abundantemente que não iria sucumbir - ao racismo, à misoginia, às tragédias mais “corriqueiras” da vida, à obsolência que a indústria já havia decretado para ela múltiplas vezes nas últimas décadas.

Com “Libertação”, por cima das guitarras pesadas do produtor Rafael Ramos e do batuque do BaianaSystem, o Planeta Fome se anuncia como mais uma obra vital de uma mulher que nunca foi ultrapassada pelo tempo em que viveu, e que dificilmente será ultrapassada por ele mesmo agora que não está mais aqui. Com a morte de Elza, aos 91 anos, anunciada ontem (20) pela assessoria, Planeta Fome ficará marcado como o seu último registro de estúdio. E que registro.

Assim como seus dois celebrados antecessores (A Mulher do Fim do Mundo e Deus é Mulher, de 2015 e 2018), o último disco de Elza fez parte de um renascimento da relevância da cantora, então octogenária, para o cenário musical brasileiro. Mas não é o mesmo tipo de renascimento que lendas como Johnny Cash ou Loretta Lynn fizeram no fim de suas carreiras, por exemplo, porque a “volta” de Elza não foi tingida de nostalgia ou melancolia, e sim pintada nos tons fortes da urgência.

Planeta Fome passeia por gêneros e influências das mais diversas, mas é essencialmente um disco de rock. Mesmo quando inclui a cadência típica do samba, por cima da qual Elza sabia cantar como nenhuma outra artista, o álbum tem uma sonoridade direta, de certa forma descomplicada, lançando mão de guitarras, corais e sopros para criar um ambiente no qual a fluidez da música é tão importante quanto a mensagem que ela passa. Não surpreende que o cover de “Comida”, dos Titãs, eventualmente lançado como single solto em 2020, quase tenha vindo parar aqui.

No fim da vida, o timbre sempre rasgado de Elza já se assemelhava a um rugido gutural, e o Planeta Fome faz uso disso como nenhum dos álbuns anteriores da cantora. A voz, um dia estratosférica, exibe com orgulho os sinais de fragilidade, a prova de que ela foi usada à exaustão para a expressão de uma mensagem que era - e segue - fundamental. Seja ao perder o fôlego nos versos de “Blá Blá Blá”, que mostra que Elza também era uma rapper exímia, ou ao trocar a melodia pelo grito de protesto em “Brasis” e “País do Sonho”, o disco triunfa pelo candor de se exibir como a obra de uma mulher de 89 anos, que viu o passado e vê o presente do Brasil com clareza intransigente.

Essa clareza se mostra, por exemplo, no resgate de “Comportamento Geral”, de Gonzaguinha, que surge aqui em versão dramática e orquestral, entoada com tom de quase deboche por Elza, mostrando que a revolta da letra contra a subordinação capitalista é mais atual do que nunca. Quando Gonzaguinha reaparece, com “Pequena Memória de um Tempo Sem Memória”, está aqui para mostrar que o “tempo onde lutar por seu direito é um defeito que mata” ainda não passou. Há algo de exaspero no “que país é esse?” que a cantora entoa no fim da canção, e é difícil culpá-la - Planeta Fome acerta em cheio ao mostrar que, no Brasil, a tragédia do passado e a do presente se dobram em uma só.

Mas Elza também enxergava alguma esperança, e entendia que “a carne mais barata do mercado não tá mais de graça”. A canção de onde sai esse verso, “Não Tá Mais de Graça”, enxerga a violência dos nossos tempos e a forma como o povo preto ainda é comprado e abatido, metafórica e literalmente, no Brasil, mas enxerga também uma miríade de outras coisas: a amplificação da força das vozes antirracistas nos últimos anos, a linha histórica à qual essas vozes pertencem, e a cooptação de algumas delas pelo mainstream, a um ponto que a luta arrisca se esvaziar. “Essa aqui Neymar não dança na hora de meter gol”, aponta o rapper convidado da faixa, Raphael Mike.

Daí também a tentativa de conjurar um Brasil diferente em “País do Sonho”. Nos versos, Elza lista as qualidades que deseja em sua terra ideal, clamando que “precisa encontrar” esse país. No refrão, no entanto, troca o “precisar” pelo “prometer”, e promete que o tal país ideal será este mesmo, em que viveu os seus 91 anos, e que nem sempre a amou da forma que deveria. A crença inabalável de Elza no Brasil não surpreende porque não destoa da perseverança que ela demonstrou em todas as outras frentes de sua vida, mas emociona mesmo assim.

Planeta Fome termina com a pedrada rock “Não Recomendado”, regravação de Caio Prado que emoldura a forma como o mundo rotula certas categorias de pessoas como indesejadas ou censuráveis, em última instância desumanizando-as, transformando-as em material de mídia. Nos últimos segundos, Elza resgata a “maldita Geni” da composição clássica de Chico Buarque em um sussurro arrepiante, eternizando mais um momento de conflagração passado-presente em um Brasil que se recusa a aprender com a própria história.

Muito apropriado para um disco batizado em homenagem à fala de Elza em sua primeira aparição na TV, em 1953. Na ocasião, em um programa de calouros comandado por Ary Barroso, ela foi motivo de zombaria por causa de suas roupas mal ajustadas, e questionada sobre “de que planeta tinha vindo”. “Vim do mesmo planeta que você, Seu Ary. O planeta fome!”, respondeu Elza famosamente. Em 2020, em entrevista ao G1, ela declarou que nunca saímos do tal planeta - e estava certa, como de costume.

Elza Gomes da Conceição, a mulher, fez sua passagem ontem. Elza Soares, a artista que viu o Brasil em todas as suas cores (as mais sombrias e as mais vívidas) e cantou sobre ele, seguirá imortal enquanto continuarmos sendo o Planeta Fome.

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