Damon Albarn e o projeto <i>Mali Music</i>
Damon Albarn e o projeto <i>Mali Music</i>
![]() Mali Music |
![]() Albarn em Mali |
Mali Music nada mais é que um disco de World Music, produzido por Damon Albarn, vocalista do Blur e do Gorillaz e um dos ícones do britpop.
Uma coisa que parece da maior incongruência quando vista pela primeira vez, acabou se tornando um álbum excelente, revelando a fascinante cultura de um povo marginalizado do mundo euro-americano.
Mali, na África, é um dos países mais pobres do planeta, mais da metade do seu território está dentro do deserto do Saara. As dificuldades geo-econômicas porém não atrapalharam que o povo malinês desenvolvesse e preservasse uma tradição musical secular.
A cultura local ainda funciona no sistema de castas. À casta griot pertencem os músicos e contadores de histórias, que percorriam o país alastrando a tradição ao povo. Esses contadores são os jelis, que cantam a glória de suas famílias e da nação, formando a maior parte dos músicos do país. Logo, se você não é um griot, você não pode fazer música. Eles também têm todo um instrumental próprio, como a ngoni, uma espécie de guitarra que, tradicionalmente, é tocada só por homens.
Aí você se pergunta: o que Damon Albarn, representante perfeito da classe média inglesa, tem a ver com tudo isso?
A grande culpa por esse encontro foi do projeto On the line, cuja premissa era explorar culturalmente a vida de pessoas que vivem ao longo do Meridiano de Greenwich, em comemoração ao ano 2000. A linha inclui Mali e o Reino Unido, além de outros países. Esse projeto então carregou Albarn até a nação africana, para que ele travasse contato com a cultura local.
Na turnê, Damon passou pela capital Bamako, além de outros pequenos povoados incrustrados no meio do nada. No caminho, foi apresentado aos grandes instrumentistas e jelis locais e, desses encontros, horas e mais horas de gravações foram feitas, registrando jams dos músicos com Albarn (sempre munido de uma escaleta) em bares, botes sobre o rio Nilo e em shows à população.
Grandes músicos (e sons) praticamente desconhecidos do resto do mundo vêm a tona nesta gravação: Toumani Diabaté, conhecidíssimo em Mali e mestre do kora, uma espécie de alaúde; Lobi Traoré, guitarrista que vem desenvolvendo um estilo todo próprio de jazz; Afel Bocoum, guitarrista e cantor e Sata Doumbia, a única mulher em Mali que sabe tocar a tal ngoni, são alguns deles.
No final da viagem, Albarn se fechou em um estúdio com todas essas fitas debaixo do braço. Lá, remixou tudo adicionando, por conta própria, guitarra, percussão, teclados, sintetizadores e outros efeitos eletrônicos.
E o que saiu desse trabalho está registrado no álbum Mali Music, lançado lá fora em 2002, mas ainda sem edição nacional. São 16 faixas da mais perfeita esquizofrenia, variando da calmaria ritual (The djembe) a músicas de energia impressionante (Makelekele), passando por celebrações explícitas na mesa de bar (4 AM at Toumanis) e até uma com a própria voz de Albarn (Sunset coming down).
Numa grossa analogia, é como se o senegalês Baaba Maal tocasse junto com o 808 State. E você nem precisa entender as letras pra gostar. Mali Music provou que Damon Albarn, além de todo o habitual, é um músico da categoria e sensibilidade de poucos.
Essa excursão afetou profundamente a cabeça de Albarn. Impressionado com a força da cultura local, acabou aplicando toda essa influência no próprio Blur. Em 2002, o grupo se mudou para o Marrocos durante a produção de seu novo álbum. O resultado foi Think Tank, que carrega uma enorme e surpreendente influência da música africana.
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