Da Gema
Da Gema
Essa
onda que tu tira, qual é?
Fala sério: tudo o que é demais, enjoa, não é não? Nós, cariocas, vivemos reclamando - e implicando - com os eternos rivais paulistanos. Porque o sotaque é muito feio, porque eles usam a palavra meu como se fosse vírgula, porque eles gostam de dizer que trabalham o tempo todo e que nós vivemos na praia, etc, etc, etc. Mas será mesmo que existe alguma coisa mais chata do que aquele carioca que goooixta de... ser carioca ao extremo?
Vou explicar e aproveito para esclarecer de cara: não tenho - pelo menos não por enquanto - a intenção de discutir a qualidade do trabalho de ninguém. Isto posto, vamos lá: a música tem dois exemplos fortíssimos de carioquismo exacerbado e irritante. São eles a garota sangue-bom, Fernanda Abreu, e o representante da malandragem gente-fina, Marcelo D2. Isso sem falar em bandas como Detonautas, que tenho certeza, se pudessem, trocariam todos os esses das palavras pluralizadas por x, só para poderem chiar mais um pouquinho ao pronunciá-las.
Fernanda e D2 já se tornaram espécies de caricaturas deles mesmos. Além da fala arrastada e das gírias em excesso, ambos hoje repetem fórmulas desgastadas em letras que falam sobre como é bom ser esperto no meio de um bando de manés. É aquela velha história de não querer ser reconhecido por um esteriótipo mas ao mesmo tempo, não saber o que fazer sem ele.
Mas isso não se resume apenas à música. Na telinha, por exemplo, nomes como Evandro Mesquita deixam claro que quem já foi surfista um dia, será surfista para sempre, ainda que não suba em uma prancha há tempos. Isso para não falar de Paulinho Vilhena, que ainda não conseguiu decidir se capricha mais no sotaque paulista ou na malandragem carioca.
Praia, sol, parafina, luau, são alguns dos assuntos mais interessantes que este tipo de personagem tem para debater porque, é claro, ninguém acredita realmente que eles se comportem dessa forma carioooca o dia todo, não é?
Imagine como seria chato uma coluna como esta escrita em carioquês:
Falae galera, Uhu. E aí, beleza? A parada é a seguinte, brother, esse lance de falar arrastado, detonando gíria o tempo todo, não tem nada ver, sacou? Quem fala desse jeito são os manés que querem tirar onda de esperto ma que na verdade, são mermo é otário, valeu?
Com certeza, não ia ser possível ler mais do que um parágrafo como este acima. Mas como eu disse no início, este tipo de comportamento não é restrito apenas aos cariocas mas sim, aos chatos em geral, que vestem a camisa de um personagem e não há santo que os faça tirar.
Chorão, por exemplo: existe alguém mais fake no rock brazuca atual? O cara está sempre - invariavelmente - afim da garota mais rica e patricinha da festa (escola, praia, night) e, apesar de ser um fodido, operário, sem condições de oferecer uma vida boa à moça, vai conquistar seu amor porque é um sujeito honesto, trabalhador e que não tem medo de dizer o que pensa e fazer o que tem vontade.
Lyric maker Tabajara
Aquela idéia do site que surgiu para ensinar a fazer letras para os Tribalistas e depois estendeu seu alcance para nomes como Engenheiros do Hawaii e artistas de axé era realmente muito boa. Arnaldo Antunes e seu jogos de palavras, Marcelo D2, sua malandragem e sua canabis, Jorge Vercilo e seu jeito Djavan de ser, Nando Reis e suas historinhas cotidianas do tipo podia acontecer com qualquer um e Los Hermanos falando de caras esquisitos seriam fortes candidatos a terem suas letras geradas pelas fórmulas apresentadas online.
Aí você pode estar pensando se há algum tipo de desilusão ou encheção de saco desta que vos fala para com a música - e a cultura - pop do século 21... e, bem, talvez seja isso mesmo. Tudo parece ser tão completamente fabricado que começa a perder o sentido. Não há mais espontaneidade - seja em cariocas, paulistas ou ingleses - e a arte de agora soa cada vez mais... sem personalidade.
Claro, há algumas coisas que ainda fazem bem à alma de quem procura por um pouco de frescor não-comercial. Quando Jack e Meg White subiram sozinhos no palco aqui no Rio e mostraram que uma banda de dois pode ser muito mais poderosa que uma de seis, sete, foi um momento mágico. Mas quando o mesmo Jack se casou numa cerimônia exótica em plena Amazônia, com direito a pajé e tudo, tudo desmoronou novamente.
Estejamos preparados para eventos cada vez mais megas e com cada vez menos conteúdo a oferecer. Que venha o U2 e faça sua apresentação no meio do Oceano Atlântico, sobre uma plataforma de petróleo e com transmissão exclusiva da Globo para o mundo todo. Estamos esperando.
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