Música

Crítica

Twenty One Pilots - Trench

Se aprofundando em sonoridade sombria, Twenty One Pilots acerta em não se preocupar com o sucesso de Blurryface

Julia Sabbaga
05.10.2018
15h52
Atualizada em
05.10.2018
16h12
Atualizada em 05.10.2018 às 16h12

A história de sucesso do Twenty One Pilots é peculiar. Desde o seu auto-intitulado primeiro álbum, em 2009, os americanos (que na época contavam com dois membros a mais e hoje consiste apenas do duo Tyler Joseph e Josh Dun) se mostravam confortáveis em flutuar entre estilos, e sua capacidade permaneceu evidente durante toda sua discografia. Mas foi apenas em seu quarto disco, Blurryface, quando o Twenty One Pilots pesou a mão no pop, que ele estourou absolutamente. O disco não apenas levou o Grammy pela faixa "Stressed Out", mas quebrou recordes ganhando disco de ouro por cada uma de suas 14 faixas.

Brad Heaton/Divulgação

Três anos depois, o Twenty One Pilots poderia investir no que os fez gigante e, facilmente, entregar um álbum aprofundado no pop, com o seu característico rap-emo permeando as músicas. Mas o duo fez o contrário em Trench. Demonstrando uma evolução clara e um atestado contra a ideia de que a dupla é apenas mais uma banda de pop rock de arena, o duo criou um álbum conceitual que deixa claro a ideia genuína por trás de suas letras, e o talento em misturar gêneros, criando mesclas realmente surpreendentes, que passam pelo rock pesado, o eletrônico, o rap, e o pop. Louvável em diversos sentidos, Trench chamou atenção já nos primeiros singles – "Jumpsuit" e "Nico and The Niners" – por parecer desprendido do que os fãs poderiam esperar deles. Felizmente, a banda tem uma das bases de fãs mais chamativas e fieis da música atual, e a mudança de tom foi percebida, justamente, como uma evolução, e os fãs se deliciaram com as teorias do novo álbum conceitual que se formou.

Trench tem todo uma história de personagens e cenários, que contam, na realidade, uma história de ansiedade e limites impostos e auto-impostos, trazendo participação até do personagem de Blurryface, desenvolvido na nova figura de Nico. E enquanto as ideias são construídas por trás de uma camada mais poética, o que chama atenção em Trench é mais sua sonoridade do que sua história. Da pesada "Jumpsuit' às mais leves, como "Neon Gravestone", o disco chama atenção por se utilizar de uma extensa gama de instrumentos, de sintetizadores e guitarras no estilo Nine Inch Nails, mas também piano e ukulele, que adicionam temperos à atmosfera sombria. A mistura resulta em faixas que remetem a Daft Punk e, inevitavelmente à Imagine Dragons, o último mais pelas composições grandiosas, de rock de arena, mas menos otimistas e mais conceituais. "Smithereens", uma das baladas mais delicadas do disco, chega a lembrar uma melodia de Jack Johnson, da maneira mais positiva: querendo ou não, um álbum que consegue unir Jack Johnson com Nine Inch Nails de modo coeso é realmente impressionante.

Além dos ótimos singles, Trench tem grandes destaques em "The Hype", faixa com possivelmente a melhor batida e a melhor letra do disco, "Chlorine" e "Legend". Inevitavelmente, como toda banda que evolui e experimenta mais, o álbum desliza em alguns momentos e perde seu foco, principalmente em sua segunda metade, mas o material conceitual como um todo é um mergulho muito bem vindo na cabeça de Tyler Joseph. Trench tem seu maior valor na busca por um novo som e uma nova profundidade, e seu descompromisso com a expectativa do público e da indústria é definitivamente um ponto alto na carreira do Twenty One Pilots, que se provou um duo promissor de talento, de uma vez por todas.

Nota do Crítico
Ótimo

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