Tool - Fear Inoculum

Créditos da imagem: Divulgação/Tool

Música

Crítica

Tool - Fear Inoculum

Fazendo valer os 13 anos de espera, álbum reafirma a importância de um grupo guiado pela audácia em se reinventar.

Gabriel Avila
02.09.2019
18h25

O lançamento de um novo álbum do Tool é por si só um grande evento. Um dos mais prolíficos grupos da década de 1990, a banda incorporou diversas influências durante toda a sua carreira - que vão de Depeche Mode a King Crimson - e moldou uma sonoridade única que utiliza a estrutura progressiva, com canções longas e experimentais, para criar um estilo único que equilibra uma faceta “arte pela arte” com uma intensidade autêntica que em nada deve a outros grupos da mesma época. Lembrado por utilizar a Sequência de Fibonacci durante a composição de Lateralus, o quarteto constantemente desafia os limites do que pode ser feito no campo musical, tornando cada disco especial em pequenos detalhes, como o tema ou a execução. Seguindo essa linha, a banda retorna 13 anos após seu último lançamento com Fear Inoculum, um disco cheio de camadas que encanta não apenas por sua complexidade, mas também por propor uma experiência imersiva pouco vista nos últimos anos.

O trabalho começa com a faixa que dá nome ao álbum, uma canção grandiosa cuja melodia, estabelecida nos primeiros segundos, cresce conforme novos instrumentos são adicionados. Logo no início, o Tool demonstra uma variedade de sons graças ao uso de percussões, cítaras e outros instrumentos orientais que aos poucos dão lugar aos mais tradicionais, com destaque para uma linha de baixo marcante e um vocal emocionado por parte de Maynard Keenan James. Tal performance se repete em “Pneuma”, canção fortemente inspirada em stoner rock, que dá liberdade para que o vocalista passeie entre agressividade e a harmonia em trechos inspirados por cânticos. A melodia se desenvolve através de uma guitarra suja magistralmente performada por Adam Jones, que conduz a canção ao lado de uma percussiva bateria de Danny Carrey que marca a canção com precisão, intercalando viradas ferozes com contratempos que promove pequenas catarses durante seus quase 12 minutos.

Ao longo do álbum, é possível perceber que o Tool mantém no entrosamento uma de suas maiores qualidades. Com quase 30 anos de existência, a banda é como um relógio, com cada instrumento funcionando como uma engrenagem com função própria, que tem como resultado uma unidade ímpar. “Invincible” é o melhor exemplo dessa uniformidade, que, em um primeiro momento, se destaca graças a união do emocionado vocal de Keenan James à cativante guitarra de Jones, que ganha peso através do baixo de Justin Chancellor, conferindo peso à canção que marca a melodia juntamente à bateria até, por fim retornar à guitarra, que brilha novamente com uma série de riffs explosivos. O quarteto não se dá por satisfeito e transforma a canção criando novas dinâmicas que só ampliam a imersão estabelecida a cada camada adicionada à faixa.

Elogiar a experimentação proposta pelo Tool é recorrente, já que a cada álbum o grupo aumenta seu leque de novos sons. O flerte com a sonoridade ocidental é uma constante em Fear Inoculum, não só graças aos distintos instrumentos e afinações incorporadas nas canções, mas também na forma de executá-las. Em “Descending”, esse contato acontece através da forma percussiva como Chancellor monta sua linha de baixo, comandando a canção e servindo de base para o surgimento de outros instrumentos até culminar em um melodioso solo de guitarra que disputa a atenção do ouvinte com uma inspirada atuação da cozinha, que trabalha em uma sintonia ímpar. O mesmo ocorre em “Culling Voices”, a mais iluminada canção do álbum, que traz uma nova e inspirada atuação de Maynard Keenan James que passa a experimentar técnicas vocais em meio a um notável trabalho de cordas que transita entre peso e uma angustiante calmaria.

Em meio a toda a imersão causada pela primorosa execução das canções, o álbum guarda para o final uma de suas maiores surpresas. Pesada e emocional, “7empest” se mostra uma rica experiência musical condensada em 15 minutos. A canção acena para a agressiva abordagem que tornou o grupo famoso nos anos 1990, mas evolui enquanto transita por diversas sonoridades. Convidando o ouvinte a se desprender de rótulos e expectativas, a canção promove um último mergulho através de uma performance repleta de catarses que é executada com tamanho empenho que não perde a sutileza nem mesmo quando se joga de cabeça no peso.

Em seu quinto álbum de estúdio, Tool promove uma verdadeira jornada que só dá certo graças à gradual evolução conjunta do quarteto. Tirando os interlúdios, - que com exceção de "Chocolate Chip Trip" são exclusivos da versão digital - Fear Inoculum mostra um grupo em boa forma que abraça o rock progressivo para experimentar em canções que, embora longas, não cansam justamente ao tomar caminhos inesperados que sempre compensam o empenho do ouvinte. Fazendo valer os 13 anos de espera, a obra reafirma a importância de um grupo que é norteado pela audácia em se reinventar.

Nota do Crítico
Excelente!