Gorillaz encontra na Índia uma nova linguagem para o luto com The Mountain
Com participações póstumas, a banda britânica ressignifica a perda utilizando ritmos indianos como guia
Créditos da imagem: Gorillaz/Divulgação
Em 2024, Damon Albarn, líder do Gorillaz, e Jamie Hewlett, ilustrador e um dos responsáveis pelo projeto gráfico da banda, viveram quase ao mesmo tempo a mesma perda. Em um intervalo de cerca de dez dias, os pais dos dois artistas morreram. Foi a partir desse luto em comum e de viagens à Índia que The Mountain, novo álbum da banda, nasceu.
O Omelete teve a oportunidade, junto com outros fãs, de escutar o The Mountain antecipadamente em uma listening party no Cine Belas Artes, em São Paulo. Além da imersão ao álbum em uma sala de cinema, também foi projetado na tela grande um documentário mostrando momentos das viagens de Damon e Jamie à Índia e como eles buscaram - e encontraram - suas inspirações na música local.
A experiência ganhou um capítulo extra com a exibição de um curta inédito da banda virtual, com Noodle, Russell, Murdoc e 2D atravessando paisagens pela Índia, em um passeio com “The Mountain”, “The Moon Cave” e “The Sad God”, três músicas do álbum, como trilha.
O álbum
"The Mountain", canção que dá nome ao álbum, abre os trabalhos em grande estilo, ambientando o ouvinte na Índia, com o uso de sarod, sitar e bansuri, tradicionais instrumentos indianos para costurar a ambientação. A partir daí, "The Moon Cave" e "The Happy Dictator" trazem humor, ironia e toques de política, em um momento em que o disco e o pop dão as caras.
A sequência traz o momento mais emocionante do álbum, em que o luto está mais presente: "The Hardest Thing" serve como introdução para "Orange County", música que marca com o verso “the hardest thing is to say goodbye to someone you love…” ("a coisa mais difícil é dizer adeus para alguém que você ama..."), mas que tem um arranjo assoviado, criando um contraste estranho — e muito humano — entre a dor do adeus e a necessidade de seguir em frente.
Nas duas músicas seguintes, o Gorillaz segue passando o seu recado, mas agora trazendo outros ritmos para a jogada. Em "The God of Lying", com a participação dos britânicos do IDLES, o punk chega com tudo. Já em "The Empty Dream Machine" - a primeira colaboração do lendário guitarrista Johnny Marr (The Smiths) no álbum -, os riffs são costurados com um encontro improvável entre o rap de Black Thought com a sitar de Anoushka Shankar.
Em "The Manifesto", a latinidade tem o seu momento. O rapper argentino Trueno praticamente faz um dueto com o já falecido Proof, rapper do crew do Eminem. O álbum dá um salto de energia, mas logo recua em "The Plastic Guru", que devolve uma dose de melancolia e prepara o terreno para o trecho mais “pista de dança” do disco.
Quando chegam a "Delirium" e "Damascus", o Gorillaz reencontra seu lado eletropop e caótico. Destaque aqui para um dos pontos altos do álbum, com a mistura genial do rap de Yasiin Bey com um toque de música árabe tradicional com Omar Souleyman.
A sequência final do álbum é aberta com a minha favorita "The Shadowy Light", que é uma espécie de momento mais espiritual do álbum, misturando o pop com instrumentos indianos. Nesse momento, é como se um ritual de passagem estivesse sendo construído para o encerramento de uma grande celebração da vida e da morte.
Em "Casablanca", Johnny Marr retorna e traz consigo uma lenda do punk rock: o baixista Paul Simonon, do The Clash. A soma dos dois é construída em uma música que fala sobre o caminho que leva até a "montanha" do título do álbum e que tem força no refrão que diz que "não conheço nada que bata assim, que seja como esse beijo".
No encerramento, passamos por "The Sweet Prince" e "The Sad God", que nos mantêm presos aos ritmos indianos. Elas têm a presença marcante da dupla Ajay Prasanna e Anoushka Shankar liderando a melodia com o bansuri (flauta) e a sitar, somando com Johnny Marr na guitarra na primeira faixa e com o rap do Black Thought na segunda.
No fim, o Gorillaz sobe a montanha do próprio título sem transformar dor em espetáculo. Em vez disso, transforma perda em movimento: um álbum que conversa com os mortos para soar, paradoxalmente, mais vivo do que nunca.
The Mountain
Gorillaz