Música

Crítica

The Carters - Everything Is Love

Casal deixa vulnerabilidade para trás e entrega sua mais relevante declaração de empoderamento

Julia Sabbaga
19.06.2018
17h32
Atualizada em
29.06.2018
17h30
Atualizada em 29.06.2018 às 17h30

Não é exagero dizer que Beyoncé e Jay-Z estão entre os maiores nomes da música atual. Os últimos álbuns dos dois, Lemonade e 4:44 abismaram a crítica e cravaram suas posições na indústria, não apenas como os mais populares artistas, mas como inovadores na cena. Sua relevância musical, combinada com a crescente valorização de suas raízes, fizeram dos dois as maiores vozes negras em seu contexto. 

Por isso, o mundo abalou no último sábado, dia 16, quando de surpresa, o casal lançou um álbum em conjunto. Everything Is Love veio do nada, e causou tumultos no mundo da música escancarando o primeiro exemplo do que o álbum inteiro constata: o poder de seus artistas. The Carters - nome pelo qual o casal lançou o disco - não precisam de estratégia de divulgação ou promoção. O lançamento caiu como uma bomba, do tipo que não víamos possivelmente desde 2016, quando o mundo recebeu Lemonade.

Já entendido como o fechamento de uma trilogia – formada, claro, por Lemonade e 4:44Everything is Love parte de um lugar completamente diferente de seus antecessores; do amor. Enquanto Beyoncé construiu uma narrativa da mulher negra em cima do rancor de uma traição, e Jay-Z retratou a auto-reflexão de um ponto de partida retraído e arrependido, o capítulo final da história é, felizmente, de um lugar alegre. Mas ao invés de entregar o conto tradicional de uma família contente, The Carters triunfou em fazer de seu fechamento uma história de orgulho negro, e refletiu isso em sua riqueza, sucesso e poder.

O disco é construído em nove faixas (dez, contando com a música disponível apenas no Tidal, “Salud!”) que caminham por diversas camadas da vida dos dois, e equilibram bem seus talentos, flutuando por gêneros com a mesma facilidade que Lemonade fez, mas baseando-se bem mais no hip-hop do que no pop ou no R&B, apesar de seu começo bem melódico em “Summer”. A música que traz um suave vocal de Beyoncé e o rap afiado de Jay-Z é um começo doce para o que se torna, aos poucos, um álbum realmente pesado, que pára para respirar apenas em “Friends”.

Um dos elementos mais chamativos de Everything Is Love é a sintonia entre os dois músicos. Durante todo momento em que Beyoncé e Jay-Z cantam juntos, eles funcionam em uma perfeita harmonia, principalmente no fechamento do disco, em “Lovehappy”. Mesmo assim, o disco tem um brilho maior na estrela de Beyoncé, que explicita mais do que nunca seu talento nos momentos de rap do álbum, e aumenta o seu leque de dons. Jay-Z não é ofuscado, e tem seus grandes momentos – como em “Nice” – mas talvez até por uma iniciativa do casal, Everything Is Love dá maior destaque à cantora, que na mesma faixa entrega uma baita performance, já famosa principalmente pela frase: “Se eu me importasse com números de streaming, teria colocado Lemonade no Spotify”.  

Durante todo o restante de sua duração, o disco é uma pedrada intensa, o que já fica bem claro na segunda música, “Apeshit”, que ganhou um forte clipe, onde o casal exalta seu poder no meio do Louvre, utilizado o cenário como um símbolo do ocidente colonizador e branco. A imagem do casal, poderoso o suficiente para fechar o museu e posar em frente à Monalisa, é outro ícone que ajuda a entender Everything Is Love: o disco é inteiramente dedicado a enfatizar a junção dos dois maiores poderes da música, e durante as letras, tanto Beyoncé, quanto Jay-Z, não poupam em se vangloriar-se de si mesmos; em diferentes momentos, eles se declaram maiores que a NFL, independentes do Spotify e superiores ao Grammy.

São inúmeras as ideias construídas em Everything Is Love para enfatizar a magnitude dos Carters. Enquanto em “Apeshit” os dois descrevem um estilo de vida luxuoso, “Boss” traz os dois se gabando de suas posições na indústria musical, e ainda fecha do melhor jeito possível; com a pequena Blue, filha do casal, tomando o vocal para dar um alô aos seus irmãos. A mensagem é mais do que clara, com a próxima geração de Carters já deixando sua marca, como os líderes do futuro. Esta, assim como as duas faixas seguintes, “Nice” e “713”, onde Jay-Z fala pela primeira vez sobre o começo do romance, fecham um arco de destaque do disco, complementado por "Black Effect", a faixa mais política e possivelmente mais importante do trabalho. Nela, os músicos explicitam a violência policial nos EUA e os obstáculos da população negra no país, enquanto cantam versos de orgulho de sua ancestralidade, antes de arrematar o disco com "Lovehappy" e sua perfeita conclusão: “Nós viemos, nós conquistamos, e agora estamos felizes e apaixonados”.

O álbum é mais do que bem-vindo, principalmente por se mostrar tão desafiador na sociedade americana atual. Everything Is Love ganha pela relevância da exaltação do casal mais importante da música e do orgulho de sua raça, mas perde de seus antecessores pelo mesmo motivo; a proposital ausência de vulnerabilidade, que deu o peso maior de Lemonade e 4:44. Em seus trabalhos solo, tanto Beyoncé quanto Jay-Z cresceram ao se revelarem frágeis. Mas o caminho contrário de Everything Is Love não é apenas oposto, como é muito justo: a ideia é explicitar que juntos, eles são indestrutíveis. E os dois fizeram isso muito bem.

Nota do Crítico
Ótimo