The Black Eyed Peas - Master of the Sun Vol.1

Música

Crítica

The Black Eyed Peas - Master of the Sun Vol.1

Trio entrega disco inspirado em HQ, aposta em sonoridades e referências clássicas do Hip Hop e vai além do rap feliz de outrora

Jacídio Junior
21.11.2018
16h20

Master of the Sun Vol.1 é uma surpresa boa (ponto). O disco marca o retorno do Black Eyed Peas, após oito anos sem lançar um álbum completo, e também a primeira aventura do trio sem Fergie, desde Elephunk, de 2003.

O projeto, inspirado na história em quadrinhos criada por will.i.am e lançada pela Marvel, em 2017, surpreende logo de cara, principalmente por não ser um trabalho insosso - sem assinatura -, e entregar desde o início um conjunto de músicas que tiram o grupo da sua zona de conforto pop (focada na repetição e ampliação das fórmulas de beats-chiclete que enchem estádios) e aposta na união entre sons, flows e ideas clássicas. Algo que não soa descartável. 

Toda essa mágica entre o velho e o novo acontece logo na primeira faixa, “BACK 2 HIPHOP”, que conta com a participação de Nas e apresenta alguns dos elementos sonoros que guiam o trajeto pela quase uma hora de som, seguindo para “YES OR NO” e sua vibe sincopada e desenboca em “GET READY”, faixa com aquela mistura na medida entre beats eletrônicos e uma pegada jazz.

As referências são ótimas, a mistura equilibrada entre batidas cheias de textura, sons orgânicos, flow sincopado e um aceno gigante a alguns dos principais elementos que fazem parte da história do hip-hop/rap transformam essa entrada no momento de compreender o que vai rolar durante todo o disco: Quebras rítmicas, influências do jazz e aí por diante. Esse conjunto de ideias mostra que, aparentemente, quase nada no projeto foi pensado para chegar ao topo das paradas e acende a luz da esperança para um grupo que há um bom tempo se acostumou a trabalhar o básico para se manter no topo.

Com isso dito, dê o play sem medo. will.i.am, apl.de.ap e Taboo acertaram a mão ao dosar as misturas de beats e sonoridades orgânicas, buscando encontrar as raízes do BEP, apresentadas em 1998, mas sem perder a chance de gerar interesse a cada nova audição, graças a elementos discretamente inseridos nas faixas e que dão o tempero mágico do contemporâneo. E esse tempero, à medida que o disco avança, se deve em grande parte aos sabores do jazz-rap, a fluidez de sons e rimas que mudam de andamento e forma de maneira inteligente e perspicaz e estimulam a audição ativa. A música quer que você a perceba, reflita, pense nas referências e, por fim, dance.

O conjunto sonoro, no fim das contas, mostra que o BEP ainda tem acesa a chama criativa para entregar música de uma forma bacana, sem se preocupar com a necessidade de soar pop ou mostrar que ainda precisam vender muito. Tudo fica ainda mais claro (dentro dessa perspectiva) com a quadra “DOPENESS”, “ALL AROUND THE WORLD”, “NEW WAVE” e “VIBRATIONS pt.1 pt.2”, pra não fazer uma lista gigante. Ainda, a multiflow “RING THE ALARM pt.1 pt.2 pt.3”, cria e recria atmosferas da forma mais natural possível. Das boas carícias auditivas. A partir daí, ficar empolgado a cada nova faixa se torna uma constante que só é perdida quando - sabe-se lá por que - surge uma tentativa de deixar as coisas um pouco mais fáceis como em “4EVER” (faixa com aquela clássica imitação farofa de bossa nova) e em faixas como “WINGS”, que conta com a participação de Nicole Scherzinger, mais “BIG LOVE”, que vem com aquele som pasteurizado em busca de pegar os ouvidos mais desatentos.

De resto, esse é um trabalho que - apesar de não ser tão profundo ou complexo ao abordar temas como relações raciais, armas, vício em redes sociais entre outros pontos críticos da sociedade atual, funciona como um inesperado ponto de virada na carreira do Black Eyed Peas, graças ao trabalho com alguns dos elementos que mais encantam dentro do hip hop e apontando para uma direção que pode render bons frutos em um futuro próximo.

Nota do Crítico
Ótimo