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Taylor Swift - Reputation | Crítica

Malvado e inocente, Reputation traz bons hits mas soa esquizofrênico

Julia Sabbaga
10.11.2017
09h58
Atualizada em
12.11.2017
08h01
Atualizada em 12.11.2017 às 08h01

Taylor Swift chegou a um tamanho em que não importa o que a crítica acha. Ela vai ser enorme, não importa o que você pense. O lançamento do single “Look What You Made Me Do” é bem a prova disso; apesar de ter sido criticado na maioria dos veículos (O Guardian chamou o single de “preguiçoso”, a Variety descreveu como “cansativa ao invés de pegajosa”), os ouvintes e, obviamente, seus fãs, não se importam. E o crescimento de Taylor não para. As previsões do novo álbum Reputation são bizarras: mesmo com a queda nas paradas em relação aos últimos hits, espera-se que o álbum passe dois milhões de vendas, quase que o dobro do seu elogiado último álbum, 1989 (isso acontecerá, provavelmente, devido à edições especiais do álbum sendo vendidas em lojas como a Target, ou o incentivo de compra para participar de concursos de ingressos). E diva pop é tão enorme que isso deve acontecer ignorando as plataformas de streaming, que, para usar as palavras de Swift, foram “excluídos da narrativa”.

Reputation é dividido em dois, o que faz muito sentido. Taylor Swift, desde a polêmica com Katy Perry e o bizarro caso com Kanye West, tem trabalhado em cima de duas imagens de artista: a inocente Taylor, garota comum, amiga dos fãs e doce cantora de raíz country, e a segunda, que foca em sua esperteza e capacidade de passar por cima dos haters, que ela mesma diz ter mas ninguém realmente vê. A segunda personalidade ganhou acidez e um toque de bad girl na revelação do primeiro single e durante toda a promoção do novo álbum. O problema é que apesar de não necessariamente contraditórios, Taylor ainda não achou o seu lugar no meio dos dois. Então, no fim, tudo parece mais artificial.

O álbum é explicitamente repartido. Na primeira metade, a produção é muito mais pesada e todas as músicas são muito mais eletrônicas e pasteurizadas. Além disso, conta com mais compositores e produtores, incluindo o hitmaker Max Martin (dono de hits como "...Baby One More Time" da Britney Spears, "It's Gonna Be Me do 'N Sync, "I Kissed a Girl" da Katy Perry, entre muitos outros). A primeira fatia de Reputation é quase obcecada em tratar sobre sua reputação de má. E o abismo é transparente não só nos créditos como nos títulos das músicas, que, até a oitava faixa, tem nomes como "Don't Blame Me", "I Did Something Bad", “...Ready For It”, “Look What You Made Me Do”, que, aliás, é provavelmente a pior música do álbum.

É curioso que Swift tenha escolhido lançar este como o primeiro single. A ideia, claro, era dizer que a nova Taylor não seria vitimizada pelas críticas e que este seria o tema do álbum. Agora, após o lançamento, dá para ver nitidamente a estratégia de criar o drama em cima do nada. “Look What You Made Me Do” é o “Piece Of Me” de Taylor Swift. A diferença é que no hit de 2007 de Britney Spears, a música fazia sentido porque a popstar tinha passado por questões muito maiores, com um colapso emocional claramente real.

“End Game”, música em parceria com Future e Ed Sheeran traz outra bizarrice. A cantora escolheu o outro garoto bonzinho da indústria para compartilhar os vocais em uma música focada em falar sobre má reputação e, novamente, tudo soa forçado. Mas Taylor pesada não é necessariamente ruim; a primeira metade de Reputation traz “Don’t Blame Me”, uma ótima eletrônica com toque de coral gospel, revelando as raízes country de Swift. Ainda assim, deve-se apontar que a música é a que mais remete à velha Taylor, e talvez por isso seja melhor até aí.

Ao chegar na oitava música, “Gorgeous”, o melhor single de Reputation, tudo muda absolutamente. Na maioria das músicas da segunda metade do álbum, Swift traz apenas um produtor como parceiro, Jack Antonoff, conhecido por seu trabalho com cantoras como Sia, Lorde e Pink. E a partir daí Taylor soa muito mais genuína e confortável. Da metade para o fim, não se fala mais em reputação ou rebeldia, e traz temas mais sinceros e despretensiosos: festas, romances e amizades que remetem muito ao antigo 1989. “Getaway Car” já é a sincera Taylor de volta, com um ótimo hit pop, assim como “King Of My Heart”, “Dress” e o último single revelado antes do lançamento, “Call It What You Want”. 

“This Is Why We Can’t Have Nice Things” é o auge do álbum. Na música, muito provavelmente direcionada a Kanye West e Kim Kardashian e a polêmica em relação a música “Famous” do rapper, Taylor é sincera e ácida como ela mesmo sabe ser, sem soar artificial ou comandada por hitmakers. A faixa é realmente ótima, do melhor jeito que o pop pode ser. O álbum ainda finaliza com “New Year’s Day”, uma balada só com piano e violão, muito simpática. Ela fecha o trabalho deixando gritante a evolução de Reputation do começo ao fim: o eletrônico pesado vai sendo deixado para trás a cada música que passa, até culminar em uma última música suave e sem batida qualquer.

No final das contas, Reputation traz bons hits e boas composições da popstar. Mas a mensagem final fica tão óbvia de que Taylor Swift está sendo construída em cima de uma imagem artificial, que chega a ser triste. Isso porque quando ela é mais verdadeira, ela é muito melhor. E, apesar da mensagem que a promoção de Reputation quis passar, o álbum mostrou que a velha Taylor, definitivamente, não está morta. 

Nota do Crítico
Ótimo