Slipknot - We Are Not Your Kind

Créditos da imagem: Divulgação/Slipknot

Música

Crítica

Slipknot - We Are Not Your Kind

Em álbum ousado, Slipknot se reinventa através de experimentação, sem deixar o peso de lado

Gabriel Avila
09.08.2019
16h45

Em quase 25 anos de carreira, o Slipknot formou uma sólida marca não só pelas máscaras e macacões, mas com sua sonoridade própria. O timbre criado pela mistura de riffs pesados, samples e percussões torna qualquer canção do grupo reconhecível quase instantaneamente. Através de suas diversas fases, a banda foi capaz de amadurecer um som puramente cru para uma agressividade calculada. Uma maturidade que chega ao ápice em We Are Not Your Kind, álbum que celebra o legado do grupo enquanto busca reinventá-lo.

Logo nos primeiros minutos, o álbum é capaz de mostrar que a banda está em grande forma. A angustiante introdução “Insert Coin” prepara o ouvinte para “Unsainted”, que carrega todas as qualidades de uma boa canção do Slipknot: guitarras pesadas conduzidas por uma bateria inspirada que unidas à samples culminam em um dos mais cativantes refrões do grupo. Essa receita se repete por diversas vezes em We Are Not Your Kind, em faixas como “Birth of the Cruel”, “Red Flag” e “Orphan”, que canalizam toda a agressividade do grupo com um instrumental afiado e poderiam facilmente figurar em álbuns anteriores.

Esse mergulho dentro das próprias origens fez muito bem à sonoridade do disco, que traz de volta samples e percussões após uma sequência de lançamentos em que foram deixados de lado. Faixas como “Nero Forte” e “Critical Darling” se tornam ainda mais cativantes graças à participação de Shawn Crahan e do novo - e anônimo - percussionista do grupo, que conduzem momentos chave das canções. O mesmo pode-se dizer a respeito de Sid Wilson e Craig Jones, respectivamente DJ e sampler, que são responsáveis por ampliar a atmosfera desoladora que permeia todo o álbum.

Baseá-lo apenas no resgate das raízes sonoras poderia ser uma saída fácil, mas o grupo aproveita o status de quem não tem nada a provar e se permite experimentar. Bandas com estilo característico podem facilmente cair em repetição, uma máxima que leva gigantes como o AC/DC a lidar com críticas de que fazem o mesmo álbum várias vezes. Buscando evitar essa armadilha causada pela zona de conforto, Slipknot chega ao seu sexto álbum de estúdio trilhando novos caminhos sem esquecer velhos truques que tornaram a banda uma das maiores de sua geração.

Um novo direcionamento pode fazer com que fãs mais exigentes torçam o nariz para canções que flertam com o pop como “Critical Darling” e “Not Long for This World”, ou “Spiders”, faixa fortemente inspirada pelo rock industrial de Marilyn Manson. Nesse caso em específico, a banda surge quase irreconhecível, com predominância de baixo e samples e o pouco uso de guitarras. Embora destoante, a canção não deixa a desejar - o que pode indicar uma sonoridade que o Slipknot pode aprofundar no futuro. Essas descobertas têm seu ápice em “A Liar's Funeral”. A canção, que inicia com uma bela melodia acústica unida ao vocal limpo de Corey Taylor, vai crescendo e se tornando mais pesada e cadenciada conforme é executada. Se desenvolvendo em um compasso próprio até atingir um dos mais melódicos solos de guitarra já gravados pela banda.

Com uma riqueza sonora tão grande, We Are Not Your Kind encontra dificuldade em formar unidade. Embora nunca tenha produzido discos conceituais, o Slipknot sempre guiou seus álbuns através de um tema que amarrava as canções, enriquecendo a experiência de se ouvir um disco do grupo por completo. O mesmo não acontece nesse, que mesmo com seus diversos interlúdios não é capaz de criar uma ligação orgânica entre as faixas.

Em uma jornada que revisita seu passado enquanto se deixa ousar, o Slipknot se prova mais relevante do que nunca, desafiando as barreiras do que pode ser feito em um álbum da banda. Embora tropece algumas vezes pelo caminho, We Are Not Your Kind mostra um grupo maduro que soube aproveitar os cinco anos desde o lançamento de .5 The Grey Chapter para reafirmar a própria identidade, ao mesmo tempo em que se reinventa.

Nota do Crítico
Ótimo