Sam Smith explora country e folk em Hazel Eyes, um álbum de altos e baixos
Quinto disco de Smith busca novos sons, mas só encontra o brilhantismo um punhado de vezes
Créditos da imagem: Sam Smith em photoshoot de Hazel Eyes (Reprodução)
Embora sejam amigos de longa data, Sam Smith e o compositor/produtor Simon Aldred (ex-Cherry Ghost) só haviam colaborado em duas faixas da discografia de britânique antes de Hazel Eyes. Os ares frescos ficam óbvios quando se ouve o álbum, que é o quinto da carreira de cantore, e o primeiro desde que Gloria (2023) – com seu hit “Unholy” – deixou claro que Smith estava procurando novos tons que lhe afastassem de sua imagem de vocalista capaz preso a baladas melosas e insípidas como “Stay With Me”.
Enquanto o Gloria buscava subverter sons gospel sob um olhar queer (nada de novo para um cenário pop capitaneado por Madonna, cá entre nós), Hazel Eyes mergulha mais fundo nas tradições da música estadunidense e encontra, por lá, o country e o folk cujas origens se confundem com o soul e a música de louvor do país. O violãozinho que marca a faixa de abertura, “Everlasting Love”, acompanhado por sua melodia anticlimática à la Nina Simone, dá a deixa do que o disco quer referenciar.
Como produtor e co-compositor, Aldred mostra ter conhecimento o bastante desse território para guiar Smith por um passeio turístico interessante por gêneros e levadas em que ainda não havia tocado. E a adição da canadense Feist em duas faixas (“Moondance” e “My Guy”), onde ela não só compõe como também canta backing vocals com sua vozinha esganiçada que se tornou uma cifra significativa do folk contemporâneo, é certeira – ela empresta uma credibilidade rústica que falta a Smith e seu timbre aveludado.
O auge dessa exploração vem em “When He’s Gone”, a quinta faixa do disco, uma balada country propulsiva que não faria feio nem numa abertura de True Detective nem na tracklist do Cowboy Carter, de Beyoncé. Smith brilha ao abordar os vocais com elegância, sem abusar dos extremos (agudos e graves) que marcaram outros cantos de sua discografia, enquanto Aldred vai adicionando elementos ao redor de cantore (pandeiros, guitarras ecoantes, corais) para criar uma daquelas alquimias musicais perfeitas, embebidas em história mas com um olho para o contemporâneo.
É uma pena que Hazel Eyes ainda tenha sete faixas depois dessa, porque ela é o encapsulamento perfeito de tudo o que o álbum busca fazer. Depois dela, tudo parece ficar no meio do caminho – isso quando não erra o alvo de vez. “Sugar Rush”, vai saber porque, adiciona corais de doo-wop e sopros de big band por trás de uma das performances mais caricatas de Smith ao microfone; “Constant Companion” coloca violões para disfarçar uma balada remanescente dos seus primeiros álbuns, semelhança traída pelos pianos e cordas sofisiticados que Aldred não resiste em adicionar à mistura.
A transformação do específico para o ordinário é completada pela dupla “Hold On” e “To Be Free”, que fecham Hazel Eyes com as notas inspiracionais óbvias de um comercial institucional exibido na TV aberta no domingo à tarde. É um final amargo para um disco que mostra tremenda promessa em suas primeiras faixas, minando uma tradição rica de sons que se encaixam à voz extraordinária de Smith através de ângulos que nunca pudemos observar antes. A vontade de inovar está aqui, enfim – mas não o bastante para preencher um álbum inteiro.
Hazel Eyes
Sam Smith
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