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Música
Crítica

Sem mistério, Foreign Tongues é mais um discaço de blues-rock dos Rolling Stones

Banda recupera certa crueza após Hackney Diamonds, mas o coração é o mesmo

Omelete
3 min de leitura
10.07.2026, às 06H00.
Rolling Stones (Reprodução/Instagram)

Créditos da imagem: Rolling Stones (Reprodução/Instagram)

Qualquer banda com mais do que um par de anos de trajetória enfrenta determinados dilemas relacionados ao seu som. Música, afinal, é o produto profundamente subjetivo de um indivíduo, e a subjetividade de um indivíduo muda de forma radical com o passar do tempo. Por isso, discografias evoluem, se transformam, e a banda que começou como rebelde de garagem às vezes se torna fenômeno pop, e de volta outra vez. Mas não os Rolling Stones – para eles, é sempre sobre cantar o blues.

Não estou dizendo, é claro, que uma das bandas mais longevas e significativas do último século nunca experimentou com o seu som, ou passou por fases em que ele pendia para um lado ou para outro. Os Stones já foram psicodélicos e sombrios, rock n’ roll e R&B, superastros envernizados e azarões sujos. Mas há um coração musical nestes artistas que, ao ouvir o novo Foreign Tongues, parece virtualmente intocado pelos últimos 60 e tantos anos de estrada.

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A pedra fundadora dessa impressão está no caráter naturalmente atemporal do blues, e nas intersecções que ele tem com tradições musicais que nasceram a partir dele. No Foreign Tongues, por exemplo, “Divine Intervention” (com sua guitarra grave e sua levada frenética) representa um cruzamento com o folk moderno de Bruce Springsteen, enquanto a balada “Ringing Hollow” (com seu piano sincopado e seu backing vocal despojado) poderia tocar tranquilamente no bar country empoeirado de alguma cidadezinha no Velho Oeste. 

Talvez você pense que essas referências não rimem bem com o baixo suingado e as cordas de “Never Wanna Lose You”, um épico dançante que poderia estar na discografia do Blondie, ou que Mick Jagger possa abusar do falsete (aos 82 anos!) como uma diva disco em “Jealous Lover” sem perder suas credenciais de rockstar. Mas, bom, você estaria errado. Tudo no Foreign Tongues se encaixa na mitologia dos Stones, porque tudo se encaixa na mitologia da música à qual eles prestam tributo, e da qual eles próprios já se tornaram mestres.

O disco vai seguindo nesse passo confortável durante todas as suas 14 faixas, que somam pouco mais de 1h de música sem cansar o ouvinte. “You Know I’m Not Good” recorta o clássico de Amy Winehouse com inteligência, deixando os trompetes para segundo plano, por baixo da guitarra e do baixo indefectíveis de Keith Richards e Darryl Jones, enquanto Jagger se delicia nos gritos machucados da melodia. “Covered in You”, que tem Paul McCartney no baixo, se aproxima do new wave oitentista com uma guitarrada ardida e um fraseado sugestivo, e “Beautiful Delilah” fecha o disco com uma homenagem a Chuck Berry em voz e violão apropriadamente manhosos.

Foreign Tongues, se você quiser se apegar a detalhes, é menos polido do que Hackney Diamonds (2023), seu antecessor imediato na discografia dos Stones. Ali morava mais a banda que se tornou uma das maiores da história, os veteranos em pleno domínio de sua arte; aqui, aparecem mais os músicos viscerais e rebeldes que trouxeram o blues para a conversa da invasão britânica nos anos 1960. Mas é claro que esses dois “lados” dos Stones convivem em Foreign Tongues, um disco que não existiria na forma como existe naquele início de trajetória da banda.

Ademais, o mesmo Andrew Watt, produtor que equilibra créditos no território do pop (Miley Cyrus, Madonna, Lady Gaga) e do rock (Ozzy Osbourne, Pearl Jam, Iggy Pop), assinou os dois discos. Trata-se, muito provavelmente, de um direcionamento de tom que vem da própria banda, e também do mood das sessões. Os Rolling Stones, a essa altura, parecem ter passado da época de tentar controlar a narrativa – eles se juntam, fazem música, e pronto. Ouvir o Foreign Tongues é ser testemunha de uma magia que parece tão natural quanto respirar.

Nota do Crítico

Foreign Tongues

The Rolling Stones

2026
Produção: Andrew Watt

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