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Prophets of Rage - Prophets of Rage | Crítica

Prophets of Rage emula passado político, mas entrega álbum com peso adulterado para tocar na FM

Jacídio Junior
19.09.2017
12h20
Atualizada em
19.09.2017
15h00
Atualizada em 19.09.2017 às 15h00

Não dá pra negar que, desde o primeiro momento quando o grupo com parte do Rage Against the Machine foi anunciado, as expectativas de - praticamente - qualquer pessoa que conhece o som dos norte-americanos foi às alturas. Quando o anúncio do supergrupo foi confirmado, com a união de três quartos do RATM mais Chuck D e DJ Lord do Public Enemy e B-Real do Cypress Hill, não havia motivo para esconder a empolgação.

No entanto, a primeira audição da estreia homônima do grupo funciona como uma ferramenta que emula toda a sonoridade de duas décadas atrás, com os riffs de Tom Morello, o rap de seus representantes em algumas faixas e o peso de boas apostas como “Unfuck the World”, que acabam por não ser a tônica do disco. Uma ducha de água fria se levarmos o histórico de cada um dos integrantes em consideração ou compararmos com o que cada um destes profissionais já entregou anteriormente.

Com letras que chamam para a ação, o grupo se reuniu mediante a possibilidade (agora concretizada) de Donald Trump se tornar presidente dos Estados Unidos e entrega um álbum que resgata algumas das sonoridades mais interessantes que esses músicos já conseguiram fazer, mas não chega a entregar algo realmente novo. Sim, qualquer pessoa que vivenciou o lançamento de um dos discos do RATM - sem dúvida - será impactada pelo som das 12 faixas que transcorrem por 39 minutos. Basta ouvir “Living in the 110” para lembrar grande parte do que a antiga banda de Tom Morello, Brad Wilk e Tim Commerford já fez, mas dessa vez, sem a raiva que  Zack De La Rocha despejava com seus vocais.

É indiscutível que a falta da antiga fúria faz com que o projeto fique sem o tempero capaz de garantir um sabor que o público conhece e que está em falta hoje. Mas querendo ou não, alguns grandes elementos resistem no instrumental, como em “Hail To The Chief”, com a cozinha trabalhando de forma pesada e sincopada para entregar momentos que devem fazer o público pular nos shows. Porém, falta a pressão de um vocal capaz de condensar o discurso que Morello fez na ocasião da divulgação da banda, “somos a trilha sonora da resistência”.

Como lembrado no review da Pitchfork, se a ideia é encontrar um som de peso, com a qualidade da raiva política que tantos buscam ao escrever e cantar atualmente, o Run The Jewels é o grupo mais relevante da atualidade. Tanto que de la Rocha lançou “Digging For Windows”, depois de anos sem nada novo, com a produção de el-p, um dos integrantes da dupla de rappers. Tem peso, tem raiva, tem tudo que se espera de alguém que realmente quer ser importante em um contra-ataque ao cenário bizarro que se apresenta diariamente pelo mundo.

Por fim, voltando ao Prophets, “Who Owns Who” mostra um pouco do que o disco todo poderia ter - pressão sonora -, com versos curtos, que valorizam a forma de cantar dos novos vocalistas e assim se encaixam de forma bem mais interessante à realidade da banda. Em todo caso, apesar de apontar ideias pesadas em uma entrega morna, para tocar no horário de almoço das rádios FM, o grupo merece reconhecimento por tentar falar sobre um momento complexo na política norte-americana da forma mais direta possível. Mesmo que pareça algo criado para tocar nas reuniões dos revolucionários. Ouça o disco na íntegra.

Nota do Crítico
Bom