Muse - Simulation Theory

Música

Crítica

Muse - Simulation Theory

Em um movimento consistente, Muse combina o eletrônico com o grandioso

Julia Sabbaga
12.11.2018
16h07

Já faz algum tempo que o Muse tem deixado a guitarra de lado. O grupo liderado por Matt Bellamy tem trazido o eletrônico para a frente já faz alguns anos, particularmente desde o disco The 2nd Law, em 2012, em um movimento que continuou em Drones, de 2015, e criou alguns momentos destoantes na carreira. Agora, ao invés de entregar hits eletrônicos em álbuns menos consistentes, a investida do Muse encontrou seu auge no novo trabalho, Simulation Theory, coeso em sua sonoridade, mas não por isso menos questionável.

Um dos modos mais diretos de enxergar a intenção do Muse é através da capa de Simulation Theory. O grupo, que já teve artes assinadas por Storm Thorgerson (artista por trás de capas do Pink Floyd e Led Zeppelin) escolheu uma ilustração de Kyle Lambert (ilustrador conhecido pelas artes de Stranger Things) para o novo disco. O novo álbum traz uma vontade de mergulhar nos anos 80 bem representada pela escolha, mais ainda mais por ser uma nostalgia moderna à década. Não é à toa que a capa do disco não remete mais à Blade Runner do que Ready Player One. A modernidade do novo disco vem por meio de produtores igualmente representativos e inéditos na discografia da banda, em hitmakers como Shellback e Timbaland.

Cheio de sintetizadores e críticas à modernidade, Simulation Theory é o Muse levando ao extremo os aspectos mais chamativos e bizarros de sua discografia, mas em um esforço que faz muito sentido; agora, o eletrônico do Muse soa grandioso como as instrumentações das antigas "Knights Of Cydonia" ou "Supermassive Black Hole". Enquanto os singles dos últimos álbuns do Muse já tinham se aprofundado no pop eletrônico, hits como "Madness", "Panic Station" ou "Dead Inside" eram contagiantes mas não tinham um poder por trás como as novas "Pressure" ou "Thought Contagion", de Simulation Theory. Isto foi atingido, infelizmente, abandonando a guitarra, que ainda estava presente em Drones. O sacrifício, pelo menos, faz sentido.

Em termos de letra, Simulation Theory também não sai da tradição crítica do Muse, e desta vez os temas misturam romance e tecnologia de forma que por vezes é confusa, mas em alguns momentos caem perfeitamente. Também por isso, faixas como "Propaganda" e "Something Human" podem soar superficiais, mas a sua pegada contagiante dá um toque de guilty pleasure ao disco. Pode ser a investida do Muse no brega, mas o pop grandioso de "Get Up and Fight" é inevitavelmente carismática. Quando a investida é mais ambiciosa, faixas como "Algorithm" e "Blockades" servem para lembrar que o Muse, criador de melodias e canções realmente grandiosas, continua lá. 

A caminhada do Muse, decididamente, deixará fãs para trás. Não parece que o grupo tem interesse em continuar no trilho que os levava para se tornar uma das maiores bandas de rock de sua geração, mas sim em desviar para um ato igualmente grandioso, do pop rock eletrônico. Por mais que o movimento signifique infelicidade aos fãs dos arranjos antigos, ninguém pode acusar o Muse de inconsistência. 

 

Nota do Crítico
Bom