Taylor Swift no clipe de "Anti-Hero"

Créditos da imagem: "Anti-Hero"/Taylor Swift/Reprodução

Música

Crítica

Taylor Swift faz das suas madrugadas ruminativas razões para dançar em Midnights

Disco cria atmosfera nebulosa, típica das madrugadas, para refletir com precisão (e distorção) sobre amor, vingança e sobre si

Omelete
4 min de leitura
21.10.2022, às 15H33.
Atualizada em 21.10.2022, ÀS 16H59

Taylor Swift sequer precisava dizer com todas as letras que as madrugadas são suas tardes em “Anti-Hero”. Há anos ela escreve sobre suas noites sem dormir, ilustrando tanto sua sensibilidade aguçada, como sua inquietude enquanto cantora e compositora. Logo, não é surpreendente que ela tenha dedicado um álbum inteiro para 13 das suas meia-noites ruminativas. É curioso, porém, que em Midnights sua insônia seja dançante, mais próxima dos já distantes 1989 e Lover do que verdadeiramente introspectiva e sóbria, como no duo recente folklore e evermore.

Talvez “Anti-Hero”, o primeiro single do disco, seja o exemplo máximo disso. Por mais duras que sejam algumas das suas realizações sobre si mesma, a exemplo do verso honesto — ou seria severo? — “Did you hear my covert narcissism I disguise as altruism”, a atmosfera da faixa se anuncia bem menos autodepreciativa. Ela é, na verdade, divertida e efervescente. Porque, embora toda lamentação que vem no meio da noite seja horrível, sim, é inegável também que existe um prazer na vergonha. Quer dizer, há um caráter aconchegante nessa aspereza, e ainda assim uma tristeza disfarçada na ironia — sensações universais que, mais uma vez, Swift traduz nas especificidades das cenas que pinta.

Quebra de expectativa semelhante vem com “Karma”, faixa que poderia facilmente ser amarga, sobretudo considerando todo o burburinho que a cantora e o fandom retroalimentaram nos últimos anos ao redor deste termo, por si só, já carregado. Entretanto, o desejo de vingança aqui é bem mais cintilante e agradável, como se a promessa de uma justiça cósmica fosse a garantia de que se fechou um capítulo, mas a história está bem longe do fim. Por isso, se o karma tira o sono de Swift é não por aborrecimento, mas pela empolgação do que está guardado para o adversário. No final, é “Vigilante Shit”, cujo nome sugere um desdém que beira o juvenil, que interrompe o disco com um quê dançante, mas impiedoso, sensual e quase fora do tom. É o ápice da sua acidez e maldade aqui, mas, como uma imagem intrusiva, é tão breve quanto inebriante.

Essa alegria pouco cristalina e cheia de nuances divide espaço em Midnights com um clima nebuloso, também muito característico das madrugadas, criado graças à predominância dos sintetizadores e de uma Taylor Swift sussurrante. Assim, da mesma forma que as noites em claro lhe trouxeram epifanias, a cantora assegura que também veio uma boa dose de distorções.

“Midnight Rain” e, mais tarde, “Labyrinth” encapsulam bem o espírito deste tipo de diálogo interno, às vezes tão cheio de insegurança, arrependimento e receio. Em ambas, a voz distorcida da cantora surge como um pensamento indesejado, que vem e vai de supetão. Mas, enquanto em “Midnight Rain” existe um embate entre as verdades tortas dessa consciência e a história como foi — que, em última instância, declara vitória para sua própria sensatez —, em “Labyrinth” essa intromissão aparece como fato incontornável: quer queira ou não, ela está se apaixonando novamente, e é melhor se preparar para a nova montanha-russa de emoções. Trata-se, portanto, de um conceito interessante, expresso de forma esperta. Entretanto, o incômodo que essa voz distorcida causa vai além do que canta o eu lírico. É inoportuno sonoramente, como uma peça que não se encaixa de fato no quebra-cabeças.

De forma semelhante, "Snow on the Beach" é também agridoce. Única colaboração de todo o álbum, Lana Del Rey surge eficiente enquanto uma presença fantasmagórica nesta música que, temática e melodicamente, combina tão bem os estilos das cantoras. É uma pena, porém, que acabe sobrando certa decepção, não pela performance dela, mas pela limitação de tê-la apenas como uma presença periférica à faixa.

Ainda assim, Midnights é imersivo, como se espera de madrugadas ruminativas, tamanha sua coesão, da premissa à execução. Ainda que sua produção acene para uma Taylor Swift do passado, o álbum traz uma compositora madura que, até quando resgata artifícios anteriores, como o jogo com os tons avermelhados em “Maroon” — ora denotando intensidade, ora o enferrujado da memória —, traz a sofisticação que vem com a experiência. Como de costume, a cantora entrega mais um projeto minuciosamente pensado que, até no pior, é competente. Mas, no fundo, são poucos os pontos baixos. Seja falando de amor, vingança ou se martirizando, Swift segue afiada e, como bem pode ser a insônia, estimulante.

Nota do Crítico
Ótimo
Midnights
Taylor Swift
Midnights
Taylor Swift

Ano: 2022

Produção: Jack Antonoff, Taylor Swift

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