Menos sequência e mais álbum-legado, Confessions II abraça todas as Madonnas
Disco é longo demais e indulgente, mas transborda de excelentes ideias
Créditos da imagem: Madonna em foto promocional do Confessions II (Reprodução)
Longe de mim dizer que Madonna não tem mais bala na agulha, mas tampouco é irrealista pensar que Confessions II pode ser seu último álbum importante. O tempo tem feito da rainha do pop uma artista de estúdio bissexta (o antecessor imediato deste disco, Madame X, saiu em 2019), e de qualquer forma o Confessions II é o lançamento mais momentoso da artista em décadas. A última vez que se falou tanto de um álbum de Madonna como acontecimento pop, evento digno de marcar no calendário, talvez tenha sido mesmo com o Confessions on a Dance Floor original, lá em 2005.
Nesse contexto – e, perdoem a grosseria, aos 67 anos de idade –, talvez a própria Madonna pense em um disco como o Confessions II mais nos termos de uma síntese do seu legado, uma última palavra, do que “só mais um capítulo” no livro que ela tem escrito como artista pop. E esse ângulo, por sua vez, pode ajudar o ouvinte a se orientar melhor nas 16 faixas, somando mais de 1h de música, que compõem este álbum. No mínimo, é uma chave melhor para destrancar o Confessions II do que a ideia de que esta é simplesmente uma “sequência espiritual” do disco de 2005.
Os dois Confessions dividem algumas peculiaridades, sem dúvida: guiados pelo trabalho de Madonna com o produtor inglês Stuart Price, eles incorporam um amor desavergonhado pela música eletrônica, uma visão dela como conduíte para a expurgação das emoções mais restritivamente amarradas em nosso corpo e nossa alma. Ambos são mixados como um set de DJ contínuo, com o pós-refrão estendido ou o gancho melódico de uma faixa desaguando na introdução da outra, borrando as fronteiras entre as canções e desobedecendo assim a regra carnal da música pop na era do streaming – os Confessions não foram feitos para serem “playlistados”; eles são uma playlist.
Confessions II, vou admitir, já ganhou muitos pontos comigo só por isso. Ouvir um álbum pop que soa como um álbum, que foi pensado para ser um álbum, com a artista e seu produtor como a agulha que costura esses pedacinhos de música um no outro para formar uma imagem coesa, é um prazer excessivamente raro nos dias de hoje. Que Madonna e Price tenham trazido essa ideia de volta sem quase nenhuma concessão ao mercado – as faixas do Confessions II são um pouco menores do que as do Confessions I, há de se perceber, mas passam longe da anemia temporal que outros artistas pop tem se visto obrigados a adotar – é uma vitória a se celebrar por si mesma.
Quando se ultrapassa esse paralelo conceitual entre os dois discos, no entanto, o que o Confessions II de fato nos diz, e nos faz ouvir? Bom, para começar é evidente que Madonna e Price estão aqui mais interessados em explorar subgêneros específicos de eletrônica do que estavam em 2005. Saem de cena as múltiplas camadas de sintetizadores texturizados, que criavam um envelope sonoro tão envolvente no Confessions original, e entra uma exploração mais plural: guitarras suingadas à la Chic (em “My Sins are My Savior”, até o ganchinho gritado de “Le Freak” é referência), percussão eletrônica frenética à la Baltimore club, trechos de palavra falada por cima de arranjos minimalistas.
É um universo sonoro que pode ser menos intoxicante, mas é também muito rico, e embebido do propósito de quem viveu e suou a música que agora é capaz de criar. “Danceteria”, batizada em homenagem a uma discoteca em Nova York onde Madonna compareceu a festas com Jean-Michel Basquiat, Keith Haring e outros figurões da época (todos mencionados na letra), surge com um resgate de memória que passa longe da nostalgia: Madonna não está nos contando sobre isso porque está na moda; ela está nos contando porque isso a formou, formou a música que ela faz, e formou a música que todo mundo fez depois dela.
Os melhores momentos do Confessions II são todos assim, um abraço que a artista dá em sua própria identidade, em sua própria presença, em sua própria história. Emanando estilo, “School” é feita para tocar nas pistas de ballroom, como “Vogue”; “Good for the Soul” e “Fragile” incorporam a face espiritualista de Madonna, e nos lembram que ela é a única popstar que criou mantras cabalísticos verdadeiramente grudentos até hoje; até a versão reggaeton da rainha do pop, que gravou com Maluma e Anitta em seus últimos álbuns, aparece aqui na viciante “Read My Lips”, arriscando o espanhol e deixando o trompete correr solto por cima da batida.
É verdade que Confessions II poderia ter se beneficiado com um pouco de edição, outro problema comum nos discos pop da atualidade – o Spotify e plataformas do tipo privilegiam álbuns com muitas faixas, que geram mais streams, logo saiu de moda “cortar” múltiplas canções compostas durante a produção de um álbum. E até Madonna é vítima da era do conteúdo, como demonstram as inclusões execráveis de “Bizarre” (piorada pela interferência de Martin Garrix) ou mesmo “Betrayal”, uma das baladas mais esquecíveis da carreira da cantora.
Mas é difícil ficar irritado demais com o álbum por conta disso. Se alguém trabalhou pelo direito de ser um pouco indulgente, ainda mais em um disco que pode ser tão final para o seu legado, é Madonna. E o Confessions II ainda é uma anomalia, um álbum pop de verdade num mar de simulacros de álbum de pop, distorções contemporâneas do que costumava ser chamado de álbum pop. O que eu quero dizer, no fim das contas, é o seguinte: antes um Confessions II longo demais do que um cenário sem Confessions II nenhum.
Confessions II
Madonna
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