Lana Del Rey – Norman Fucking Rockwell!

Créditos da imagem: Lana Del Rey/Norman Fucking Rockwell/Divulgação

Música

Crítica

Lana Del Rey – Norman Fucking Rockwell!

Em cima de pianos e sintetizadores, Lana Del Rey demonstra evolução clara como letrista

Julia Sabbaga
02.09.2019
15h36

Apesar de ser conhecida como a garota triste do pop, a evolução de Lana Del Rey através da sua discografia apontaria que, em 2019, ela lançaria um álbum mais leve e alegre, suportado pelo caminho trilhado no seu último trabalho, Lust For Life. Recheado de participações especiais e com uma certa preocupação com o sucesso comercial, o disco de 2017 pareceu uma revolução no humor de Lana, que pela primeira vez sorriu e pode-se dizer "fora do preto, e caminhando ao azul". Mas muito pelo contrário, Norman Fucking Rockwell!, o sexto álbum de estúdio de Lana, é um de seus álbuns mais melancólicos. O interessante é que pela primeira vez isso parece ser resultado das criações narrativas da compositora, ao invés de uma reflexão de seu próprio espírito. A evolução musical da cantora foi tão bem encaminhada que agora ela retorna independente e poderosa, se utilizando do sofrimento para criar atmosferas.

Mesmo com cada álbum totalmente diferente do anterior, o objeto das composições de Lana nunca mudaram muito. Nas novas canções, Lana fala de objetos da glória americana e sua decadência, ídolos do rock, e elementos que evocam a energia californiana com uma melancolia única. Mas enquanto no começo de sua carreira Lana se preocupava em se colocar no papel de uma mulher sensual com voz de menina, agora ela escreve do ponto de vista de alguém em controle, como um ser superior que comanda seus personagens, em frases como "você está perdido no mar, eu comando seu barco de volta para mim novamente", em "Mariners Apartment Complex", ou algo perfeitamente simbolizado no clipe do cover de Sublime, "Doin’ Time". E desta vez, mais do que nunca, o disco de Lana Del Rey não se importa em entregar um grande hit radiofônico. Muito pelo contrário, ele soa como um livro sombrio de poesias musicadas, com auxílio de pianos e sintetizadores.

Norman Fucking Rockwell! chega uma semana depois de Lover, da Taylor Swift, e traz o mesmo produtor, Jack Antonoff, mas os dois álbuns não poderiam ser mais diferentes, a começar por seus arranjos. NFR é baseado em pianos e sintetizadores, é recheado de baladas e está mais próximo do folk e do psych-rock do que do pop tradicional. Na faixa-título, que abre o disco, Lana brinca com o personagem de um poeta arrogante mal compreendido, baseando-se na figura do artista americano Norman Rockwell para mais uma vez descrever a paixão por um homem que não merece seu amor. O objeto simbolizado por Rockwell é a contracultura da Califórnia nos anos 60 e 70, e mais especificamente da região de Laurel Canyon, um imaginário frutífero de onde saíram diversas das criações do álbum. A faixa, um dos destaques do disco, já demonstra a evolução de Lana Del Rey como letrista, algo que fica ainda mais claro nos singles "Mariners Apartment Complex" e "Venice Bitch" mas atinge seu auge em faixas como "California", "The Greatest" e "Hope Is a Dangerous Thing For a Woman Like Me To Have – But I Have It".

Durante todo o disco, Lana aparece confortável em criar poesias mais maduras, ainda, como sempre, brincando com a mitologia americana. "The Greatest", uma narrativa do caos e decadência dos EUA, é talvez uma de suas melhores criações até hoje: "L.A está em chamas, está ficando quente, Kanye West está loiro e se foi", ela diz, misturando as queimadas das florestas da Califórnia com o surpreendente posicionamento político de West para criar um cenário apocalíptico, antes de citar David Bowie. 

Exatamente porque o brilho de Norman Fucking Rockwell! são as letras de Lana, o pecado do disco é, por vezes, se estender em brisas instrumentais não realmente necessárias, como o fim de "Cinnamon Girl", uma ótima e singela faixa, que seria melhor aproveitada se fosse assumidamente simples. Mas o prolongamento não prejudica NFR realmente. Ele apenas segue a atmosfera de Lana Del Rey em seu período de amadurecimento poético,  começando a entender seus melhores recursos como artista. Colecionando referências – que passam por Beach Boys, Joni Mitchell, Led Zepellin, John Lennon, Eagles e mais – o disco é um exemplo de que Lana ainda precisa de seus "pais fundadores" para existir, mesmo em sua empreitada mais autêntica até hoje. 

O mais precioso de Norman Fucking Rockwell! é observá-lo no contexto da discografia de Lana Del Rey. De um início sombrio quase sexualizado, passando pelo entendimento de sua persona, caminhando pelo pop, rock, synth e as baladas ao piano, foi empolgante enxergar a jornada da cantora até aqui, se construindo cada vez mais como uma artista completa. Lana Del Rey segue como um daqueles nomes que empolgam e instigam a curiosidade pelos seus próximos passos. 

Nota do Crítico
Ótimo