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Crítica

Kendrick Lamar - Black Panther: The Album | Crítica

Rapper acerta novamente, mas perde a chance de trabalhar com sonoridades ainda mais amplas

Jacídio Junior
20.02.2018
16h40
Atualizada em
29.06.2018
02h40
Atualizada em 29.06.2018 às 02h40

Kendrick Lamar é um ponto fora da curva na música. Isso é incontestável. Com discos incrivelmente bem produzidos e capazes de expressar, por meio de suas criações sonoras e letras repletas de referências, um gigantesco arco de possibilidades, o norte-americano nunca desaponta. Desde seus primeiros trabalhos, Lamar sempre foi capaz de impactar até mesmo as audiências que não estão ligadas ao que acontece na cena do hip-hop e do rap, e isso permanece.

Em seu novo trabalho, Black Panther: The Album - Music From And Inspired By, Lamar foi além, e, sem dúvida, conquistou os corações de quem ainda não havia sentido todo o peso de suas canções. Tudo que ele fez anteriormente é memorável, mas parece que o apelo de um blockbuster, acrescentado à representatividade de Pantera Negra e de sua história, deram o tempero ideal para um dos álbuns de hip-hop que melhor conversam com um público mais amplo - em escala global - desde The Life of Pablo, de Kanye West.

Com uma chuva de convidados, em nomes como The Weeknd, SZA, Vince Staples, Anderson .Paak, 2 Chainz, Future, James Blake, entre outros, e apostando em alternâncias sonoras que variam de graves absurdamente carregados para cordas calmas e atmosféricas - sem contar as letras, claro - Lamar entregou uma obra que com 14 faixas não se mostra desnecessária em nenhum momento.

O peso de faixas como “Opps” e “King's Dead”, duas músicas em uma, finalizadas com um murro (esta última com uma alternância entre um momento sonoro que já faz parte da cartilha do hip-hop, e uma sonoridade pesada e marcante a partir do momento em que Lamar rima sobre Killmonger), e nuances de músicas delicadas como “I Am” e “Blood Waters” (uma viagem dentro do disco), gera a dinâmica ideal para que a conexão com cada momento do álbum permaneça quase inabalada.

Um detalhe interessante sobre o projeto é que mesmo sendo inspirado pelo personagem/filme da Marvel, ela funciona perfeitamente de forma independente, mas - sem dúvida - ganha mais potência quando anexada ao longa e sua história. Isso só serve para dar ainda mais destaque ao trabalho desenvolvido por Lamar em todas as esferas do álbum (ele foi responsável por compôr faixas, produzir e fazer curadoria de todo o projeto).

No final das contas, Lamar foi ao blockbuster, expandiu sua mensagem para ainda mais pessoas, e entregou um projeto sem arestas, que dentro de sua totalidade é capaz de conversar com quem se identifica com o personagem da Marvel, com a música ou com a causa negra, e com representatividade de uma forma geral. Assim, ele foi capaz - mais uma vez - de mostrar que está muito à frente dos músicos e produtores de sua época e não só no hip-hop/rap.

Participações: Diversidade rítmica, mas dava pra ter ido mais longe

Ouvir o álbum sem perceber como cada nome envolvido na faixa deixa um pouco de sua pegada é, praticamente, impossível. Contando com 23 nomes nos créditos, algo que o disco entrega de forma interessante, o álbum é uma excelente junção entre quebra da cadência rítmica das frases e rimas em conjunto com vocais, que dão ainda mais elementos ao já bem trabalhado conceito sonoro/rítmico de Lamar. Black Panther: The Album é um disco para ser ouvido em uma festa, nos fones, no carro, ou para relaxar. Ele vai se encaixar em todos os momentos justamente por causa desse trabalho delicado com nuances e atmosferas que se complementam.

Mesmo com tudo isso, ainda é possível perceber uma bela oportunidade perdida, já que representatividade é um dos motes principais do projeto. Afinal de contas, se ao unir essa gama de artistas que bebem de fontes sonoras tão próximas, o projeto já caminhou vários pontos para fora da curva, como teria sido se o disco tivesse ido um pouco mais longe?

Criar faixas para uma história que tem como origem uma tribo do continente africano, conhecido por sua imensidão de sons e possibilidades, não fornece nada mais interessante do que a possibilidade de inserir esses elementos como parte da trilha, não é mesmo? Porém, essa sonoridade característica do espaço geográfico africano aparece na trilha em poucos momentos, e de forma bem discreta.

Sobre isso, Lawrence Burney em texto para a Noisey faz uma afirmação interessante: “Para um filme ambientado em uma nação fictícia do leste africano, a trilha sonora de Pantera Negra faz um trabalho pobre de descrever o que a diáspora africana (musicalmente) tem para oferecer”. Ele segue comentando que de um total de 23 artistas presentes no álbum, 11 são norte-americanos de ascendência africana (grande parte da costa oeste), somente quatro são sul-africanos (Saudi, Sjava, Babes Wodumo e Yugen Blakrok), The Weeknd é etíope criado em Toronto e  Jorja Smith é uma cantora britânica negra.

Com seu ponto de vista em destaque, Burney também comenta que essa poderia ter sido uma grande chance para mostrar como misturas sonoras menos comuns, realizadas por artistas diferentes, poderiam chegar aos ouvidos de mais pessoas graças a um grande lançamento como um blockbuster Marvel/Disney, e encerra:

“Existe, sem dúvida, um argumento comercial para isso. Filmes com grandes orçamentos precisam fazer grandes lucros para que as pessoas que o fizeram tenham melhores oportunidades no futuro. Mas existe a possibilidade de pensarmos como teria sido se a trilha tivesse, invés da colaboração de James Blake e alguns rappers norte-americanos, a participação de artistas como Spice (da Jamaica), Karol Conká (do Brasil), Burna Boy (da Nigéria), Jovi (de Camarões), Zeal & Ardor (da Suíça), para sugerir alguns. [...]. Mas se essas chances nunca foram aproveitadas, especialmente com plataformas tão grandes como as da Marvel dando suporte, possivelmente nós não iremos ver o que uma união artística (como esta) poderia fazer realmente para uma relação diaspórica”.

Ouça abaixo Black Panther: The Album - Music From And Inspired By:

Nota do Crítico
Ótimo