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Crítica

Iron Maiden - The Book of Souls | Crítica

Lendária banda britânica volta com o primeiro disco duplo de estúdio na carreira

Daniel Fideli
14.09.2015
15h06
Atualizada em
29.06.2018
02h40
Atualizada em 29.06.2018 às 02h40

Após cinco anos do lançamento de The Final Frontier, o Iron Maiden está de volta com The Book Of Souls, 16º disco de estúdio da banda britânica. Gravado durante o segundo semestre de 2014, o álbum estava programado para ser lançado no início do ano seguinte, porém, com a descoberta do câncer na língua do vocalista Bruce Dickinson, The Book Of Souls acabou adiado para setembro de 2015.

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Com exatos 92minutos e 11 ssegundos, o disco é o mais longo da carreira e o primeiro duplo de estúdio da banda. Em tempos de downloads ilegais, com o conceito do álbum perdendo valor, é de se admirar que coloquem no mercado mais de uma hora e meia de músicas novas. No caso do Iron Maiden, a aposta se mostrou válida ao alcançar o topo de diversas paradas ao redor do mundo.

" If Eternity Should Fail" abre The Book Of Souls com uma característica que permeia quase todo o álbum, a influência clara do rock progressivo dos anos 70. Com um início ao estilo do Yes, abusando dos teclados, Dickinson surge com sua inconfundível voz cristalina, que em nada parece afetada pelo câncer recentemente descoberto. Carregada pelas guitarras do trio Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers, a faixa ganha força em um refrão pegajoso, digno dos clássicos do Maiden.

Segunda música do disco, "The Speed Of Light" foi a escolhida para ser o primeiro single. Apesar de não definir o trabalho por inteiro, a faixa mostra o que de melhor o Iron Maiden sabe fazer em cinco minutos. Riffs rápidos acompanhados da competente bateria de Nicko McBrain e dos agudos de Bruce Dickinson, em uma combinação com um quê de “Can A Play With Madness’. De quebra, The Speed Of Light ganhou um maravilhoso videoclipe que homenageia games clássicos dos anos 80/90.

"The Great Unknown", mais cadenciada, segue a linha adotada pela banda em The Final Frontier, clima misterioso, envolto em belos solos de guitarra. Já "The Red And The Black", primeiro grande épico do disco, com pouco mais de 13 minutos de duração, apresenta o Iron Maiden imergindo no progressivo, com introdução e fechamento acústicos, passando por riffs “cavalgada” e os clássicos coros de “oooohhhh”. Quinta faixa, "When The River Runs Deep" é uma volta ao início de carreira, pesada, crua e direta, ecoa às origens do Maiden em meio a New Wave do heavy metal britânico

A homônima The Book Of Souls fecha o primeiro cd evocando o aspecto místico presente na capa do álbum, que retrata o mascote Eddie caracterizado em trajes maias. Aqui o grande destaque fica por conta do uso dos teclados, fundamentais na criação de um ambiente dramático, quase operístico, em uma das melhores performances de Bruce Dickinson ao longo do disco. Steve Harris assume o controle na segunda metade da faixa, com sua linha de baixo característica, acelerando até o desfecho solene com dedilhado em violão.

"Death Or Glory" inicia o segundo cd, e assim como The Speed Of Light, mostra que apesar de se sair bem com os longos épicos, o Maiden acerta em cheio quando opta pela simplicidade. Dona de um ótimo refrão, deverá figurar entre o set-list da turnê de The Book Of Souls. Com praticamente quatro décadas de atividade, é normal que a banda acabe se auto-referenciando, e neste novo álbum não é diferente. Nesse sentido, o início de "Shadows Of The Valley" faz o ouvinte voltar no tempo, pensando estar com "Somewhere In Time" na agulha, acompanhando o riff clássico de "Wasted Years".

 

"Tears Of A Clown" contrasta sua energia pulsante com a temática delicada, uma homenagem ao falecido ator Robin Williams. Seguindo a mesma linha de "The Speed Of Light" e "Death Or Glory", a faixa é mais um exemplo de que, no caso do Iron Maiden, menos é mais. Em "The Man Of Sorrows", a banda aparece mais introspectiva, sombria como ainda não havia se mostrado em The Book Of Souls, um resquício daquele clima soturno presente em "Fear Of The Dark".

Os 18 minutos de Empire Of The Clouds são responsáveis por fechar The Book Of Souls, em uma jornada assinada por Bruce Dickinson, que aqui se inspira em duas de suas principais paixões: a aviação e a História. Na letra, o vocalista fala sobre o acidente com o R101, dirigível britânico que caiu em território francês no ano de 1930, deixando 48 mortos. Para contar essa dramática história, Dickinson se apoia em todos os excessos que uma ópera-rock possa contar, piano, orquestrações, solos de guitarra, mudanças de andamento, é o Iron Maiden brincando de ser Pink Floyd.

Certamente o melhor disco da Donzela de Ferro desde Brave New World, The Book Of Souls pode não funcionar para alguém pouco imerso no mundo do mascote Eddie. Rebuscado e de certa forma exagerado, o álbum requer dedicação para ser absorvido em sua integridade. Para os fãs das antigas, uma tarefa nada dolorosa, e extremamente prazerosa. Se Empire Of The Clouds for a chave que fecha o cadeado da história da banda, o Iron Maiden sai de jogo com a cabeça erguida, fazendo jus ao legado do que hoje pode ser considerada uma verdadeira instituição do rock.

Nota do Crítico
Ótimo