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Crítica

Harry Styles - Harry Styles | Crítica

Em seu primeiro álbum solo artista aposta em caldeirão de referências e mostra rumos promissores

Jacídio Junior
12.05.2017, às 16H26
ATUALIZADA EM 12.05.2017, ÀS 17H01
ATUALIZADA EM 12.05.2017, ÀS 17H01

Se você não conhece os Beatles ou David Bowie, possivelmente o primeiro disco solo de Harry Styles, Harry Styles, seja a porta ideal. Deixando seu passado pra trás, Styles abre o disco com a boa balada "Meet Me in the Hallway" e mostra que o caminho já havia apresentado nas faixas lançadas previamente será seguido. A já conhecida "Sign of Times" vem com a força das baladas que serão cantadas, gritadas, e choradas no maior número de lugares possível. Devaneios sobre essas duas primeiras faixas fazem parecer que o disco foi criado em um misto de declaração de amor e perda do que é amado, o que gera um resultado forte e tocante. Não dá pra negar que a sonoridade, a escolha dos timbres e dos instrumentos, quase tudo remetendo as décadas de 60/70 é algo capaz de fazer até mesmo os saudosistas mais raíz procurar algumas das faixas do jovem artista para ouvir.

Harry Styles novo disco

"Carolina" quebra o clima de baladas tristes e entrega uma faixa um pouco mais alegre, com andamento diferente e que aposta em uma junção de elementos clássicos do rock para funcionar bem. "Two Ghosts", que lembra Beck em sua fase Sea Changes com "Golden Age" vem com a força que só o fundo do poço pode dar. "Somos só dois fantasmas que permanecem no lugar em que eu você já ocupamos". Uma faixa escrita para o amor que não é o mesmo e que dilacera a cada nova palara. "Sweet Creature" dá vontade de cantar junto nas primeiras frases, é uma música que faz o link entre pessoas, de sonoridade romântica e que traz referências ritmicas muito próximas de "Blackbird" dos Beatles. A faixa carregada de sentimento cria uma nova atmosfera para o disco, justamente em sua metade, graças ao uso do violão e o foco em poucos elementos sonoros.

"Only Angel" leva o disco para outro patamar, com uma levada de rock clássico setentista fazendo com que o número de referências sonoras do disco chegue ao incontável. No caso de "Only Angel" a escolha do timbre é muito próxima de "New Sensation", do INXS . Isso mostra que cada faixa traz em sua essência a sonoridade de algo que você, sem dúvida, já ouviu antes em algum outro lugar. Uma experiência auditiva que te pega pelo seu alicerce. Isso poderia ser encarado de forma ruim, mas no caso do disco de Styles tudo faz sentido e mesmo com emulações sonoras claras colabora para que sua criação soe no limite entre o original e uma cópia, mas prevalecendo o gosto de novidade. E isso, sem dúvida, também tem a mão de um dos produtores que trabalhou com o artista na concepção do novo material. Jeff Bhasker, conhecido por seu trabalho em álbuns de sonoridade espetacular como os dois últimos de Bruno Mars, My Beautiful Dark Twisted Fantasy, de Kanye West, Watch the Throne, de West e Jay-Z, "Uptown Funk", de Mark Ronson, só para ficar em alguns.

Logo, caminhando para o fim do disco, é perceptível que Styles criou um caldeirão de referências sonoras de momentos importantes do rock, com ritmos e influências ressignificadas sem que as coisas ficassem datadas, conseguindo compor um ar totalmente novo para algo que, sem dúvida, já ouvimos. Assim, depois dessa trilha, o artista começa a colocar outros temperos em suas faixas, começando por "Kiwi" que funciona como se uma banda indie resolvesse gritar até perder a voz. Uma mistura de The Vines, The Hives e a primeira fase do Arctic Monkeys, e eu não estou brincando. O álbum segue para "Every Since New York", possivelmente a faixa menos marcante do disco, talvez por ser uma aposta mais próxima do pop simples e com poucas camadas. Ela não chega a fugir do conceito do disco, mas é a faixa com cara de coringa, que pode ser tocada em qualquer rádio, a qualquer hora. "Woman" agrada aos ouvidos logo nas primeiras notas do piano, trabalhando com uma marcação moderna, no contratempo, que vai acrescentando outros elementos sonoros em seu decorrer e garante o tempero que indica um caminho a ser seguido por Styles. A mistura entre a reverência e a referência ao passado em conjunto com elementos da música pop que são capazes de pegar o público de dentro para fora.

Então o disco caminha para um fechamento sem sobressaltos com "From the Dining Table" que entrega de forma harmoniosa e bela toda a desgraça do final de um relacionamento: "A propósito, até meu telefone sente falta das suas chamadas". Faixa de arranjo simples, que não gera outro pico de adrenalina, mas faz com que você possa deglutir todas as sensações que as letras, os sons, as referências e a musicalidade do artista foram capazes de criar durante esse percurso.

Com certeza, uma grande surpresa que pode ganhar mais nuances com o passar do tempo. E que no final de tudo reverbera somente o pedido de que tudo o que está nesse projeto seja genuíno, pois só assim teremos muitos outros caminhos e possibilidades para acompanhar Styles em sua busca musical, não mais para se auto afirmar, mas sim para mostrar que ele absorveu, emulou usou as referências e assim foi capaz de criar algo inovador e novo.  Ouça o novo disco.

Nota do Crítico
Ótimo

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