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Crítica

Ghost - Prequelle | Crítica

Quarto disco traz a banda evoluída, dançante, e forte como nunca

Julia Sabbaga
05.06.2018
16h26
Atualizada em
07.06.2018
05h03
Atualizada em 07.06.2018 às 05h03

O novo álbum do Ghost é o primeiro após diversas turbulências. Prequelle chega depois da revelação oficial da identidade do líder mascarado, o músico Tobias Forge, do primeiro Grammy do grupo, mas mais importante que isso, chega com uma mudança completa no line-up. Apesar de nunca revelar quantas mudanças de integrantes o grupo teve, no ano passado as alterações ficaram claras, quando os antigos membros da banda revelaram suas identidades em um processo legal contra o frontman. Todo este cenário já levantou questionamentos do que seria o próximo som do Ghost, e se Forge carregaria todo o peso sozinho.

Facebook/reprodução

As mudanças vieram representadas pela maior alteração no visual da banda, que leva toda a parte teatral muito a sério. No novo trabalho, o Ghost já não é mais liderado por um Papa Emeritus, e sim por um Cardeal, Cardinal Copia, ainda não merecedor da maquiagem de caveira ou do título maior da igreja de satã. A considerável redução de apetrechos da figura central ajudou bastante na questão de mobilidade de Forge no palco, e isso não vem por acaso: a sonoridade de Prequelle, que já está sendo levada em turnê, é muito mais dançante do que dos álbuns antecessores.

Desde o lançamento do primeiro single, "Rats" e principalmente no segundo, "Dance Macabre", cresceu um receio de que o Ghost entraria de vez no mundo pop e esqueceria os gêneros que os alavancaram até agora, o metal e rock pesado. Mas um dos fatores mais marcantes do Ghost é sua peculiaridade. A banda criou uma sonoridade tão característica, que pode mudar de gênero e inventar moda, que sempre estará ligado por um som comum. Prequelle é prova.

A mudança definitivamente não é drástica. O Ghost se aprofundava nos anos 80 há algum tempo, e revelou sua influência mais obviamente no último EP, Popestar, que já trazia Tom Dalgety na produção. Pode ser que parte do som sombrio tenha perdido espaço em Prequelle, mas a banda não deixou isso de lado para favorecer algo inédito. É inegável que a fama do Ghost está crescendo. Mas a essência não foi a lugar algum.

Prova disso, é que Prequelle não é um álbum para qualquer um. O disco traz longas - e possivelmente, as melhores – faixas instrumentais da banda. "Miasma" é impressionantemente grandiosa, demonstra o talento das composições instrumentais do grupo, e traz um dos melhores destaques do álbum; um surpreendente solo de sax no fim. Este momento é o primeiro de Prequelle que desperta um sentimento familiar para quem os conhece; como o Ghost gosta de arriscar, e tem uma capacidade incrível de inovar e acertar em cheio.

Não é só isso que distancia o Ghost do mainstream. A banda não está perto de abrir mão de sua temática satânica ou de abdicar de sua essência heavy metal. Em Prequelle isso fica óbvio em diversos momentos; desde a melodia sombria de um coro infantil na abertura do álbum, "Ashes", à terceira faixa, "Faith", que começa com uma guitarra absolutamente metal. Em "Pro Memoria", uma das melhores composições do Ghost até hoje, a banda escancara sua temática na primeira palavra: Lúcifer. Forge pode fazer faixas mais melosas como "See The Light", e grudentas como "Witch Image", mas enquanto estiver cantando sobre Satã, o inferno, ou a morte – tema central que permeia Prequelle do começo ao fim – ele vai se manter uma paixão de muitos, e difícil de engolir para outros. 

Tudo isso resulta em um disco estiloso, grandioso, e inevitavelmente dançante. Ele ainda fecha com a ótima “Life Eternal”, um hino que pondera sobre a eternidade e encerra a jornada muito bem, comprovando a habilidade de Forge de se utilizar dos termos e temas mais sombrios para falar de questões profundamente humanas.

Prequelle é uma evolução natural de Ghost, que como fez durante toda a discografia, só elevou sua sonoridade para outro patamar. Forge continua expandindo os horizontes do Ghost para territórios surpreendentes, prova saber fazer isso como ninguém e, ainda mais, prova saber fazer isso sozinho. É impressionante, ainda, como ele consegue fazer o teatral satânico evoluir junto, mesmo depois de tantas revelações e obstáculos. Por isso, a cada disco, o Ghost só se mostra mais forte. Ainda bem.

Nota do Crítico
Excelente!