Framing Britney Spears é um exercício de empatia que escancara sexismo da mídia

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Música

Crítica

Framing Britney Spears é um exercício de empatia que escancara sexismo da mídia

Documentário revela a dura (e ironicamente “secreta”) história da cantora pop que vive sob escrutínio público desde a adolescência

Mariana Canhisares
24.03.2021
18h22
Atualizada em
24.03.2021
18h40
Atualizada em 24.03.2021 às 18h40

"Sou a Srta. ‘Estilo de Vida dos Ricos e Famosos’ / Sou a Srta. ‘Oh meu Deus, Aquela Britney é Sem Vergonha’ / Sou a Srta. ‘Extra! Extra! Últimas Notícias’ / Sou a Srta. ‘Ela Está Muito Gorda, Agora Ela Está Muito Magra’." Meses depois de raspar a cabeça, ato considerado por boa parte da imprensa - e do público - como um indício de insanidade, Britney Spears explicou com todas as palavras em “Piece of Me” o que estava enfrentando desde a adolescência: uma realidade hipervigiada e sexista, na qual tudo era julgado e nada absolvido. Ainda que o single tenha sido um dos grandes sucessos do álbum Blackout, a dureza do relato da diva pop fica mais clara agora, quase 15 anos depois, com o lançamento do documentário Framing Britney Spears.

Com pouco mais de uma hora de duração, a produção do New York Times monta uma linha do tempo simples da vida da cantora, começando no momento em que a pequena Britney demonstrou sua destreza artística pela primeira vez até a audiência de tutela no ano passado, quando pediu que seu pai não fosse mais responsável por administrar sua vida e seu patrimônio. Não há nenhuma grande revelação, ou entrevista bombástica. Tudo o que está ali o espectador conhece, em maior ou menor grau: o sucesso estrondoso, a imagem de “boa moça” vs a de “vagabunda”, a polêmica separação com Justin Timberlake, o frenesi dos paparazzi e o dito descontrole. Talvez a maior surpresa seja a dimensão do movimento que analisa a fundo cada uma das postagens de Britney no Instagram para determinar se ela está bem ou não. Porque a verdade é que o mundo inteiro acompanhou essa história em cadeira cativa. Então, em teoria, não há motivo para choque - mas, ainda assim, ele existe.

No fundo, o que o documentário faz de inédito é ter um olhar mais sensato e humano para a vida de Britney Spears - algo que definitivamente não foi a regra nos anos 1990 e 2000 - e dar um passo para trás para entender o contexto da época. Nesse exercício, entende-se a influência do escândalo entre o antigo presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e Monica Lewinsky no trabalho da imprensa e a popularidade dos tabloides num mundo pré-redes sociais. Do mesmo modo, finalmente se admite o quão lucrativo foi para fotógrafos e publicações cada clique maldoso e crítica desproporcional e machista à vida íntima da artista, sustentados pelos valores conservadores e o próprio interesse do público. Ou seja, o espanto ao final da exibição é, na realidade, o atestado de cumplicidade do espectador no caos que foram os últimos 20 anos da vida da cantora.

Apesar da simplicidade da narrativa, que se apoia em depoimentos de jornalistas e pessoas relativamente próximas a Britney - ninguém da sua família topou dar entrevistas, e não se sabe se ela sequer recebeu a solicitação da equipe por trás do documentário -, é intensa a sensação de claustrofobia ao acompanhar até o mais genuíno esforço dos fãs para ajudá-la a recuperar sua autonomia com o movimento #FreeBritney. Tudo parece invasivo demais, principalmente considerando como Britney é uma voz ausente. Embora não tenha saído das manchetes desde “... Baby One More Time”, é evidente como a princesa do pop foi e continua a ser tratada mais como um objeto de interesse do que propriamente um indivíduo. Framing Britney Spears é, portanto, menos sobre a cantora, e mais sobre o comportamento nocivo que persiste até hoje, em novo formato.

No entanto, o documentário é por vezes superficial na sua proposta de reflexão. É difícil aceitar que o New York Times, o jornal mais respeitado do mundo, não conseguiu verificar se a “denúncia” anônima recebida por um podcast tocado por fãs da Britney era real ou não. Além disso, por mais válidas que sejam as análises dos jornalistas, é inegável a falta que faz ouvir pessoas do círculo íntimo da cantora. Por isso, recai na produção uma grande sombra de dúvida, em vez de se verificar de fato um bom esforço jornalístico.

Mesmo assim, há grandes méritos em Framing Britney Spears, a começar pelo exercício de empatia em que coloca seus espectadores, entre figuras públicas e os próprios entrevistados. A questão agora é: quantos scrolls e likes na timeline da sua celebridade preferida essa consciência pesada vai durar?

Framing Britney Spears: A Vida de uma Estrela
Framing Britney Spears
Framing Britney Spears: A Vida de uma Estrela
Framing Britney Spears

Ano: 2021

País: Estados Unidos

Duração: 74 min

Direção: Samantha Stark

Roteiro: Liz Day

Nota do Crítico
Bom

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