Florence + The Machine - High as Hope

Música

Crítica

Florence + The Machine - High as Hope

Florence Welch enfatiza amadurecimento revelando seu lado menos selvagem em novo álbum

Julia Sabbaga
30.06.2018
12h24

Florence + The Machine surgiu há quase 10 anos, no disco de estreia Lungs, em 2009. Enfeitiçando o público com uma aura de bruxaria, sentimentos intensos, baterias marcantes e sons tribais, Florence Welch amadureceu como artista diante dos holofotes com o desenrolar de sua discografia, e sua evolução está gritante no novo álbum da banda, High as Hope. Curiosamente, o novo álbum traz um lado de menos brados e mais sussurros da cantora, que parecem ter saído de muita reflexão.

Para quem é fã de Florence + The Machine e passou os últimos três anos, desde o lançamento de How Big, How Blue, How Beautiful, esperando um novo trabalho focado na batida e na voz, pode se frustrar com o novo disco, que traz a vocalista mais retraída. Sua voz cheia de personalidade, claro, permanece a mesma, mas ela canta com mais abertura e se diverte mais com os arranjos vocais, ao invés de gritar emoções fortes. High As Hope foca no lado mais íntimo da compositora, e isso se reflete em algumas de suas melhores letras até hoje.

Parte da explicação é um fator muito concreto; em 2018, Florence Welch está sóbria, e escreveu o novo disco sem influência de substâncias pela primeira vez. Isto contribui não apenas para uma expressão nas letras, como uma sonoridade muito despida; dentro da discografia da banda, High as Hope fez o que o último álbum disse que faria, entregar a cantora sem grandes exageros, e mais terrena. Por isso, o maior valor do trabalho está na sua sinceridade, e não em sua magnitude.

O primeiro single lançado, “Hunger”, já evidenciou isto claramente, na primeira frase: “Aos 17 anos, eu comecei a me fazer passar fome”. Pela primeira vez, Florence se abriu sobre seu distúrbio alimentar, e ela fez isso como uma explosão discreta; em uma confissão na primeira frase do primeiro single. Mas durante a letra de “Hunger”, ela cria um paralelo com a solidão e a busca de amor, na faixa mais Florence + The Machine do trabalho. Já a partir daí – a segunda faixa do disco – Florence passa por canções confessando sua sobriedade e dedicando músicas a personagens reais; à sua irmã, “Grace”, e à sua inspiração, Patti Smith, em “Patricia”. Como pequenas peças de um quebra-cabeças, Florence vai construindo sua mais genuína biografia, pedindo desculpas e exorcizando experiências.

Na sonoridade, Florence também soa mais limpa, e leva o peso das batidas mais para as cordas e efeitos de fundo do que no som tribal, resultado que parece vir da produção. Desta vez, Florence trouxe Emile Haynie, de Born To Die, da Lana Del Rey, o possível responsável pelos efeitos de High As Hope. Disto, um dos maiores exemplos é “June”, que já abre cheio de vozes e uma atmosfera envolvente. Além disso, High as Hope é o primeiro trabalho da banda com Florence na produção, o que torna o álbum ainda mais autoral.

Apesar de soar menos selvagem, e os momentos poderosos fazerem falta, High As Hope traz momentos realmente brilhantes. “Sky Full Of Song” traz uma melodia absolutamente simples e por isso mesmo tão marcante, remetendo ao folk dos anos 60 que combina perfeitamente com o estilo da cantora. Além do ótimo single, “Big God”, um poderoso pedido de amor, Florence arremeta o disco com três lindas canções finais, “100 Years”, “The End Of Love” e “No Choir”. Esta última é um destaque à parte, que serve perfeitamente para explicar High As Hope. Ela evidencia a falta de refrões grandiosos e justifica belamente: “eu preciso confessar, eu fiz tudo isso para mim mesma”.

Florence voltou mais discreta, e seu vozeirão faz falta. Mesmo assim, High As Hope continua desenvolvendo a banda como uma das mais poderosas da nova geração, e evolui a carreira de uma grande compositora, agora livre de suas próprias correntes e dos pesos de seu passado.

Nota do Crítico
Ótimo