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Música
Crítica

Sanctuary traz Evanescence com propósito renovado - e algumas surpresas

Sexto disco de estúdio da banda aponta para experimentação inesperada

Omelete
3 min de leitura
05.06.2026, às 12H12.
Amy Lee, do Evanescence, em divulgação do Sanctuary (Reprodução)

Créditos da imagem: Amy Lee, do Evanescence, em divulgação do Sanctuary (Reprodução)

Os primeiros segundos de “Rapture”, quarta faixa do álbum Sanctuary, são ditados por um riff de piano de vocação espectral. Aguda e afinada a um timbre que lembra canções de ninar, com um toque de sintetização, essa abertura instrumental traz à mente o trabalho de Kerli, que durante o final dos anos 2000 e início dos anos 2010 lutou para incorporar certa influência de conto de fadas sombrio à música pop. Seria uma evocação curiosa para qualquer artista em pleno 2026, mas é ainda mais inesperada para o Evanescence.

Não que a banda formada no Arkansas (EUA) já não tenha sua indulgência gótica, é claro. Desde que surgiu mais de 20 anos atrás, com o incontornável hit “Bring Me to Life”, o Evanescence se tornou o estandarte do rock gótico para o mainstream, o tipo de artista de crossover para as paradas de sucesso que o gênero nunca teve antes, e tampouco desde então. Como acontece com toda banda que faz esse pulo para fora do underground, no entanto, as credenciais de autenticidade de Amy Lee e cia. dentro do “movimento” foram repetidamente questionadas durante seu período de maior sucesso.

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Ouvindo o Sanctuary, dá para entender um pouco o porquê: o Evanescence não é lá muito adepto do purismo que se exige de artistas que circulam por esses meios, e a referência a Kerli em “Rapture” é só a ponta do iceberg nesse sentido. Este sexto disco da banda, por exemplo, abre com “Beautiful Lie” e seu esquema rítmico de hip hop, estoura em sintetizadores no single “Who Will You Follow”, e empresta cacoetes melódicos das power ballads de Michael Bolton e Phil Collins para a sua faixa título, “Sanctuary”.

O resultado é um disco surpreendentemente vivo, em um sentido criativo. Formado em 1994, mantendo mais ou menos os mesmos integrantes desde 2007 (a exceção sendo a baixista Emma Anzai, que entrou na formação em 2022), e já algumas décadas removido de seu auge comercial, o Evanescence não está em uma fase do seu ciclo de vida como banda em que se espera inovação. De fato, a esmagadora maioria dos nomes que surgiram no mesmo período (pense Nightwish, ou qualquer banda do movimento emocore) já se acomodaram ao lugar de tocar os hits em performances miradas nos convertidos. O Evanescence com certeza tem público cativo para fazer o mesmo, se quiser, mas há algo de inquieto no Sanctuary

Parte disso talvez venha da inspiração lírica declarada para o disco: o tumulto político nos EUA durante as duas administrações de Donald Trump. Em “Who Will You Follow”, a vocalista Amy Lee questiona a adoração cultista ao líder republicano, que tem como combustível o algoritmo das redes sociais (“Quando toda a sua fé na ralidade se for/ Quem você vai seguir?”); em “About Us”, ela se revolta com os votantes, arrependidos ou não, que o elegeram (“Agora é tarde demais/ Você conseguiu o que queria/ Curve-se diante do seu Deus/ E não, ele não dá a mínima para a gente”); e por aí vai.

De certa forma, é a mesma energia que potencializou tantos outros lançamentos interessantes dos últimos anos – do Paramore ao Gorillaz, passando pelo Bastille e por Florence + the Machine, todo mundo está recorrendo a esse “pop apocalíptico” para tentar fazer as pazes com um planeta em plena convulsão. Se essa aproximação do fim do mundo incentiva o Evanescence a continuar buscando novas cores para sua música (nem falamos dos ecos de Enya na balada “How Do I Heal”, ou do coral gospel de “Calm Down”!), no entanto... vai saber, às vezes o apocalipse vale a pena.

Nota do Crítico

Sanctuary

Evanescence

2026
Produção: Nick Raskulinecz, Jordan Fish, Zakk Cervini, Alex Seaver, Tyler Demorest

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