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Eminem - Revival | Crítica

O novo álbum do Eminem é mais fraco do que o rapper, mas tem grandes momentos

Julia Sabbaga
15.12.2017
16h37
Atualizada em
29.06.2018
02h37
Atualizada em 29.06.2018 às 02h37

Revival, o nono álbum do Eminem, lançado hoje, é difícil de analisar. Não apenas pelas letras eternamente polêmicas do rapper, mas porque é um álbum instável. Em um trabalho de 19 faixas, Eminem passa por altos e baixos extremos demais, e até em uma faixa só ele é péssimo e ótimo ao mesmo tempo.

Em 2013, quando lançou o seu último álbum, The Marshall Mathers LP 2, Eminem parecia estar na rota certa. Pelo que aquele álbum indicava, Eminem tinha tudo para lançar um triunfo, principalmente depois de um hiato de cinco anos. Um tiro certo seria se ele tivesse tirado proveito do cenário político americano, que até rendeu um ótimo free style anti-Trump no BET Hip Hop Awards.

Mas o fato é que Eminem sempre foi obcecado por si próprio e mestre em fazer música atrás de música sobre ele mesmo. Isso nunca foi problema, porque até do próprio egocentrismo o rapper conseguia retirar poesia. Mas em 2017, as coisas mudaram, e Eminem não pode mais ser o mesmo que ele era em 2000; não é à toa que no último álbum ele pediu desculpas à mãe por letras como “Cleanin’ Out My Closet”. No novo álbum, ele retorna para pedir perdão à outra figura feminina que sofreu nas letras, sua ex-esposa Kim.

Em “Bad Husband”, Eminem faz uma confissão de abuso e ao mesmo tempo pede desculpas. “Você me bateu uma vez e eu usava isso como desculpa para continuar um padrão de abuso. Por que eu bati de volta?”. A música poderia continuar descrevendo a relação problemática e já seria polêmica, mas o rapper vai além e se elogia como um pai em todo refrão: “Como você consegue ser um mentiroso e um bom pai? Um bom pai, mas um marido ruim”. O cinismo fica claro e o pedido de desculpas casado à auto-adoração soa muito mal.

Polêmicas à parte (se isso for possível) Revival tem alguns hinos. A música contra Trump é um deles. Com um refrão otimamente pop feito por Alicia Keys, “Like Home” descreve o presidente americano e o cenário dos Estados Unidos de modo absolutamente perfeito, com críticas afiadas e jogos de palavras admiráveis. Na mesma linha, “Untouchable” também acerta em detalhar o privilégio branco, na voz de um de seus maiores representantes.

A parceria com Ed Sheeran, “River”, que causou controversa quando anunciada, surpreendentemente funciona. Eminem sabe usar contexto muito bem. O rei do pop atual encaixa no tom sombrio quase do mesmo jeito que Dido fez em “Stan”. “Nowhere Fast”, possivelmente a música com o melhor arranjo do álbum, “Castle” e “Arose” também merecem destaque. As duas últimas são o rapper em seu melhor, ao jogar e embaralhar letras como ninguém.

Mas de modo geral, o resto do álbum é esquecível. Faixas como “Believe” e “Framed” soam sem fôlego e preguiçosas, da produção até a letra. “Remind Me” é um desperdício: apesar do bom uso de “I Love Rock n’ Roll” de Joan Jett, que harmoniza bem com a sua própria letra simples, o rap em geral passa batido.

Exemplificando perfeitamente a montanha-russa de qualidade do álbum, está “Offended”. Em um rap só, Eminem consegue brilhar em alguns momentos e se apagar completamente em outros. A completa ausência de arranjo funcionaria se Eminem estivesse esbanjando talento de letra, mas na maior parte da música ele não chega nem perto de seu dom. Mas no fim, ele solta um dos melhores trechos de rap do álbum, que remete à "Rap God", uma das obras mais perfeitas do artista.

Revival ficará na discografia do Eminem como alguns de seus outros álbuns. Não no topo nem no fundo. Algumas músicas serão ignoradas, porque a indústria musical está acostumada a ignorar certas questões polêmicas que não servem a seu favor, e como parte deste mesmo movimento, algumas serão imortalizadas. 

Nota do Crítico
Bom