Eminem - Kamikaze

Créditos da imagem: Aftermath Records/Divulgação

Música

Crítica

Eminem - Kamikaze

Respondendo críticas, Eminem volta a ter o que dizer e soa ácido novamente

Julia Sabbaga
03.09.2018
16h31

Um dos elementos mais fundamentais do talento de Eminem é sua raiva. Talvez por isso, Revival, seu último disco, foi recebido de forma tão esquisita pelo público e pela crítica. Marshall Mathers parecia não ter muito o que dizer, e entregou um álbum que não apenas não tinha mensagem, como reunia uma equipe com os maiores nomes do mais puro pop, de Ed Sheeran a Beyoncé, desagradando fãs e fazendo com que o rapper soasse mais morno do que nunca. Mas Revival acabou servindo para um propósito maior. Menos de um ano depois, ele se mostrou o combustível necessário para trazer o Eminem raivoso das antigas, e resultou no lançamento do álbum-surpresa Kamikaze.

No último dia de agosto, Eminem anunciou o seu décimo álbum com uma publicação que diz muito sobre o significado do trabalho: “Tentei não pensar demais sobre isso”. Kamizake foi a surpresa do meio de ano que o público não esperava, e caiu com um dos melhores materiais que o Eminem já lançou em algum tempo. Mas claro que o disco não passaria livre de algumas polêmicas reais.

Kamikaze começa como uma bomba. Já deixando claro que a ideia por trás do álbum é responder os críticos de Revival, na primeira faixa, “The Ringer”, Eminem diz: “Eles criticaram meu álbum até a morte então eu estou mostrando o dedo para a mídia”. Por boa parte de suas 13 faixas (e pouco mais de 45 minutos), Eminem foca exclusivamente nisso, defendendo Revival da crítica e ao mesmo tempo atacando uma enorme quantidade de rappers que dominam o mainstream hoje em dia. Inevitavelmente, o tema soa como uma crise de meia idade de um nome que era dono do mundo há 10 anos e hoje não entende o crescimento de nomes como Drake, Migos, Lil Pump e inúmeros outros. De qualquer jeito, a sua reflexão sobre o estado da música hoje é mais do que válida, e Eminem sabe desfrutar desta problemática muito bem. O tema continua em "Greatest" e "Lucky You", com boas batidas e ótimos trechos, explicitando na última: "Onde está o velho eu? Sou o mesmo, que pega o feedback e usa para atirar de volta, eu preciso disso". Em Kamikaze, o assunto é raramente outro, parando apenas para falar sobre relacionamentos em "Normal" ou para tratar sobre o fim do D12 na ótima "Stepping Stone".

Infelizmente, nem tudo é brilho no novo álbum do Eminem. Enquanto ele baixou a bola em relação à letras misóginas e parece fazer um esforço real em se encaixar em comportamentos –minimamente – menos politicamente incorretos de seu passado, o rapper reflete sua incapacidade de trilhar rumos com a mesma velocidade que a valorização do respeito. A letra de "Fall", que já marcou manchetes no final de semana, realmente é desnecessária. Ao usar palavras mais que ultrapassadas e um xingamento homofóbico direcionado ao Tyler, The Creator, Eminem ainda se mostra preso no tempo. E o trecho é tão desnecessário que é inegável imaginar que ele foi feito para chamar atenção. Comprovado pelo auê no dia de lançamento de Kamikaze, o rapper definitivamente não precisaria de um golpe baixo para roubar holofotes.

“Você realmente vai responder todo mundo que não gostou do que você está fazendo? Não sei se isso é uma boa ideia. Qual vai ser a próxima, Kamizake 2?”. Este trecho é parte do discurso do empresário Paul Rosenberg em uma faixa de Kamikaze. De volta depois de um longo tempo sem participar dos álbuns (faixas com mensagens de Paul marcaram diversos dos discos de estúdio do Eminem), Rosenberg tem um conselho muito claro que acaba registrando no disco suas maiores qualidades. A absoluta consciência de Eminem sobre o que ele está fazendo, as armadilhas que ele mesmo coloca a si mesmo, e o bom-humor que ele sempre manteve sobre suas próprias asneiras. 

Eminem construiu sua carreira como uma figura desbocada que passava por cima dos críticos e haters e se utilizava de linguagens e temas que hoje não são mais aceitos da mesma forma. Por isso, Revival foi necessário em sua discografia. Eminem tentou se conformar com o que ele podia dizer e buscou achar terreno para construir um outro tipo de música. Quando a tentativa frustrou, ele encontrou novamente do que falar e retornou seu olhar ao que sempre funcionou: ele mesmo. Mesmo com seus problemas, Kamikaze trouxe o Eminem de volta à sua forma ácida de antes, com menos enrolações e mais coisas a dizer. 

Nota do Crítico
Ótimo