Música

Crítica

Drake - Scorpion

Drake entrega respostas aos haters em álbum denso e cheio de mensagens

Felipe Cotta
29.06.2018
10h56
Atualizada em
02.07.2018
14h04
Atualizada em 02.07.2018 às 14h04

Não tem sido uma jornada tranquila para Drake. Um dos artistas mais populares do mundo teve sua imagem abalada (de novo) há pouco tempo, quando Pusha-T o acusou de esconder um filho com Sophie Brussaux, uma atriz pornô. Isso foi combustível suficiente para haters mundo afora incendiarem as redes sociais com memes e críticas pesadas, trollando o rapper de todas as maneiras possíveis. Agora, no lançamento de Scorpion - seu quinto álbum - resta saber se a força do disco será suficiente para fazer o mundo esquecer por um momento os problemas da vida pessoal dele e focar na música (que é o que realmente importa).

Instagram/reprodução

Quase que simultaneamente, Drake soltou o primeiro single "I'm Upset", oportuno como nunca, onde ele deu um recado deixando claro que não vai ser tão fácil assim tirá-lo de seu trono. Com um mês de lançamento, a música já tinha mais de 60 milhões de plays no Spotify e, em se tratando de Drake, isso é só o começo. "Nice For What", o single lançado pouco tempo antes, já conta com mais de 340 milhões.

Mas o que isso tudo significa? Scorpion é disco que vai "salvar" a carreira de Drake? É o que vai afundar de vez? Provavelmente nem um, nem outro. Ele não precisa de um disco salvador e mesmo que Scorpion não o seja, seus singles provam que de fazer hits ele entende. Ou seja, tudo vai ficar bem quanto a isso. Até porque Drake já teve uma das maiores presenças no topo da história do hip hop, já trabalhou com praticamente todas as estrelas do jogo e vem batendo recorde atrás de recorde nas paradas de seu gênero. E ainda assim o cara coleciona detratores.

Scorpion é uma resposta ácida a todos eles, onde se ouve um Drake fuzilando letras obscuras e cheias de raiva. Aliás, uma resposta longa: Scorpion é um álbum duplo - coisa não muito comum nos dias de hoje - com nada mais nada menos que 25 faixas, inclusos os já lançados singles "I'm Upset", "God's Plan" e "Nice for What". Quem segue o rapper no Instagram pôde ver o quanto ele se dedicou dentro do estúdio. Se ele está exausto depois de tanta produção, do lado de cá tem gente ansiosa pra ouvir o produto final.

Uma das marcas mais interessantes do disco é o equilíbrio entre o hip hop e o lado R&B do canadense (é um disco duplo com um álbum dedicado a cada estilo). Aqui ele aparece soltando bastante a voz e se arriscando com sucesso nas melodias. Mas não se engane, o foco do disco é mesmo a acidez, e quem viu o trailer lançado há poucos dias para divulgar o álbum percebeu isso: uma vibe rancorosa, melancólica e "cara fechada".

A já mencionada "I'm Upset" é cheia de alfinetadas sobre sua ex, sobre as recompensas ofensivas que ele precisa até recontar, sobre o tamanho do desrespeito de tanta chupinhação em cima de seus versos. Em "Emotionless" ele ataca novamente a vida moderna e as redes sociais, como se também não as usasse para se promover, e aproveita para resvalar no assunto de Pusha T, tentando botar panos quentes e seguir adiante: Look at the way we live, I wasn't hiding my kid from the world, I was hiding the world from my kid” ("eu não escondia meu filho do mundo, escondia o mundo do meu filho"). O assunto volta novamente em "March 14", onde ele abre mesmo o jogo e fala tudo sobre o caso, fechando o disco com o recado que muita gente esperava que ele desse. E ele ainda se lamenta: "A gente só se encontrou duas vezes e, diferente de Billy Jean, o filho é meu".

A poderosa "Nonstop" tem tudo para ser um grande hit. Batida super marcada e aquele groove indefectível, mas mesmo o que parece amigável esconde também uma resposta aos críticos que reclamam de suas músicas feitas para as baladas. "Nonstop" é isso, mas com uma mensagem maldosa no refrão quase ininteligível. Veja se você pega o recado. Os quase 90 minutos de Scorpion são assim, desafiadores e elétricos, feitos para mostrar que ninguém veio aqui a passeio. Drake está pronto para ser metralhado de novo, e mais ainda para resistir de novo.

"8 out of 10" e "Blue Tint" são dois socos na orelha, perfeitas para testar até onde seu fone de ouvido aguenta com tanto bumbo eletrônico. "Sandra’s Rose" e a ótima "Final Fantasy" deixam você descansar o ouvido um pouco com seu clima soul e mais melódico. Mas o que importa ainda mais do que as músicas é a atitude e a mensagem geral do disco. Drake é o dono da bola, não mexam com ele porque senão a coisa fica feia. É um trabalho agressivo e transparente, é o Drake que está louco para se provar novamente. E que consegue.

Scorpion é grandioso em sua ambição e Drake faz questão de mostrar que pensou realmente grande em todos os aspectos do projeto. Tanto que outro ponto alto do disco é o time de participações especiais que ele convocou: entre outros tem Jay-Z, Ty Dolla $ign, Static Major e até - pasme - Michael Jackson! Sim, o rei do pop faz uma aparição póstuma na faixa "Don’t Matter To Me" (onde se ouve mais uma alfinetada quando ele diz “that’s not the way to get over me”) e prova que ainda é referência e faz parte do que acontece de mais importante no mundo da música, mesmo depois de 9 anos morto.

E é assim que Drake, um dos maiores artistas da atualidade, ensina como se faz para se manter assunto nos tempos de redes sociais, trollagem e fake news. O cara tem um quê de Midas: tudo que ele toca vira discussão, vira meme, vira hit, vira amor e ódio, vira recorde na Billboard. Scorpion - com todas as suas agruras, produção soberba e um Drake que sabe transformar raiva em confiança e música impecável - não será diferente. Quem tiver a paciência de ouvir todos os recados que ele tem pra passar em 1 hora e meia de música nova vai ser recompensado.  É o tipo de trabalho tão denso e tão cheio de meandros e mensagens subliminares que precisa ser ouvido, lido, entendido e estudado. E ouvido de novo e de novo. Scorpion é um triunfo.

  

Nota do Crítico
Ótimo