No Dawn FM, The Weeknd prova que, às vezes, mais é mais

Créditos da imagem: The Weeknd em imagem promocional do Dawn FM (Reprodução)

Música

Crítica

No Dawn FM, The Weeknd prova que, às vezes, mais é mais

Álbum é o mais extravagante, musical e liricamente, do cantor canadense - e ainda melhor por isso

Caio Coletti
10.01.2022, às 13H32
ATUALIZADA EM 22.01.2022, ÀS 12H01
ATUALIZADA EM 22.01.2022, ÀS 12H01

Quando lançou Honey, em 2018, a cantora Robyn falou ao The New York Times sobre a diferença fundamental entre “canções pop comuns e músicas para a boate”. Não que haja uma hierarquia de qualidade entre as duas, mas elas são bem distintas, como Robyn explicou: Quando você ouve música de boate, não há uma recompensa. Não há um momento em que pensa: ‘Aqui está o refrão, agora isso faz sentido’. Você precisa apenas aproveitar o que ela é, aproveitar que não há uma conclusão”.

Esse insight simples, mas brilhante, de uma das grandes virtuosas da pista de dança em atividade me veio à mente no começo do Dawn FM, novo álbum de The Weeknd, lançado na última sexta-feira (7). Especialmente nas primeiras cinco faixas do disco, o cantor e compositor canadense se esforça extraordinariamente para fazer “música para a boate”, em um desafio aberto ao pop fácil e rápido (literalmente, com a mania de músicas de menos de 3 minutos trazida pelo streaming) que domina as paradas norte-americanas.

Natural, inclusive, para um disco largamente produzido em parceria com dois gigantes da música eletrônica: o Oneohtrix Point Never, nome artístico do produtor Daniel Lopatin, e o grupo Swedish House Mafia. Conjugando suas referências com as deles, The Weeknd cria um início de álbum que se alonga e se delicia, sem nenhuma vergonha, por bridges instrumentais e sintetizadores cheios de camadas, em tons sobrepostos que substituem os baixos que estariam ali em um disco de R&B mais tradicional.

Daí a genialidade de resgatar o single “Take My Breath”, originalmente lançado em agosto do ano passado, dessa vez em versão estendida. Com produção que não passaria vergonha dentro de uma trilha sonora de John Carpenter (a guitarra sintetizada que protagoniza o instrumental parece emprestada direto do clássico tema de Christine), o hino pop apoteótico se transforma em um épico delirante de pista de dança de quase 6 minutos de duração. E a canção até brinca com a tal quebra de expectativas da qual Robyn falou, cortando o último verso do refrão em sua primeira aparição para deixar o ouvinte em estado de pura animação suspensa.

É só depois de nos dar essa longa e climática introdução que o Dawn FM escancara sua outra grande ambição: a de contar uma história. A narração de Jim Carrey na faixa título, que abre o disco, deu a dica, e as salpicadas niilistas de The Weeknd em alguns versos das primeiras canções também (em “Sacrifice”, ele faz sua melhor imitação do vocal pomposo do Spandau Ballet para dizer que “o gelo em suas veias nunca vai sangrar”), mas é depois de ouvir o lendário Quincy Jones contar parte da sua história no interlúdio falado “A Tale by Quincy” que o disco se abre como uma reflexão fantasiosa do além-vida.

Como fica claro nas canções seguintes, estamos ouvindo uma estação de rádio transmitida direto para os habitantes do purgatório. “Você está chegando lá, mas não se preocupe: há mais música vindo aí antes de você ser completamente engolido pelo abraço delicioso daquela pequena luz que está vendo no horizonte”, brinca o narrador Carrey no final da faixa “Out of Time”, uma balada soul à la Simply Red ou Billy Ocean que não estaria fora de lugar na programação da Antena 1, turbinada por um sample esperto do city popMidnight Pretenders”, da cantora japonesa Tomoko Haran. 

O conceito é perfeito para The Weeknd desfilar suas confissões amorosas suplicantes. O canadense sempre passeou, como liricista, na contradição entre uma persona romântica quase devocional (aqui melhor exemplificada no dream pop “Starry Eyes”, em que ele promete cuidar de sua amada após um relacionamento traumático) e um lado não só mais sexual e agressivo, como também cínico e atormentado, digladiando com demônios que o faziam perigoso para aqueles - e aquelas, principalmente - que se envolviam com ele.

O Dawn FM parece querer fazer as pazes entre essas duas versões de The Weeknd. A tensão entre o romântico e o amargo ainda está aqui, mas, ao contrário do que aconteceu em outros discos, ele se esforça para criar e justificar uma unidade entre as duas coisas. Pegando a deixa da reflexão de Quincy no começo do disco, The Weeknd parece finalmente se entender e se aceitar como inseparável dos próprios traumas, incapaz de fugir de quem ele é de quem se tornou, por tudo o que já viveu. 

É uma conclusão dura, sim, mas não tão sombria quanto parece. Pelo contrário: enquanto sintetiza o soul-rap de Tyler, the Creator em “Here We Go… Again” ou resgata a dinâmica melódica do TLC e do Destiny’s Child em “Best Friends”, o The Weeknd do Dawn FM encontra um tipo de paz quase mística nessa aceitação de si mesmo. Ele não parece achar que seus demônios o impedem de viver e amar, mas que eles são absolutamente necessários para isso.

Não à toa, o cantor declama um verso de Rainer Maria Rilke na faixa “Every Angel is Terrifying” que encapsula muito desse sentimento: A beleza é o terror que suportamos/ Enquanto paramos e nos maravilhamos, somos aniquilados/ Todo anjo é terrível. E é claro que essa frase tirada direto da obra do poeta austríaco mais existencial do início do século XX é a deixa para, em um ato de pura anarquia pop, The Weeknd nos jogar de volta na pista de dança para a fase final do disco.

Em certo sentido estético, ele parece nos dizer que tudo hoje em dia é uma versão sintetizada de outra coisa. Do compasso soul à la Bruno Mars da debochada “I Heard You’re Married”, parceria com Lil Wayne, passando pela balada rock “Less Than Zero”, que daria orgulho ao The Pretenders, o Dawn FM abraça um universo sônico absurdamente amplo porque sabe que não há excesso que não possa transformar em algo perfeitamente razoável para o mundo narrativo que criou.

Às vezes, é só colocando tudo em letras garrafais que conseguimos encontrar as verdades mais profundas e escondidas de nós mesmos. Às vezes, a serenidade está no abraço do barulho, e não no silêncio. O Dawn FM triunfa como extravagância pop e como exploração sentimental íntima porque entende que essas duas coisas não são antagônicas - especialmente em pleno 2022, é tudo parte de ser humano.

Dawn FM
The Weeknd
Dawn FM
The Weeknd

Ano: 2022

Nota do Crítico
Excelente!

Conteúdo Patrocinado

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.