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Crítica

Danger Mouse & Daniele Luppi - Rome | Crítica

Danger Mouse surpreende ao produzir disco pop influenciado por música italiana

Fernando Scoczynski Filho
19.05.2011
00h00
Atualizada em
21.09.2014
14h21
Atualizada em 21.09.2014 às 14h21

O produtor musical Brian Joseph Burton, mais conhecido como Danger Mouse, se tornou um dos nomes mais reconhecidos da música nos últimos anos. O sucesso do disco Demon Days (2005), do Gorillaz, produzido por ele, bem como a popularidade de sua banda Gnarls Barkley, renderam convites para produzir discos de artistas como Beck, The Black Keys e, mais recentemente, U2, na esperança de revitalizar o som da banda irlandesa em seu próximo álbum. Agora, Danger Mouse lança mais um projeto, Rome, disco em que trabalhou ao lado do compositor italiano Daniele Luppi pelos últimos cinco anos.

Rome é uma homenagem às trilhas sonoras de filmes italianos dos anos 60, especialmente as clássicos composições de Ennio Morricone (Era Uma Vez no Oeste, Três Homens em Conflito) para filmes do gênero spaghetti western, também conhecido como bang-bang à italiana. O álbum inclusive traz, em sua parte instrumental, alguns dos mesmos músicos que trabalharam naquelas composições. E, se o nome de Danger Mouse não for o bastante para trazer atenção para o projeto, saiba que Jack White e Norah Jones foram convidados para cantar em algumas de suas faixas.

Enquanto a influência de Morricone é imediatamente aparente na primeira faixa, "Theme of Rome" (que tem vocais de Edda Dell'Orso, colaboradora habitual do compositor), parecendo mais cópia que homenagem, as canções logo assumem uma direção mais contemporânea para o restante do disco. A instrumentação é rica, com belos arranjos de violino, acompanhada de vocais em coro. No entanto, são a bateria e o baixo que ganham destaque, com uma orientação mais pop, contrastando influências sessentistas e contemporâneas, usando os estilos de Luppi e Danger Mouse.

Jack White já entra em ação na segunda faixa, "The Rose With a Broken Neck", cantando de maneira diferente daquela a que estamos acostumados. White gravou suas canções em duas vozes distintas, que são tocadas simultaneamente. Uma delas é alta e trêmula, sua sonoridade já tradicional e bem conhecida pelos fãs do White Stripes. A outra é grave, séria, diferente de tudo já feito por ele até aqui, ao ponto de ser quase irreconhecível, não fosse pela sobreposição com sua voz "normal". As três faixas com vocais de Jack White não poderiam estar mais distantes de seus outros projetos, mas ele demonstra grande versatilidade ao se adaptar ao estilo de Rome.

Já as faixas com Norah Jones não são tão surpreendentes, especialmente pela comparação com White, já que ela canta em sua voz habitual. Felizmente, essa voz, suave e fluida, é perfeita para a atmosfera do disco e, obviamente, traz um toque de sensualidade para as músicas. Ela não faz um esforço tão grande quanto o de White para sair de sua zona de conforto. No entanto, seu histórico musical não é tão distante das faixas que canta em Rome, que estão entre as mais pop do álbum. Não fosse por essa cantora adicional, o disco pecaria em variedade.

Um problema aparente em Rome é que muitas das músicas não se desenvolvem tão bem quanto poderiam. O álbum tem quinze faixas, mas nenhuma delas passa sequer de três minutos e meio de duração, totalizando meros 35 minutos ao fim. Por um lado, faixas curtas mostram concisão e precisão, sem ir além do necessário. Por outro, transparecem certa insegurança dos compositores, como se houvesse um medo (excessivo) de que algo "sobrasse". Talvez como tentativa de consertar sua curta duração, o disco traz três faixas de interlúdio, repetindo, em formato reduzido, melodias de outras canções. Enquanto esses interlúdios funcionam como excelentes transições, seu caráter minimalista acaba diminuindo o potencial que algumas músicas teriam para evoluir. Além disso, os interlúdios estão posicionados no tracklist longe de suas melodias de origem, criando uma repetição desnecessária no disco, que resulta em uma estranha sensação de déjà vu.

"Two Against One", de White, e "Black", de Jones, se sobressaem às demais faixas, facilmente rivalizando com os melhores trabalhos já lançados por eles. As músicas cantadas certamente tendem a ser mais memoráveis para a maioria do público, e são aquelas para as quais os ouvintes voltarão com mais frequência. No entanto, as músicas instrumentais, todas muito bem orquestradas e executadas por italianos, vão além do simples conceito de "trilha sonora sem filme" que muitos tentam dar ao disco. Seus títulos (como "The Gambling Priest" e "The Matador Has Fallen") sugerem um acompanhamento visual, mas não carecem de um. Rome é inspirado por um gênero específico de trilha sonora, sem tentar ser uma trilha em si.

Ainda assim, Rome consegue atingir uma ótima fluência do começo ao fim, graças à atmosfera italiana que permeia todo o disco. A lista de faixas também é bem organizada: deixando de lado os três interlúdios, há seis instrumentais e seis com vocais, que se alternam no tracklist, de forma a não enfatizar nem uma nem outra. Além disso, é muito bom ver Danger Mouse, Jack White e Norah Jones envolvidos em um projeto diferente de seus gêneros habituais, não só porque têm uma chance de mostrar versatilidade, mas porque trazem músicas de um estilo tão fora do comum a um público normalmente voltado para a sonoridade rock ou pop.

Rome usa suas influências italianas consistentemente, sem parecer retrô, provando - com muita classe -, que a música pop ainda tem áreas a explorar, e pode evoluir muito estas novas descobertas.

Nota do Crítico
Bom