Bring me the Horizon - amo

Créditos da imagem: Divulgação/Sony Music

Música

Crítica

Bring me the Horizon - amo

Banda atinge novo patamar de experimentação em álbum ambicioso

Gabriel Avila
08.02.2019
12h18

Poucas palavras podem descrever Bring me the Horizon melhor do que “polarização”. Desde sua formação no underground britânico dentro do então pouco conhecido gênero deathcore até um show lotado no Royal Albert Hall, o grupo nunca foi unanimidade entre o público, atraindo fãs e haters conforme conquistava espaço em meio à música pesada, um estilo que dá pouca chance à novidades. Com amo, seu sexto disco de estúdio, a banda elevou essa divisão ao extremo ao abraçar de vez características da música pop criando um álbum que carrega o DNA experimental que só surpreende quem deixou de acompanhar a banda na última década.

Com álbum Sempiternal, de 2013, o BMTH abriu o leque e passou a prestar mais atenção às melodias, e mesmo sem deixar a agressividade de lado, foi capaz de amadurecer ao adicionar camadas ao som até então orgulhosamente cru. O disco seguinte, That's the Spirit, aderiu de vez uma abordagem mais abrangente, deixando o vocal gutural de lado e incluindo recursos eletrônicos. Por fim, um ano antes do lançamento de amo, a banda lançou a coletânea 2004-2013, que reúne faixas presentes desde seu primeiro EP até o já citado Sempiternal, cobrindo a fase dedicada à uma sonoridade agressiva e técnica em um lançamento cuja capa é uma lápide, símbolo poderoso de transição.

O metal não foi completamente deixado de lado em amo, mas a abordagem agora é diferente. Os berros raivosos e as guitarras complexas dão lugar a riffs mais compactos em uma melodia construída para que as vozes se sobressaiam não pela potência, mas sim pela forma harmoniosa como conduz as canções. “MANTRA”, a canção que abre o disco (após a introdução “i apologise if you feel something”) mostra de cara a nova abordagem, com um instrumental pesado e cadenciado que leva a um refrão explosivo, sem deixar de lado um interlúdio completamente pop, fazendo com que ambos os mundos coexistam. Em “wonderful life”, a mais pesada do álbum, a banda mostra pleno domínio técnico para criar uma canção que balanceia entre o peso e o acessível, criando um hit capaz de agradar a velhos e novos fãs. A participação de Dani Filth (da banda Cradle of Filth) somada à orquestração no último refrão são a cereja do bolo.

O álbum se mostra ambicioso ao levar o BMTH em um novo patamar de experimentação, o que o grupo faz sem medo. Agora o quinteto abraça outras vertentes musicais e cria uma relação simbiótica com seu som, algo que nomes como o Linkin Park fizeram muito bem no início dos anos 2000. Em amo, que tem produção realizada pelo vocalista Oliver Sykes e o tecladista Jordan Fish, a banda utiliza instrumentos para emular samples, criando uma sonoridade única que aproveita o melhor de ambos os mundos para criar canções que Sykes descreve como “sombriamente dançantes”. A faixa “nihilist blues” é completamente voltada ao house, mas com um interlúdio comandado pelo baterista Matt Nicholls que incorpora uma levada em meio à uma melodia completamente eletrônica. O que também acontece em “why you gotta kick me when i'm down”, faixa conduzida por um ritmo eletrônico hipnotizante que vai adicionando instrumentos conforme avança.

Apesar de toda a polêmica causada pelo disco, é injusto dizer que o BMTH tenha se vendido, quando até mesmo o som mais voltado à música comercial tem assinatura da banda. As letras seguem tão afiadas quanto em álbuns anteriores, que falavam sobre se livrar de um vício (Sempiternal) e depressão (That's the Spirit), mas justamente por ter no amor seu tema principal, amo por vezes deixa o peso de lado. É com esse conceito que canções como “medicine”, “in the dark” e “mother tongue” conseguem espaço para existir, afinal dentre as várias sensações que o amar apresenta, nem todas são ruins (ou pesadas) como se espera.

A banda desliza apenas quando não consegue incorporar organicamente outros gêneros em sua música, acabando por perder sua essência no caminho, porém isso ocorre em poucas ocasiões, liberando espaço para que o quinteto brilhe naquelas em que a mistura dá certo. O melhor exemplo desse equilíbrio está em “sugar, honey, ice & tea”, que é pesada e chiclete ao mesmo tempo, que com um vocal poderoso e carregado de identidade cria um possível clássico para a banda. Nesse sentido está também a irônica “heavy metal”, que além de combinar uma batida dançante com as pesadas guitarras e ainda abrir espaço para o beatbox ainda traz no refrão um lema para a nova fase do Bring me the Horizon: “(...) não é heavy metal, mas está tudo certo”.

O disco abre espaço para mudança na canção que fecha o álbum com a belíssima “i don't know what to say”, um desabafo sincero sobre a perda de um ente querido em meio a uma melodia conduzida por uma orquestra que vai crescendo até se tornar uma épica conclusão que consegue mudar pela última vez o clima de um álbum cheio de coragem para ousar. Em amo o Bring me the Horizon trouxe sinceridade em meio a uma sonoridade radiofônica que apenas uma banda que sabe onde quer chegar poderia alcançar, e demonstra um amadurecimento ímpar e potencial para fazer música dentro dos próprios termos.

Nota do Crítico
Ótimo