Baco Exu do Blues - Bluesman

Música

Crítica

Baco Exu do Blues - Bluesman

Com um álbum sem rodeios, rapper baiano conecta amor, depressão, música e o ato de ser negro no Brasil atual

Jacídio Junior
26.11.2018
14h05

Muita gente usa a frase "não acredite no hype" como um mantra. Porém, com o álbum Bluesman do rapper baiano Diogo Moncorvo, conhecido como Baco Exu do Blues, você deve, precisa mergulhar no hype.

Nove faixas, 30 minutos. Esse é o tempo e o percurso que ele precisa para mostrar tudo o que tem para dizer. Uma lufada de ar fresco e música sem rodeios, já que cada faixa bate direto, arrebata. Nada desse negócio de mil músicas (grande parte desimportante) e muitos minutos só pra construir a sensação de uma playlist. Em Bluesman, desde o contato com a capa do álbum, só rola a mensagem rasgada pros ouvidos e pro coração.

Baco consegue fazer um mix de tudo que é interessante no hip-hop/rap brazuca, num disco que se chama Bluesman, justamente pelo conceito do que é ser um “homem do blues”, como fica claro na última frase do disco: "Se você não se enquadra ao que esperam… você é um Bluesman”. E o artista baiano extrapola os selos e rótulos, mesmo fazendo parte da cena do rap nacional.

Com tudo isso no horizonte, ele entrega uma obra profunda, com letras que chacoalham e colocam toda a dualidade do gostar/amar humano em primeiro plano. A sequência de faixas é tão bem construída que elencar as que mais causam impacto é quase impossível. Músicas como “Me Desculpa Jay Z”, “Minotauro de Borges” e “Kanye West da Bahia” (pra elencar as mais comentadas), te fazem rir, deixam as frases impressas na sua cabeça, emocionam e tiram lágrimas, cada vez por um motivo diferente.

Dessa forma, Baco confirma (não que fosse necessário) o que já tem sido dito há um bom tempo, o hip-hop/rap nacional é a música que mais fala sobre o Brasil e o brasileiro de hoje. No caso de Bluesman, Baco expõe o que o negro, o comum, aguenta. O artista mostra suas entranhas, seus amores, a luta com os momentos de depressão e cria links entre o que ele sente - o que o ouvinte sente - e o que o mundo o (nos) faz sentir. A música pega fundo e, no fim das contas, é o que as pessoas procuram quando dão o play. Toda essa mistura entre coisas profundas faz com que seja possível perceber que o segredo do disco está embalado na forma como ele se conecta com quem o ouve. E sim, de alguma forma, isso vai acontecer.

Mesmo que, recentemente, pouca coisa da música brasileira tenha batido na sua mente, Bluesman é uma daquelas obras catalisadoras de mensagens, sentimentos e sons que nos faz refletir sobre o ato de amar, não amar, ser negro (no Brasil), falar sobre isso, sentir isso… É estimulante, é vivo, não soa como algo criado in vitro, e por isso te encontra como uma pedrada na cabeça, que deixa as frases flutuando na rotina do seu dia e faz questão de te extrair do contexto embebido na letargia do pasteurizado artístico que chega planejado para causar algo.

Bluesman, não tem cara de planejado, ele causa por vir de dentro, quebrando todas as ideias de música mercadológica a cada nova faixa. Trinca minutos que precisam fazer parte do seu dia: Artisticamente e sentimentalmente urgente.

Por fim, Bluesman é uma obra que tem blues no nome, mas que não coloca sua reverência ao gênero musical norte-americano como parte dos elementos sonoros presentes no disco, mas sim no conceito, no ponto ao qual Baco quer levar sua música. Como ele afirma em entrevista à Rolling Stone Brasil“Bluesman nasce sobre sentir a música, mais do que me mostrar como escritor, porque isso eu já fiz. Quero repetir um sentimento, mas não me enquadrar num gênero musical. Quero, com esse disco, quebrar o gênero musical. Não é um disco de rap, nem de MPB, quero que seja música, tá ligado?”.

E ele alcança o objetivo. É música e é pra sentir. Ouça o disco abaixo.

 

Nota do Crítico
Excelente!