Avril Lavigne - Head Above Water

Música

Crítica

Avril Lavigne - Head Above Water

Cantora faz um esforço em soar genuína, mas ainda não consegue criar álbum coeso

Julia Sabbaga
15.02.2019
14h37

A carreira musical de Avril Lavigne não é fácil. Ela foi lançada como um produto comercial nos anos 2000, se aproveitando da era do punk rock, mas mesmo assim, desde então, não conseguiu entregar um lançamento que superasse o significado de seu álbum de estreia, Let Go. Desde 2002, a cantora flutua por gêneros no que parece uma caminhada por dois rumos distintos: achar o som mais bem-sucedido comercialmente e lançar algo que soe minimamente genuíno. Seu novo álbum, Head Above Water, infelizmente, continua neste meio termo, mas deve ser dito que é o esforço mais real da cantora em se mostrar mais honesta.

O sexto álbum na carreira de Avril chega seis anos depois de seu auto-intitulado disco e, depois de uma longa e sofrida batalha com doença de Lyme, chega com a promessa de ser mais biográfico do que nunca. A cantora disse que as letras vieram durante o tratamento e descreveu Head Above Water como um álbum íntimo, que saiu de sua doença e recuperação.

Os três primeiros singles que Avril revelou já deixaram claro que não havia um direcionamento definido de sonoridade: “Head Above Water”, uma balada com toques de hino gospel, “Tell Me It’s Over”, um R&B soul à la Amy Winehouse e “Dumb Blonde”, um pop chiclete que ainda trouxe parceria com Nicki Minaj, e poderia fazer parte da mesma Avril de “Girlfriend”. Os três singles, apesar de totalmente distintos, têm um potencial comercial, e isso é a característica de todas as faixas de Head Above Water: todas poderiam entrar na programação de rádio.

O disco é essencialmente pop, mas há uma evolução clara da vocalista para música adulta contemporânea, e suas composições, agora baseadas no piano, ganharam um toque distinto e louvável. Mas existe um problema na sonoridade de Avril que nunca conseguiu sair do começo dos anos 2000. Até em seus refrões mais chicletes, em faixas como “Souvenir”, “Love Me Insane” e “Bigger Now”, há uma energia nostálgica nas melodias, que ainda na voz de Avril, que permanece a mesma há 20 anos, acaba soando datado. Em relação às letras, há alguma consistência, porque diversas falam sobre batalha, libertação e superação, mas o imaginário poético da cantora ainda é limitado. Em “Birdie”, por exemplo, Avril cria uma metáfora com um pássaro em uma jaula, algo que está longe de ser original.

Surpreendentemente, Head Above Water tem seus melhores momentos, quando ele parece mirar em rádios cristãs. A faixa-título, “It Was In Me” e “Warrior”, músicas nas quais ela fala mais sobre encontrar a esperança, Avril se permite criar momentos grandiosos, com batidas fortes, e consegue transmitir um pouco mais de genuinidade. Avril ainda é jovem, mas com uma carreira já longa, ela soa melhor quando não tem medo de ser adulta. Como sua voz é um de seus pontos fortes, a vocalista combina bem com um som mais imponente, em que ela pode se prolongar em agudos em contextos mais apropriados.

No mínimo, Avril Lavigne surpreendeu. Ninguém poderia ter adivinhado, em 2002, que a sk8er girl se tornaria sucesso na parada de músicas cristãs, onde “Head Above Water” chegou ao 2º lugar. Talvez a cantora sofra de um problema muito único, de nunca realmente ter conseguido ser a artista que ela é. Desde sua estreia, ela foi divulgada como um produto de sua época e, talvez por isso, nunca tenha conseguido se livrar do estigma. Head Above Water tem mérito por parecer a primeira vez que a cantora realmente tentou se mostrar mais genuína, mas, mesmo assim, passa longe de ser um trabalho musical apreciável.

Nota do Crítico
Regular