Arctic Monkeys – Tranquility Base Hotel & Casino | Crítica

Música

Crítica

Arctic Monkeys – Tranquility Base Hotel & Casino | Crítica

Novo do Arctic Monkeys é enigmático, difícil e decididamente revolucionário

Julia Sabbaga
11.05.2018
11h09
Atualizada em
29.06.2018
02h25
Atualizada em 29.06.2018 às 02h25

“Eu ficaria preocupado se nada tivesse mudado, principalmente porque faz cinco anos desde o último álbum”, disse o vocalista Alex Turner em entrevista recente à Entertainment Weekly. A fala do frontman, principal compositor e agora produtor do Arctic Monkeys faz muito sentido, e explica um dos fatores mais óbvios de seu sexto disco, Tranquility Base Hotel + Casino; ele é surpreendente.

Em uma de suas estratégias mais curiosas na antecipação do lançamento, a banda anunciou que nenhum single seria lançado. Até o vazamento do álbum na íntegra, o mundo não fazia ideia do que esperar, e uma vez que o véu de TBHC foi retirado, isso se evidenciou uma decisão muito sábia do grupo. Se lançassem a faixa com mais cara de rádio – possivelmente “Four Out Of Five” – o público se sentiria direcionado a achar que o disco seria algo que decididamente não é. TBHC não é um álbum de rádio. Mas não há nada de errado nisso.

Tranquility Base Hotel + Casino é um trabalho pretensioso, mais do que qualquer outro álbum do conjunto. O abandono da guitarra no centro da cena e o domínio do piano e sintetizador soa estranho ao ouvido, e faz com que o disco se assemelhe mais à Last Shadow Puppets, banda paralela de Turner, do que aos trabalhos do Arctic Monkeys. Mas o rumo também combina perfeitamente com a temática espacial adotada, e harmoniza principalmente com os falsetos e linhas vocais que Turner arrisca. A inclinação à algo mais soul e gravitando nas melodias de jazz é um dos aspectos que deve desagradar velhos fãs, sedentos há cinco anos por mais hits roqueiros característicos do grupo britânico. Mas como o próprio frontman disse, e como os maiores nomes da música fazem sempre, grupos e compositores evoluem, e tomar riscos não é apenas saudável; é fundamental.

Difícil de digerir, o novo trabalho do Arctic Monkeys fica melhor a cada execução. Quando se percebe as críticas e figuras de linguagem que Alex Turner construiu, um fator inédito se torna óbvio: pela primeira vez em sua discografia, o Arctic Monkeys soa como se tivesse algo a dizer. A novidade não é uma crítica aos seus últimos álbuns, que sempre mantiveram a letra afiada de Turner e um embalo característico, e entregaram boas músicas uma atrás da outra. Mas os temas da banda sempre se mantiveram constantes até agora, quando Turner retornou profundamente questionador da tecnologia, inspirado pela ficção científica e crítico dos rumos da sociedade. Todas as letras do novo álbum trazem uma nova maneira de encarar o presente com uma atmosfera pós-apocalíptica.

TBHC vai, faixa por faixa, se mostrando um álbum quase conceitual, que flui pela ideia do escapismo da internet e penetra os problemas da atualidade com a mesma esperteza que o Arctic Monkeys fez antes, mas seguindo um direcionamento distinto, resultado de uma evolução natural dos talentos de Turner como letrista. “Dance como se alguém estivesse assistindo, porque estão”, ele canta em “She Looks Like Fun”, um dos exemplos da crítica construída. As referências no novo álbum remetem a mestres de Bob Dylan a Leonard Cohen, mas Alex Turner é um artista em fase de amadurecimento. Deve-se notar que, naturalmente, ao se afastar tanto da sua temática familiar quanto de sua sonoridade, em alguns momentos, TBHC cai em suas próprias armadilhas e se vê arrastado, sem sustentação nem na letra nem na melodia. 

“Tentei escrever uma música para te fazer corar, mas sinto que o esforço possa ser esperto demais para o seu próprio bem”, Turner canta em “Science Fiction”, possivelmente uma das melhores letras, junto com “Golden Trunks” e “The Ultracheese”. A frase evidencia como o disco é absolutamente auto-consciente de seus próprios riscos, e como Turner já antecipava a divisão de opiniões que traria. Esperto como sempre, o compositor também criou uma faixa tratando de forma irônica o sistema de críticas, e acertou em cheio o que receberia – quatro de cinco estrelas.

Ouça Tranquility Base Hotel + Casino:

Nota do Crítico
Ótimo