Música

Crítica

Alice in Chains - Rainier Fog

Banda acha a sua paz e prova saber envelhecer

Felipe Cotta
24.08.2018
16h09

Dezesseis anos após a morte de Layne Staley interromper a trajetória de uma das mais simbólicas bandas dos anos 90 e doze anos desde a chegada de William DuVall, o Alice in Chains prova mais uma vez que mesmo com toda a tormenta consegue seguir sua trilha produzindo material consistente, honrando o passado e celebrando o presente.

BMG Rights Management/Divulgação

Rainier Fog continua o caminho aberto em Black Gives Way to Blue e The Devil Put Dinosaurs Here e mantém vivas as melhores características da banda: as harmonias vocais impecáveis e os momentos de peso avassalador que catapultam você para um paredão sonoro. Mas o interessante do álbum novo é perceber que, mais do que querer preservar o som típico da banda, isso não parece ser uma preocupação ou um fardo para eles.

Ou seja, aqui não existe mais o receio ou a insegurança de ter que enfrentar os fãs sem Staley ou de ter a obrigação de representar uma naturalidade que ainda não existia. Agora existe. Se Black Gives Way To Blue e Dinosaurs têm momentos memoráveis (e tem muitos), Rainier Fog é onde a banda achou sua paz e deixou simplesmente a música acontecer. Não existem muitas novidades ou um terreno inexplorado, mas também parece não existir cobrança e que se ouve é o Alice in Chains com uma vitalidade e uma confiança que só aperfeiçoa o que eles já faziam de melhor, com o perdão do clichê.

Por causa disso, a intensidade do disco é outra, seja para a calmaria como para a rebeldia, e dá pra sentir como eles relaxaram e se divertiram no estúdio. O single "So Far Under" é super pesado e sujo, e é uma das melhores coisas que a banda fez nessa segunda fase. É explosiva, nervosa e o duo vocal de Duvall e Cantrell brilha mesmo no meio de tanto acorde distorcido. Por outro lado, "Maybe" e "All I Am" trazem o mais profundo lado baladeiro dos dois: aqueles violões quase angelicais, os vocais carregados de melancolia e a nítida impressão de que estes 5 anos de intervalo só os deixaram com mais vontade de produzir algo novo.

Apesar da falta de um grande hit para “estourar” no rádio, (apesar de "The One You Know" ser uma forte candidata para essa vaga) a consistência é recompensadora e Rainier Fog ganha nesse quesito em relação aos últimos dois discos. A banda está sabendo envelhecer e soltar um pouco a mão para simplesmente fazer o que ama. E isso se reflete em cada nota, em cada sílaba. São como artesãos aprimorando sua precisão, seus detalhes, sua obra. Deixar um intervalo de 5 anos acontecer entre um álbum e outro só prova que a preocupação deles não é quantidade, mas sim a de fazer bem feito quando for a hora.

Isso fica evidente em "Red Giant", onde Duvall abusa dos vocais distorcidos para conduzir você até o refrão surpreendente que, dado um descuido, pode até parecer que Staley voltou para fazer uma participação. O mesmo acontece em "Deaf Ears Blind Eyes", uma música feita mais para ser sentida do que escutada. São grandes momentos de um álbum sólido que, se não é perfeito, pelo menos mantém lá em cima o sarrafo de uma banda que já teve tudo para se perder.

Layne Staley deve estar orgulhoso lá do céu. Seus companheiros aqui embaixo estão honrando seu legado com um grande trabalho.

Nota do Crítico
Ótimo