Como nasceu a icônica trilha sonora de Stranger Things

Música

Artigo

Como nasceu a icônica trilha sonora de Stranger Things

Compositores Kyle Dixon e Michael Stein fazem uso do synthwave

Julia Sabbaga
04.07.2019
14h35
Atualizada em
04.07.2019
19h24
Atualizada em 04.07.2019 às 19h24

A atmosfera retrô que torna Stranger Things tão popular tem suas raízes não apenas na estética e nos temas dos anos 1980, mas muito na música. Além de passar por canções daquela década, a série de TV conta com uma trilha original que foi notada desde o lançamento. A série levou o prêmio de melhor tema de abertura original no Emmy e a trilha da primeira temporada foi indicada ao Grammy, mas perdeu para John Williams com O Despertar da Força.

A música é um dos triunfos de Stranger Things. Os compositores da trilha, Kyle Dixon Michael Stein, têm uma habilidade para criar temas sombrios que combinam com o clima de suspense investigativo e sobrenatural do programa. Mas o crédito da ideia de usar o sintetizador e se basear no gênero synthwave para criar a atmosfera da série vai para os criadores, os irmãos Duffer.

Segundo os Duffer, o desejo de usar o som eletrônico veio, em parte, para diferenciar da atmosfera mais juvenil dos trabalhos de Steven Spielberg, que são referência clara na série. Em entrevista ao Hollywood Reporter, Ross Duffer explicou: “O minuto em que você coloca crianças com lanternas e bicicletas, a imagem grita Spielberg. E nós queríamos fazer algo diferente porque o seriado tinha que ser mais sombrio. Queríamos algo na linha de Stephen King, John Carpenter. E daí pensamos em nos aprofundar mais na música eletrônica”. 

Então, os criadores chegaram na dupla Dixon e Stein. Membros do  S U R V I V E, uma pequena banda de eletrônico de Austin, Texas, os músicos foram descobertos pelos criadores através da trilha sonora do filme de 2014 O Hóspede. Segundo Matt Duffer, os irmãos foram atrás dos músicos no Spotify, e usaram a música "Dirge" em um trailer inicial do projeto, que uniu diversas influências para a série: “Nós cortamos diversas cenas de Halloween, E.T., Poltergeist. Nós colocamos a trilha do John Carpenter de A Bruma Assassina e todas essas imagens funcionaram muito bem. E usamos uma das músicas do S U R V I V E nesse primeiro trailer. Então claro que quando chegou o momento de achar um compositor, eles foram os primeiros que vieram à mente” [via Complex]Mesmo sem nenhuma trilha sonora no currículo dos compositores, os Duffer entraram em contato e contrataram Dixon e Stein, que se demitiram de seus empregos na hora.

Apesar do S U R V I V E ser atualmente a maior banda de synthwave, gênero que define perfeitamente a trilha criada para Stranger Things, ela não foi a primeira banda a se aproveitar do estilo. Nascido no meio dos anos 2000, o synthwave é, por definição, nostálgico: ele surgiu em nichos da Internet, que criavam música inspirados exatamente na trilha de filmes dos anos 80, principalmente em filmes com trilha de Vangelis, John Carpenter ou Tangerine Dream. E o gênero ganhou força maior ainda no começo desta década. O maior exemplo de synthwave nas telas veio em 2011, na trilha do filme Drive, composta por Cliff Martinez:

A música de Drive também é citada como influência para os irmãos Duffer, assim como as trilhas criadas por Trent Reznor e Atticus Ross para os filmes de David Fincher, como A Garota Exemplar e A Rede Social. Os criadores frequentemente citam referências atuais para a trilha, mais do que compositores dos anos 80, exatamente pela predominância do synthwave, que fez o estilo ressurgir com força nos anos 2000 no cinema. O seu uso pode ser visto em filmes como Ex-Machina, Tron:Legacy, It Follows e por aí vai. É nessa moda que Stranger Things se inclui, e as releituras do synthwave no fim acabam combinando com a proposta nostálgica do seriado.

Assim como Angelo Badalamenti e David Lynch fizeram em Twin Peaks, os criadores de Stranger Things optam por um estilo musical mais atmosférico e envolvente do que as orquestrações tradicionais para trazer o espectador mais pra dentro do seu universo. Com moderação, Kyle Dixon e Michael Stein sabem quando e como usar a música, e num suspense isso é determinante. Sem a dupla, Stranger Things definitivamente não seria a mesma.  

O crédito, no fim das contas, segundo Matt Duffer, vai para a Netflix. Ao Complex, Duffer comentou: “Nós sabíamos que a qualidade da música poderia significar uma vitória ou uma derrota para o seriado. E fica como uma declaração de quão louco a Netflix é, de nos deixar contratar uma dupla de caras que nunca tinha trabalhado com isso nada na vida”.

Ouça a trilha sonora da terceira temporada de Stranger Things: