Black Sabbath em 1970, em matéria da Billboard

Créditos da imagem: Warner Bros. Records/Billboard/Divulgação

Música

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Black Sabbath | Como a banda criou um clássico do heavy metal em apenas um dia

Há 50 anos, jovens ingleses moldaram o heavy metal com álbum artesanal, vibrante e subversivo

Arthur Eloi
03.07.2020
18h45

Criar qualquer obra de arte, especialmente em grupo, é uma tarefa árdua. Cada membro contribui com sua visão e a criação coletiva é desenvolvida, editada, reescrita e afinada inúmeras vezes. Há 50 anos, em 1970, o Black Sabbath fez todo esse processo em apenas um dia. O resultado? Um álbum que até hoje é considerado o berço do heavy metal.

No final da década de 1960, o vocalista Ozzy Osbourne, o guitarrista Tony Iommi, o baixista Geezer Butler e o baterista Bill Ward faziam apresentações pela cidade de Birmingham, na Inglaterra. Os músicos eram bastante promissores, com claras influências do folk e blues da época, e chamavam um pouco de atenção com pequenos shows locais. O ponto de virada, que definiu a identidade da banda, veio quando eles se viram na necessidade de um novo nome. Fascinado pelo apelo de filmes de terror, o grupo adotou o título do clássico Black Sabbath - As Três Máscaras da Morte (1963), do diretor italiano Mario Bava. Mas o carinho pelo horror poderia ser levado adiante. Se as pessoas lotam cinemas para assistir experiências sombrias e aterrorizantes, por que não lotariam concertos?

Além de um conceito bem definido, o Black Sabbath teve a oportunidade de gravar em estúdio por dois dias, após uma performance de sucesso no rádio chamar a atenção do produtor Rodger Bain. O período talvez fosse o suficiente para um single de ponta, mas a banda não deixou a chance passar e fez um álbum inteiro - como Iommi descreve em sua biografia, um dia para gravar e outro para mixar, sendo que no terceiro dia fariam um pequeno concerto na Suíça, por cachê de cerveja. Tirando um ou outro efeito sonoro, quase nenhuma canção teve mais de um take.

A combinação da temática com as condições da produção criaram algo completamente inédito para a época. Black Sabbath, lançado em fevereiro de 1970, soa como um divisor de águas. Enquanto há uma pegada psicodélica e meio hippie da contracultura sessentista, também há faixas como a homônima “Black Sabbath”, com guitarras lentas, perturbadoras e letras sobre ocultismo e aparições sombrias. Mais tarde Rob Halford, vocalista do Judas Priest, batizaria a faixa como “a canção mais perversa já escrita”. E não é a única. “N.I.B.”, por exemplo, trata das tentações e promessas de Satã, e impressiona não só pela letra mas também por seus riffs visionários. A imprensa percebeu a mudança: “Eles são de Birmingham, na Inglaterra. É uma cidade violenta. O primeiro álbum deles demonstra isso”, afimou a revista Billboard na época. A partir daquele ponto, o termo “rock” não designava mais o tipo de música que o Sabbath fazia. Era algo mais pesado do que isso.

Assim como toda obra definidora de gênero, o álbum não foi o responsável por criar todos os elementos do heavy metal, mas sim de combinar ideias distintas em algo coeso, ousado e subversivo. A banda não foi a primeira a usar riffs sombrios, ou falar sobre o demônio nas letras (os Rolling Stones, por exemplo, criaram polêmica com “Sympathy for the Devil” apenas dois anos antes). Mas o Black Sabbath mostrou a identidade que o gênero viria a ter ao tocar sem medo em tabus, com atitude afrontosa e questionadora única de um grupo de jovens de classe trabalhadora do Reino Unido.

Paranoia

Nada deixa mais claro com a banda entendeu a própria identidade do que Paranoid. O segundo álbum de estúdio é até hoje considerado uma das maiores obras do metal, e o mais surpreendente é que foi lançado apenas alguns meses após o trabalho inaugural, em setembro de 1970. Logo de cara, o grupo abre com a provocadora “War Pigs”, uma crítica direta e sem ressalvas à Guerra do Vietnã - mas sem deixar a estética ocultista. Ozzy Osbourne critica o poder da elite e dos militares, que mandam jovens de classe baixa para a morte, e os compara com porcos e feiticeiros perversos. Em certo ponto, até afirma que as ações terão consequências, mesmo que no pós-vida: “De joelhos, os porcos de guerra rastejam / Implorando por piedade pelos seus pecados / Satã, rindo, abre suas asas”.

O restante do álbum não decepciona, já que é aqui que o Sabbath entrega alguns de seus maiores clássicos atemporais, como “Iron Man”. “Paranoid”, faixa-título, é um vibrante hino do metal que conquista justamente pela sua pegada artesanal - o que faz bastante sentido, quando considerado que a composição e gravação aconteceu em menos de uma hora. Aqui, a banda demonstrou que o verdadeiro espírito do gênero, assim como faria o punk na década seguinte, é fazer algo energético com as próprias mãos.

50 anos depois, o Black Sabbath é uma das maiores bandas do mundo, que não só teve carreira com qualidade constante, uma aclamada fase com Ronnie James Dio e inúmeros hits ao longo dos anos, mas também uma conclusão digna. Em 2017, a formação original do grupo fez turnê mundial para garantir que se despediria dos fãs da forma certa. O Sabbath pode não estar mais na ativa, mas seu legado é inseparável da história da música, seja pelo triunfo das carreiras-solo de seus membros, ou então de como moldou o heavy metal com criatividade e ousadia.

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