Imagem do Charlie Brown Jr.

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Música

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Como Chorão cantou sobre a juventude brasileira nas letras do Charlie Brown Jr.

Morte do músico completa sete anos, mas suas letras continuam ressoando com os fãs

Camila Sousa e Load Comics
06.03.2020
15h57

O Rock N’ Roll é um estilo que faz muito sucesso entre os jovens, especialmente por causa de suas letras sobre amadurecimento e revolta. No Brasil, há uma cena importante do gênero, com nomes como Raul Seixas, Legião Urbana, Titãs, CPM 22, entre outros, mas nenhum desses artistas conseguiu falar sobre a juventude brasileira, especialmente da periferia, como Chorão e o Charlie Brown Jr. E é exatamente por isso que as músicas do grupo ressoam até hoje.

Fundado em Santos em 1992, o Charlie Brown Jr. sempre teve uma personalidade única em suas letras, que tratam de temas comuns da adolescência e começo da vida adulta. Não é surpresa, por exemplo, que frases como “lutar pelo que é meu”, “tudo o que eu queria estava fora do meu alcance”, “cuide de quem corre do seu lado”, “hoje eu vou de limusine, mas eu já andei de trem”, “eu nasci pobre, mas não nasci otário” são algumas das mais famosas da banda. Afinal, para quem está realmente na correria da vida, estudando, trabalhando e buscando “seu lugar ao sol”, ouvir sobre isso gera uma identificação única.

O Charlie Brown Jr. estourou em 1997 e fez muito sucesso por décadas, mas esse sentimento de simplicidade e proximidade com seu público continuou, especialmente pela postura de Chorão. Com uma personalidade forte (que lhe causou alguns problemas ao longo dos anos), mas um carisma inconfundível, o vocalista sempre usou o mesmo estilo em seus shows e falou de forma simples sobre as dores do crescimento, atingindo um público que pouco se via representado na cena do rock. Além disso, o grupo também tinha influências de outros estilos, como o rap nacional dos anos 90, ajudando grandes grupos de hip hop e dando visibilidade para muitos artistas, como RZO, De Menos Crime, Sabotage e a própria Negra Li, que participa da música “Não é Sério”.

Essa relação intensa, potencializada principalmente pelos temas em comum entre os artistas, rendeu a Chorão algumas participações especiais, como em “Ninguém Vale Um Vintém”, da dupla Black Alien & Speed, em que canta junto com Tolerância Zero, BNegão, Xis, Pavilhão 9 e Paulo Napoli. Por outro lado, os já citados RZO e De Menos Crime participaram do Acústico MTV da banda em 2003. O reconhecimento dessa relação foi grande, tanto que Emicida, um dos principais rappers do Brasil, regravou “Como Tudo Deve Ser” em 2017, como uma homenagem ao líder da banda.

Chorão escreveu e cantou sobre suas próprias experiências, e uma delas é exatamente a criação em uma família simples, que não tinha dinheiro para pagar mensalidade em escolas particulares ou cursos de inglês. Como vários outros brasileiros, Alexandre Magno Abrão entendeu desde cedo que, quando se nasce pobre, você precisa começar a “se virar” desde cedo e ajudar no sustento de sua família. Esse sentimento existe em letras como a de “Tamo Aí na Atividade”, que diz “Sua atitude é de playboy porque sua vida é muito fácil/ Vencer na vida, no mundão, é pra quem tem coragem”. Chorão teve a coragem para vencer e com certeza suas letras dão força até hoje para vários jovens que precisam lutar diariamente para trabalhar, estudar, pagar contas, etc.

Marginal e apaixonado

Além de cantar sobre as revoltas da vida, Chorão também falava sobre amor. Apesar de afirmar na letra de “Não Uso Sapato” que não sabia fazer poesia, a verdade é que o compositor criava belas canções quando falava sobre seus sentimentos. O diferencial é que ele fazia isso sem perder a personalidade única do Charlie Brown Jr., focando sempre na beleza da simplicidade.

Isso está na letra de “Céu Azul”, lançada em 2011, em que Chorão canta: “tão natural quanto a luz do dia, mas que preguiça boa, me deixa aqui à toa. Hoje ninguém vai estragar meu dia, só vou gastar energia pra beijar sua boca”; e também em “Vícios e Virtudes”, em que ele retoma, dessa vez com mais maturidade, o tema de “Proibida Pra Mim (Grazon)”, um dos primeiros sucessos do grupo: a angústia do “marginal” que se apaixona por uma mulher completamente diferente dele: “Como chegar nela eu nem sei, ela é tão interessante e eu aqui pichando muro”.

Chorão tinha uma conhecida inspiração para suas músicas: Graziela Gonçalves, a sua Grazon, mas a verdade é que suas letras vão além do amor entre os dois e inspiram vários jovens casais que encontram a felicidade no meio de todas as dificuldades da vida. Esse é o tema, por exemplo, de “Só os Loucos Sabem”. Era de se esperar que uma letra com esse título fosse acompanhada de uma melodia pesada e questionadora, como o Charlie Brown Jr. fez muitas vezes. Mas o que Chorão entrega aqui é uma melodia calma e melancólica (ainda que cheia de esperança), de um homem que “não quer guerra com ninguém” e acredita que pode tornar seus sonhos possíveis: “Para quem tem pensamento forte, o impossível é só questão de opinião”.

Curiosamente, a última aparição pública do astro foi em fevereiro de 2013, para a divulgação da música “Meu Novo Mundo”. Parte do álbum La Família 013, a música canta sobre esse novo lugar que não tem limites e um Chorão calmo fala sobre como o destino brinca com as pessoas e diz “mas a vida tinha um plano e separou a gente”. Como vários outros grandes artistas, parece que o músico, de certa forma, previu que partiria em breve e deixou um último presente para seus fãs.

Assim como um adolescente que transforma sua revolta em motivação para continuar, Chorão amadureceu na frente de seu público e inspirou seus fãs a nunca desistir daquilo que desejam para suas vidas. Sua morte completa sete anos hoje (6) e foi seguida da partida também prematura de Champignon, baixista do Charlie Brown Jr., o que encerrou de vez as atividades da banda. Apesar disso, a importância do grupo e do músico continuarão, sem nenhuma dúvida, inspirando vários jovens e adultos ao redor do Brasil.