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Childish Gambino: Os significados escondidos em “This Is America”

Como o novo clipe do alter ego de Donald Glover se relaciona com o Brasil e Emicida

Jacídio Junior
08.05.2018
16h23
Atualizada em
10.05.2018
15h59
Atualizada em 10.05.2018 às 15h59

Uma das coisas mais incríveis da arte é a capacidade que ela tem de tocar pessoas em todas as partes do mundo. E Childish Gambino (sim, ele é o Donald Glover) fez isso com seu novo vídeo/single/hit/obra-prima “This is America”.

Caso você ainda não tenha visto, pare de ler aqui e veja abaixo. O vídeo bateu mais de 10 milhões de views em 24 horas e isso para um artista de rap, cantando uma crítica, é um feito absurdo. Afinal de contas quantas pessoas você conhece que sabem quem é Childish Gambino?

E aí entra toda a matemática da crítica desenhada por ele, já que para conversar com um público maior que o do seu quintal (os Estados Unidos) é preciso conseguir colocar imagens e ideias que sejam capazes de ir além do que o que está na tela. E Gambino, em conjunto com o diretor Hiro Murai (colaborador de longa data) e a coreógrafa Sherrie Silver, especialista em dança africana, entregou essa camada de nuances que funciona como um incentivo para ver e rever o vídeo de “This Is America” como algo que vai muito além dos 4 minutos de duração.

Com certeza, se você está acompanhando a repercussão dessa faixa, você já sabe que Glover faz movimentos que lembram o personagem Jim Crow (criado pelo comediante norte-americano Thomas D. Rice que pintava seu corpo de preto e se apresentava em casas mostrando um estereótipo do escravo típico de acordo com a leitura branca: Uma pessoa burra, vestida com trapos, trapalhão e preguiçoso. Esse “personagem” posteriormente serviu como nome - informalmente - das leis de segregação racial aplicadas nos Estados Unidos).

Tem a forma como as armas utilizadas para os assassinatos tanto do primeiro homem (que para alguns simboliza a morte da música de protesto) quanto do coral (em referência ao massacre ocorrido em uma igreja em Charleston, uma das mais antigas igrejas de afro-americanos no país) são recolhidas com total cuidado por um jovem, com um pano vermelho (as mãos de quem vende armas também estão sujas de sangue) enquanto os corpos são arrastados para fora da cena. Uma menção clara a uma nação que valoriza mais as armas do que a vida de um negro morto por elas. Ainda existem as roupas dos estudantes que dançam durante todo o vídeo que lembram as utilizadas pelos estudantes que estiveram presentes no Levante de Soweto, na África do Sul, em 1976, quando estudantes negros foram às ruas protestar por um sistema de educação que desse condições equiparadas para negros e brancos.

E aí, como parte de tantos simbolismos temos as partes capazes de serem aplicadas a, praticamente, qualquer realidade da população negra ao redor do planeta. A busca por se sobressair da massa por meio do entretenimento - uma das poucas formas do negro ser visto e “retirado” do prejulgamento vigente - e que funciona como a distração máxima para o que acontece ao fundo. A atenção fica com a “diversão” sempre em primeiro plano, e coloca os esforços da  juventude no alcançar isso enquanto o caos - em diversas formas - toma conta do plano de fundo. Algumas leituras enxergam essa construção como a forma com a qual a mídia leva a população negra, principalmente os jovens, a buscar por esse entretenimento (neste caso não para fazer parte dele, mas para se distrair e usando como referências), cheio de estereótipos e que mantém a cabeça ocupada com o que - em grande parte das vezes - não é importante.

Com essa leitura também é possível dialogar com as interpretações que afirmam que o assassinato do homem com o violão - no início do vídeo - seria o fim da música negra de protesto, sobrando somente a massificação do rap/hip-hop comercial que versa sobre carros, mulheres e dinheiro.

Mantendo a atenção nas sutilezas, ainda tem o cigarro que inicia a quebra da música  e do vídeo para uma passagem mais calma. Sobre este momento três leituras são possíveis: A leitura do uso da maconha para relaxar, algo muito presente no contexto norte-americano. A necessidade da automedicação, por meio do uso da maconha, para conseguir passar pela rotina absurda de ser um negro em um país com tamanha tensão/discriminação racial ou ainda, como notado em texto do Raplogia  “como o Gambino fuma cigarro, remete a diversos filmes dos anos 40, o homem branco calmamente acendendo um cigarro na esquina de uma rua. Após essa cena, ele volta a correr, porque ele como um homem negro americano, não pode viver esse sonho que a América (do norte) vende”.

Em conjunto com tudo isso ainda temos o possível significado do trajeto dos estudantes que passam o clipe todo dançando. O jornalista da Forbes ressalta em seu texto que durante o clipe é possível ver pelo menos 10 referências distintas, com destaque para a Gwara Gwara, originária da África do Sul. Ele ainda levanta três possibilidades para interpretar o processo que acontece durante o vídeo, das quais duas são bem interessantes. Os estudantes sempre que surgem na tela estão dançando e em nenhum momento são perseguidos, ameaçados ou sofrem com o que acontece no plano de fundo. Uma das possibilidades é que eles permanecem dançando para não chorar. A outra, eles estão dançando para a câmera ou para as mídias sociais e eles sabem que isso é uma distração ou um manto de invisibilidade (o entretenimento como única porta de ascensão social possível). E claro, tem ainda a possibilidade - mais clara - da dança ser o entretenimento de massa, tirando a atenção do que realmente importa: Tudo que acontece ao fundo.

Posteriormente ainda existem os carros: nenhum novo, todos das décadas de 80/90. Aí temos tanto a leitura de que, o que é vendido na TV, rappers, ricos, com supercarros não é a realidade. Somos enganados o tempo todo pela expectativa de algo que nunca tivemos e poucos têm. A ideia do se quiser você pode - sem que sejam levadas em conta todas as condições que dizem o contrário - ou ainda, como na leitura da Raplogia, que faz um link com o momento político vivido pelos Estados Unidos na década de 80, no qual a população negra sofreu com a disseminação do crack e a política de encarceramento em massa provida pela política do pensamento de “guerra ao tráfico”.

Por fim, mas não menos importante, existe a rápida participação de SZA ao final do vídeo, que ganhou uma extensão com uma foto postada por ela no Instagram com a legenda “Liberdade”, possivelmente indicando o simbolismo de estar vendo tudo de forma passiva, em nome da liberdade. De acordo com a Dazed, a imagem manda uma mensagem visualmente clara sobre a “hipócrita e venenosa retórica norte-americana de liberdade que abusa e silencia os membros marginalizados da sociedade”, o que eu costumo chamar de maleabilidade ética, quando você usa preceitos claros com aplicações distorcidas para continuar beneficiando quem está no controle. Nos Estados Unidos falar da primeira emenda para garantir que discurso de ódio não seja punido é um dos pontos desse olhar de soslaio sobre as minorias.

Com tudo isso em destaque, o clipe - pra mim - atinge um ponto que poucas obras da cultura pop conseguiram alcançar. Acredito eu, que vai além do que Lemonade de Beyoncé conseguiu, pois o vídeo é curto, não foi limitado por nenhuma plataforma e na hora seguinte ao lançamento já era visto, analisado e comentado por qualquer pessoa com acesso rápido à Internet. E então surge um comentário realizado no Twitter que define como a arte pensada para ter conteúdo, camadas e ser bem cuidada impacta as pessoas, justamente por que todos estão - ou grande parte das pessoas - estão em busca de ir além do fast food.

“Em conjunto com sua poderosa mensagem política, "This Is America" de Childish Gambino mostra como as pessoas estão famintas pela arte que as leva a sério - arte que recompensa a re-observação, arte na qual a análise aumenta o prazer ao invés de prejudicá-lo”.

Sem dúvida, são muitas referências. A junção de diversas ideias capazes de formar o pacote completo, e por conseguir falar dos problemas do seu quintal de uma forma tão ampla com tantos recursos semióticos, Gambino expande seu campo de ação e gera todo o burburinho, as reflexões e as pesquisas que conduzem para além do básico quando se pensa em música e business.

Temos muitas referências que podem ser interpretadas (quase) sempre de acordo com o alicerce que cada pessoa vem construindo e muitas delas ligadas diretamente ao cotidiano negro norte-americano, que ainda está reverberando, mas que também pode ser aplicado - em certa parte - à realidade negra brasileira.

O link com o Brasil

Mas após ver um material como este (ao menos pra mim) sempre surge a pergunta de ouro: Quem está fazendo algo com tamanha objetividade aqui no Brasil? Quem realmente está metendo o dedo na ferida? Possivelmente alguns nomes devem aparecer, mas o de maior projeção, atualmente, é Emicida.

É inegável que Emicida é uma das vozes que melhor reverbera as mazelas e as vitórias dos negros no Brasil. Sem medo de botar o dedo na ferida, de criar, de falar sobre preconceito e pautas que grande parte dos artistas tupiniquins tem medo, Emicida possui uma videografia que também merece destaque tanto pela coragem quanto pela mensagem.

Pra deixar apenas um exemplo, Emicida, em 2015, lançou o clipe de “Boa Esperança”, um vídeo que mostra a tensão entre patrões e funcionários que se encerra com a rebelião e a tomada do poder na casa. O vídeo também foi acompanhado por um documentário que mostra um pouco do processo para criá-lo e algumas entrevistas com mulheres negras que trabalharam como empregadas domésticas que foram utilizadas na concepção do projeto.

Neste caso, a análise fica justamente na coragem de fazer algo escancarado e aberto, já que no Brasil o tópico é velado e a conversa e a defesa de direitos é algo que gera discussões bobas, quase sempre gerando a necessidade de se explicar necessidades básicas para interlocutores que não fazem questão de entender o porquê da demanda. Logo, aqui a mensagem não pode ser camuflada, ela precisa e vai direto ao ponto e por isso incomoda. Incomoda justamente por ser a realidade que muitos fazem questão de dizer que não existe.

*Texto contou com colaboração de Gabriela de Almeida