Música

Entrevista

Cashu: A DJ que expande a cidade com seus sets | Dekmantel Brasil 2018

Uma das criadoras da Mamba Negra e nome confirmado no Dekmantel, fala sobre carreira, começo como DJ e os desafios da cena independente

Jacídio Junior
02.03.2018, às 17H09

Cashu (Carolina Schuzter) é um nome conhecido e reconhecido na noite paulistana. Uma das mentes por trás da criação da Mamba Negra, festa que surgiu no início da segunda década dos anos 2000 e desde então tem levado vida a diversos espaços abandonados de São Paulo com uma ideia de expandir o público, os locais e a cena eletrônica da cidade.

Facebook/reprodução

A hoje - também - DJ, já comentou diversas vezes que criar a festa foi um dos motivos que a levou aos decks e posteriormente a projetos como a Rádio Vírus e o selo Mamba rec.

Assim, em conjunto com todo esse leque de atividades, Cashu tem chamado a atenção para sua seleção musical tanto na cena nacional quanto na internacional, integrando em 2016 a lista de artistas globais que você precisa conhecer realizada pela Fader - uma das publicações musicais mais interessantes do planeta e se apresentando em clubes como o emblemático Panorama Bar/Berghain, em Berlim.

Mas antes de chegar às pick-ups, Cashu trilhou um caminho peculiar: Primeiro produzindo as festas, depois pesquisando músicas até que as oportunidades de assumir os decks começassem a surgir. A partir desse momento ela, meio a contragosto, foi assumindo o posto e posteriormente criando seu próprio caminho.

Cashu é uma das atrações do Dekmantel Festival Brasil - que acontece em São Paulo nos dias 3 e 4 de março - e já está confirmada também para a edição holandesa, que rola em agosto. Ela conversou com exclusividade com o Omelete e contou um pouco da sua carreira, vivência de pista/projetos e como o seu ideal de criar e manter espaços para que todas as pessoas possam dançar chega em seus sets. Leia abaixo.

A conversa com Cashu começa pautada em como as mudanças da Mamba - sonoras e visuais -  influenciaram diretamente sua forma de mostrar seu som. Sobre isso ela comenta que “A Mamba absorve muito da energia ao redor, percebo como ela sempre foi trocando de pele com o passar do tempo, mudando o estilo sonoro e visual de acordo com o que tem rolado na cena independente de São Paulo. E eu, como criadora e como artista, também fui me transmutando loucamente. Lembro quando comecei a tocar que ouvia e tocava mais Low BPM, Deep House, daí fui subindo pro Minimal Techno, Melódico depois Techno, Dub Techno, Industrial com uma pegada bem mais introspectiva”.

O fato de buscar essas mudanças e incorporar um bom range de sonoridades, de acordo com Cashu, tem feito com que suas pesquisas sonoras tenham se tornado mais receptivas às músicas com “sonoridades mais alegres ou mais distorcidas. Tenho ouvido bastante Lo-Fi House, Acid e Eletro”, enfatiza. E claro, com toda essa abertura para sons diferentes ela também comenta que seu foco está na ideia de mixar vários estilos juntos, mas sem deixar suas características de lado, mas também sem que somente um gênero domine suas escolhas. “Lógico que se o horário ou pista pede, posso fazer um set mais focado, até porque sou uma esponja, consigo sentir o que as pessoas querem ouvir. Mas meu interesse tem sido essa mistura louca que tô curtindo fazer e está rolando bem nas pistas.”

Mantendo a conversa nas influências que a Mamba exerce sobre a forma como ela toca e percebe a música, um detalhe interessante da festa é a busca pela fuga do circuito institucionalizado, ou seja, criar lugares diferentes para que as pessoas possam se sentir livres para ouvir o que gostam. Sobre a influência desse conceito em sua forma de tocar Cashu é categórica: “Desde o início meus sets nunca foram óbvios”.

A DJ segue afirmando que isso se deve a uma mistura de fatores, mas “Principalmente porque eu comecei a tocar por conta própria, lógico que pedi ajuda e dicas para amigos, mas minha experiência eu peguei nas pistas. Isto é, eu não tinha vícios de mixagens e regras, manjava super pouco de técnicas e da dinâmica da produção musical eletrônica. Isso fez com que eu nunca ficasse muito presa à gêneros, já que no início nem sabia diferenciá-los direito. E cabeça fresca cria a sua própria identidade e não se limita, né?”.

Agora, mesmo depois de uma vivência mais intensa nas pick-ups e de algumas aulas, Cashu confessa que a necessidade de não cair no óbvio se mantém como seu posicionamento artístico. “Tento sempre fugir de viradas muito previsíveis e sets muito homogêneos, busco arriscar coisas novas, criar história diferente do usual, ainda que dentro do meu mundo reticulado. [...] Gosto de me atualizar sempre, não tanto pelos outros, mas principalmente por mim. Mudar é ótimo”.

Obviamente que esse tempero distante do óbvio é um dos fatores que colocam Cashu em destaque para quem ouve um de seus sets, seja na Mamba seja em algum outro lugar do mundo. E sobre as diferenças entre tocar para um público que já conhece os caminhos que ela pode traçar e pessoas que - possivelmente - nunca ouviram seu som, a DJ destaca que a principal nuance está na receptividade. “tocar na Mamba e em outras festas aqui em São Paulo, é tocar para o meu público principal, que vai em todas as festas, que conhece meu som, que gosta de mim, e principalmente [tocar] para muitos amigos”. Mas com a possibilidade de tocar para um público que entende bem suas possibilidades na pista, Cashu está ciente de que essa é uma faca de dois gumes: "tocar para galera que te escuta sempre pode ser super difícil também. Já tive várias Mambas que fiquei bastante nervosa, justamente por conhecer as pessoas e ficar noiando no que elas estão pensando, porque a gente saca as reações, né!? E tocar para quem te vê sempre, sempre tem aquelas preocupações de será que as pessoas já estão enjoadas dessa música?”

Agora, quando toca pela primeira vez em outra cidade brasileira ou outros países a diferença fica alocada na pista majoritariamente formada por pessoas que nunca viram ela tocar. “Isso dá nervosismo, é claro. Mas pode ser até melhor. É maravilhoso quando a gente pega uma pista sem nenhuma cara conhecida e todo mundo vibra. Aí conseguimos ver o quanto estamos no caminho certo, e o quanto somos boas no que fazemos. Tive essa sensação ao tocar esse começo do ano no De School, lá em Amsterdam, curadoria do Dekmantel também. Fiquei muito feliz com o feedback do público e me diverti muito”.

O começo da Mamba Negra e a criação de novas possibilidades

Cashu, até o momento em que começou a tocar, não tinha ideia de que seria DJ. Ela conta que quando começou a Mamba junto com Laura Diaz, ela não se via como artista, “não tinha muito essas ambições”. E segue comentando que a intenção principal quando a festa começou, era abrir espaço para impulsionar novos artistas e gerar um novo tipo de encontro na cidade, “fomentando uma nova cena”.

A partir dessa convivência nos espaços e com as pessoas, Cashu afirma que percebeu a falta de uma plataforma online para materializar o que estava sendo produzido aqui em São Paulo. E da necessidade de impulsionar o trabalho dessas pessoas que estavam produzindo e tocando pela Cidade surgiu a Rádio VÍRUSSS e o selo MAMBA rec.

“Tanto a RÁDIO VÍRUSSS como a MAMBA rec (o selo) nasceram com esse intuito [de mostrar o trabalho de pessoas que estão por SP]. Pela rádio já passaram muitos artistas que não tinham nem set gravado, projetos paralelos de artistas, artistas que atuam totalmente fora do circuito comercial e artistas que atuam em outras cidades do Brasil, num circuito mais independente de off parties. E pela Mamba estamos lançando os artistas que tem uma relação mais próxima com a festa, isto é, residentes e artistas que tocam ou já tocaram com frequência, e que de alguma forma também são responsáveis por ela ser o que é hoje”.

Conjuntamente com esses novos braços, o projeto também tem a MAMBA bookings, uma ideia que auxilia diretamente tanto artistas residentes da festa quanto outros artistas que “acreditamos no trabalho”. Entre os nomes que compõem a empreitada estão Mari Herzer, Benjamim Sallum, Carol Mattos, Entropia, Érica, Exz_ e Jo a o. “É extremamente importante para mim que eu não esteja só em qualquer patamar, conquistas em grupo são muito mais gratificantes. Logo, esses projetos onde apoio e impulsiono o trabalho de outros artistas é uma das coisas mais importantes para mim e onde eu dedico a maior parte do meu tempo e energia durante a semana. Inclusive, sempre foi a minha maior fonte de prazer, por isso muitas vezes acabo até deixando meus projetos pessoais e minha sanidade mental de lado”, enfatiza.

E claro, para que todos esses braços funcionem bem, é necessário uma equipe bacana, algo que ela destaca como a sorte de ter encontrado pessoas que dividem essas funções com ela. “São pessoas maravilhosas como Tiago Franco (Gezender) que trabalha comigo na agência e faz os meus bookings e do Teto Preto, o Matheus Câmara e a Danila Moura que fazem a VÍRUSSS comigo e mais recentemente a Vic Passos que está absorvendo os bookings das outras artistas”.

Como parte de todas essas andanças e do tempo dedicado por Cashu a realização e sustentação de eventos que auxiliam a fomentar a cena de São Paulo e se ramificam pelo Brasil, acaba sendo quase impossível não fazer a pergunta clássica: O que underground é e significa pra você?.

“Sei lá, esse papo é meio chato, já”, comenta.

Mas sua definição sobre o que o underground pode ser, apesar do tamanho que ele tomou, é claramente definido pelo lado artístico, já que ela acredita que a questão do que é ou não underground habita em “[...] quem faz as coisas por amor e quem faz apenas por negócio. Existem muitos artistas, festas, labels, que estão aí por gostarem muito desse universo, independente do tamanho da festa e do dinheiro que ganham. A questão é como é usado, e qual a mensagem que está sendo passada”.

Para embasar seu ponto de vista, a DJ comenta que a música eletrônica em algumas partes do mundo surgiu com um viés político muito forte, e “desde então ela é um dos principais espaços de representatividade e acesso para pessoas oprimidas. Temos que forçar para que seja assim. Eu como mulher branca, nem posso falar muito sobre opressão quanto LGBTs e Negros, ainda que a opressão da mulher seja gigantesca desde sempre na história da humanidade e também dentro dessas mesmas comunidades, reconheço meus privilégios. Também por eles, me sinto na obrigação de fazer o que estiver na minha alçada para melhorar a realidade em que vivemos e espalhar as mensagens através de uma atuação artística”.

De forma prática, Cashu afirma que consegue levar essa mensagem e essas ideias tocando e circulando por lugares diferentes. “[...] não me tornei uma dj exclusiva ou difícil de bookar, continuo tocando em festas pequenas de rua etc. E sempre será assim”.

Onde a Cashu quer chegar?: De onde veio, pra onde vai e os próximos passos

Cashu, em quase toda entrevista, comenta que sua transformação em DJ aconteceu quase que por acaso. “Não era nada muito planejado, não. Tudo vai começando meio no impulso e vou aprendendo com os erros”.

Mas ela é enfática em ressaltar que sempre teve a ambição de ter um projeto consistente, que desse uma reviravolta na cena artística de São Paulo, “abrindo espaço para novos artistas e novos formatos de produção artística e que com o tempo se torna-se uma plataforma boa para impulsionar essa rede e divulgar o trabalho de pessoas fora do circuito comercial”. E não dá pra negar que ela está conseguindo.

Porém, todo esse trabalho em busca de ampliar possibilidades também tem sua parte desafiadora. Atualmente a Cashu produtora tem feito uma análise relacionada a curadoria e aos projetos, para sentir as mudanças que estão acontecendo em São Paulo “para pensar com calma nos próximos passos”.

Mas estar sempre ligada a tantos projetos e usinando ideias também gera desafios físicos. “Me sinto por vezes esgotada, todo meu trabalho me consome horrores, impedindo que eu tenha tempo para criar novos projetos com formatos diferentes, que é o que eu gostaria de fazer. Passo por fases de estafa onde as coisas parecem só burocráticas, junto com aquela sensação de que já fiz a minha parte, sabe? Essas fases são as piores, que você se vê fazendo as coisas que ama fazer, mas sem tesão. Ficando meio perdido para onde ir e onde direcionar as energias depois de já ter feito tanta coisa. Temos que aprender a lidar com todos esses sentimentos, porque afinal ter projetos contínuos é isso. E se em algum momento essas sensações perdurarem eu vou saber que vai ser a hora de buscar outros formatos de projeto que façam mais sentido no momento. Afinal, as coisas se esgotam”.

Cashu segue comentando que esse processo de mudança é algo natural já que a cada 5 anos a realidade na cidade muda. “O público muda, as pessoas que saem são outras, pessoas buscam algo diferente, tem uma cabeça diferente. Contudo, eu também sei que a cobra troca de pele (em referência a espécie que dá nome à festa), então tendo a não cair nesse pessimismo e sim aguardar essa reviravolta com o pé no chão”.

E claro, em conjunto com todas essas necessidades e mudanças no cenário das festas e da cidade, Cashu traça objetivos bem claros para seu lado artístico. “Eu quero me aprimorar como Dj, dominar melhor os equipamentos, aprender tocar vinil e futuramente produzir. Quero me manter tocando em lugares legais, nos quais me sinta confortável como mulher tocando, que sinto que tem a ver com o meu trabalho na Mamba e como artista. E continuar mantendo as boas relações que tenho de festas e com essa rede mais independente que se formou no Brasil; que tem muita mina envolvida, novos artistas, espaços que não são opressores para mulheres e LGBTs frequentarem”.

No final das contas, tudo está interligado, o som, a ideia e a mensagem. Cashu toca no Dekmantel, no dia 3 de março e todas as informações sobre o festival estão aqui. Para vê-la tocando em seu habitat, siga a página oficial da Mamba Negra o Facebook e se prepare para a próxima festa.

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