Só Bonnie Tyler podia cantar "Total Eclipe of the Heart"
Por que "Total Eclipse of the Heart" de Bonnie Tyler virou um clássico de karaokê
Créditos da imagem: Bonnie Tyler/YouTube
Eu já cantei isso muitas vezes, e você provavelmente também. "Total Eclipse of the Heart", de Bonnie Tyler, afinal, é uma das escolhas de karaokê mais populares do planeta, um clássico da madrugada alcoolizada que arrasta qualquer barzinho lotado junto consigo, transformando - se você tiver sorte - todo mundo no recinto num vocal de apoio entoando um retumbante "turn around..." de apoio ao frequentador sortudo que escolheu a música primeiro.
Ser mal cantado num karaokê, de certa forma, é o maior tributo que um artista pode receber. Significa não só que o público quer viver sua música em comunhão, em conjunto, mas algo ainda mais lisonjeiro: que o público quer fingir ser você, tentar ser você, mesmo que seja por breves minutos. E todo mundo quer ser Bonnie Tyler.
A cantora galesa, que faleceu ontem (8) aos 75 anos após um período estendido de internação, foi em "Total Eclipse" a encarnação do que se entendia como cool em certo período da cultura pop, que abraça boa parte os anos 1970 e 1980. Extravagante, dramática, dona de um talento inegável e irreproduzível - uma diva no sentido operático do termo, uma figura maior que a vida que se apresentava na tela como irreal, pertencente a outro plano de existência.
Parte importante disso é a teatralidade do clipe dirigido por Russell Mulcahy (sempre ele, responsável por visuais que definiram essa era da cultura pop), mas de certa forma ele só estava obedecendo à música. Jim Steinman escreveu não só uma das canções pop mais perfeitas da história, estruturalmente falando, mas também uma história de amor e sacrifício vampiresca, inicialmente pretendida para o cantor Meat Loaf, ele mesmo um famoso adepto da ópera-rock.
Ainda bem que o destino a deu para Bonnie Tyler, no entanto. Vocalista de alcance inacreditável, ela estendia "Total Eclipse of the Heart" das profundezas de seu registro mais rouco e pedregoso até as alturas cristalinas do seu quase falsete. Com ela, você ganhava Bruce Springsteen e Olivia Newton-John num pacote só - e com a personalidade para chutar a bunda de ambos.
Nada que eu já ouvi se compara de verdade à forma como Tyler cantava a bridge e o último refrão de "Total Eclipse", o desespero rasgado de sentir aquele amor que era um "barril de pólvoras" desaguando na serenidade melancólica de começar uma nova eternidade onde só há "amor na escuridão". Ela é capaz de ser tudo que a canção precisa, e poucas canções precisam de mais do que essa. O resultado é o momento mais verdadeiramente sublime da música pop.
Talvez daí venha o impulso de sempre pedir "Total Eclipse of the Heart" no karaokê. Bonnie nos faz sentir tanto, na canção, que queremos reencontrar a magia e sentir de novo. É uma vontade que não deve passar nem agora, que a artista excepcional que a criou não está mais conosco.
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